Construção civil deve fechar 2026 sem crescimento real em Minas Gerais
A construção civil em Minas Gerais deve encerrar 2026 sem crescimento real e ainda distante de uma retomada consistente. A avaliação é do presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil de Poços de Caldas (Sinduscon), Rodrigo Costa, que aponta um cenário de baixa atividade econômica, pressionado por juros elevados, restrição de crédito e escassez de mão de obra não só na região que atua, como em toda Minas Gerais.
“Eu não acredito que a gente vai fechar o ano com índices positivos”, afirma. De acordo com ele, que também é vice-presidente regional da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg – Regional Sul), o segundo semestre tende a ser ainda mais lento por causa do calendário eleitoral. “A atividade diminui muito em função do compasso de espera para saber qual será a diretriz do próximo governo”, avalia.
Apesar de um leve aumento no faturamento nominal, os números não refletem crescimento real. “Se você olhar o valor absoluto, está um pouquinho acima do ano passado. Mas, quando você tira a inflação, ele fica abaixo. Ou seja, o setor ainda não entrou em retomada”, explica.
Dados nacionais reforçam esse cenário: a construção civil cresceu 1,3% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025, enquanto os custos do setor subiram cerca de 7%. “Na prática, isso significa que a atividade está menor”, resume Costa.
Outro indicador que preocupa é a sondagem industrial, que mede a confiança do setor. “Estamos há 20 meses consecutivos abaixo de 50 pontos. O último índice foi 45,6. Isso mostra que não há perspectiva positiva de crescimento no curto prazo”, afirma.
Crédito caro e dependência de programas públicos
Na opinião do dirigente, entre os principais entraves está o alto custo do crédito. Com a taxa de juros elevada, investir em imóveis se torna menos atrativo. “Hoje é mais fácil deixar o dinheiro no banco rendendo do que investir em unidades imobiliárias”, diz.
Nesse contexto, o setor depende fortemente de políticas públicas, especialmente do programa habitacional. “O Minha Casa, Minha Vida é responsável por quase 50% das vendas. Sem ele, a atividade seria ainda menor”, aponta.
Ainda assim, o modelo atual tem limitações. “A gente precisa criar novos modelos de financiamento, menos burocráticos e que alcancem mais pessoas”, defende. Costa lembra que, apesar da construção de milhões de unidades nos últimos anos, o déficit habitacional brasileiro permanece praticamente inalterado. “Continua na casa de 7 milhões de moradias. Ou seja, a demanda tem crescido no mesmo ritmo”, observa.
Para o presidente do Sinduscon Poços de Caldas, o País precisa de uma política de habitação mais estável. “O ideal seria um programa de nação, e não de governo. Algo que não mude a cada eleição e permita planejamento de longo prazo por parte de todos”, diz.

Escassez de mão de obra e mudança no perfil profissional
Outro desafio crítico é a falta de trabalhadores qualificados. “Hoje, o nosso grande adversário na hora de contratar é a falta de mão de obra”, afirma.
Segundo ele, o setor sofre com a perda de profissionais técnicos e com a mudança no perfil das novas gerações. “Antigamente, o filho do carpinteiro queria ser carpinteiro. Hoje, ele quer ser engenheiro. E, muitas vezes, se forma, mas não consegue emprego na área”, diz.
O resultado é um desequilíbrio no mercado de trabalho. “A gente precisa muito mais de profissionais técnicos do que de formação superior. Só que existe um preconceito com essas funções, como se fossem inferiores”, completa.
Além disso, ele critica o impacto de políticas sociais no mercado de trabalho. “Muita gente prefere trabalhar na informalidade para não perder benefícios. Isso dificulta ainda mais a contratação”, diz.
Tecnologia e industrialização como caminho
Diante desse cenário, o setor busca alternativas para aumentar a produtividade e reduzir a dependência de mão de obra intensiva. “Estamos tentando qualificar quem já está nas empresas e investir em produtividade, porque não estamos conseguindo atrair novos trabalhadores”, explica.
A aposta de longo prazo está na modernização dos canteiros. “O grande desafio é entregar mais tecnologia e industrializar os processos”, afirma. Segundo ele, a construção off-site, com produção em fábricas e montagem no local, é um dos caminhos para ganho de escala.
No entanto, a falta de financiamento para inovação ainda é um obstáculo. “Não existe hoje um programa forte que subsidie a adoção de novas tecnologias na construção civil, como acontece em outros setores”, frisa.
Oportunidades passam por inovação e planejamento
Apesar das dificuldades, há espaço para avanço. Eventos do setor como a 24ª edição do Minascon e a Feconsulminas, principal feira do segmento da região, que serão realizados nos dias 11 e 12 de julho, em Pouso Alegre, no Sul do Estado, têm buscado discutir soluções e estimular a inovação. “A ideia é justamente encontrar caminhos para enfrentar esse cenário”, afirma.
Assim, para Costa, o futuro da construção civil precisa de mais acesso ao crédito, modernização tecnológica e políticas públicas mais previsíveis. “A demanda existe, as empresas estão capacitadas. O problema é que a gente ainda não conseguiu fechar essa conta”, conclui.
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