Economia

Futebol feminino cresce em Minas Gerais, mas ainda enfrenta desafios estruturais

Cruzeiro, Atlético e América destinam orçamentos milionários, mas ainda enfrentam obstáculos na formação de atletas e sustentabilidade
Futebol feminino cresce em Minas Gerais, mas ainda enfrenta desafios estruturais
Foto: Divulgação CBF

Os três principais clubes de futebol de Minas Gerais destinaram orçamentos de até R$ 20 milhões voltados para seus times feminino em 2025. O Relatório Nacional do Futebol Feminino, produzido pela OutField, pontua que apesar dos bons números quanto a investimentos na categoria e gestão, eles ainda precisam superar desafios significativos em áreas como a formação de atletas.

A consultora sênior de strategies da OutField, Laura Guarnier, destaca que o Estado ocupa uma posição singular no futebol feminino brasileiro, por contar com três representantes na Série A1 do Brasileirão Feminino. “O que já demonstra uma densidade competitiva que muitos estados não conseguem sustentar”, afirma.

No entanto, ela ressalta que a presença na primeira divisão não representa necessariamente investimento equivalente. A especialista relata que há uma assimetria grande entre os clubes mineiros.

O Cruzeiro Esporte Clube registrou orçamento anual entre R$ 15 milhões e R$ 20 milhões, figurando entre os maiores do Brasil. A equipe ainda apresentou uma folha salarial de R$ 750 mil a R$ 1 milhão por mês. Portanto, conforme o estudo, a relação entre a folha salarial e o orçamento é de 73%; acima do limite de 70% recomendado pela União das Associações Europeias de Futebol (Uefa) para viabilizar investimentos e melhorias estruturais.

“O Cruzeiro é o caso mais promissor do Estado e talvez o mais interessante do Brasil do ponto de vista da trajetória. O clube subiu da 43ª posição no ranking da CBF em 2020 para a 9ª posição em 2025, um salto de 34 posições em cinco anos, reflexo direto do crescimento real de investimento na modalidade”, avalia.

A especialista destaca que essa evolução é a prova de que é possível crescer rápido, desde que haja uma decisão estratégica por trás.

Já o Clube Atlético Mineiro apresentou orçamento de R$ 5 milhões a R$ 10 milhões na última temporada e folha mensal de até R$ 250 mil. Isso resultou na relação mais equilibrada entre os times analisados, com os custos com pessoal respondendo por 43% do montante destinado ao futebol feminino.

Para Laura Guarnier, o time detém o ativo mais valioso que existe no futebol feminino: uma enorme torcida, engajada e disposta a investir na modalidade. “Com mais de 106 mil sócios, a base de monetização potencial é imensa, basta ativar adequadamente”, aconselha.

No caso do América Futebol Clube, foi possível observar uma estrutura mais enxuta, com orçamento anual de até R$ 5 milhões e folha salarial de até R$ 250 mil. Dessa forma, a relação entre folha e orçamento é de aproximadamente 50% do valor total.

De acordo com o levantamento, todas as jogadoras que integram os elencos dos três times firmaram contrato com vínculo formal de emprego, via carteira de trabalho. A consultora sênior de strategies pontua que isso não é algo trivial no País. “O relatório aponta que ainda há atletas da Série A1 em outros estados sem Carteira de Trabalho assinada”, relata.

No entanto, o cenário é distinto quanto à questão dos direitos de imagem, onde apenas o Cruzeiro realizou o pagamento para todas as integrantes do elenco, enquanto Atlético e América pagaram para 30% e 17% das atletas, respectivamente.

Estrutura e gestão

Equipe feminina do Atlético Mineiro treinando na Vila Olimpica.
Foto: Daniela Veiga / Atlético Mineiro

Quanto à estrutura do time feminino, o grande destaque foi o Atlético Mineiro, com mais de 50 funcionários envolvidos nesse departamento e um centro de treinamento (CT) exclusivo para a categoria. O relatório ainda menciona a realização de treinos pontuais no CT do time masculino para gerar maior integração e proximidade entre as categorias.

“Uma boa prática que poucos clubes adotam conscientemente”, destaca a consultora sênior.

Já o Cruzeiro possui entre dez e 25 colaboradores e o CT é compartilhado com a base do time masculino. A equipe do América também possui um centro exclusivo, mas o quadro de funcionários é de até dez pessoas.

De acordo com o relatório, o Atlético é o único time mineiro que deixa explícito a inclusão do futebol feminino nos ingressos e benefícios do programa de sócio-torcedor no momento da adesão. O Cruzeiro também possui o feminino incluso, mas, de acordo com o estudo, as vantagens não estão muito claras.

No caso do Atlético, ele disponibiliza ingressos gratuitos, e valores considerados acessíveis: R$ 10 por mês para quem já é sócio e R$ 15 mensais para os novos associados. Os sócios ainda têm direito a descontos na loja do clube e participação em sorteios.

Para a OutField, a criação do plano reforça a valorização da equipe feminina, ao mesmo tempo em que posiciona o clube como um dos pioneiros a promover este tipo de iniciativa. Além disso, todo valor arrecadado é investido na categoria, o que ajuda a reforçar o compromisso do clube com a modalidade.

“É uma prática que demonstra comprometimento institucional real, mesmo que o volume de investimento ainda precise crescer muito”, avalia.

Categorias de base e mercado de transferências

Já sobre as categorias de base, Atlético e América possuem apenas o Sub-20 ativo, porém, sem contratos de formação formalizados com as atletas. O Cruzeiro, por sua vez, conta tanto com uma equipe Sub-17 quanto com contrato de formação com todas as atletas. Outro ponto destacado no estudo é que os três clubes não possuem alojamento para atletas da base.

O subinvestimento na categoria de base é, na visão de Laura Guarnier, um dos principais desafios estruturais do futebol feminino em Minas e no Brasil. Segundo ela, o relatório identificou que há apenas dois clubes no Brasil trabalhando o ciclo completo de formação (Sub-13, Sub-15, Sub-17 e Sub-20): São Paulo e Ferroviária.

Ela ressalta que isso é um problema grave para o médio prazo, pois sem base, o clube depende de mercado para montar elenco, e a escassez de atletas formadas já gera inflação salarial. A especialista relata que os clubes estão pagando mais do que deveriam por atletas abaixo do nível técnico esperado simplesmente porque não contam com opções suficientes.

As projeções do relatório indicam que o volume anual de transferências internacionais no futebol feminino global deve ultrapassar US$ 500 milhões nos próximos dez anos, com taxa de crescimento anual projetada em 44% no período.

Laura Guarnier destaca que as atletas brasileiras representam a segunda nacionalidade com maior número de movimentações internacionais, com 562 transferências no período analisado, atrás apenas dos Estados Unidos (1.309). “Em 2024, elas acumularam os maiores valores de transferências pagos globalmente, somando US$ 1,9 milhões”, acrescenta.

A especialista pontua que esse cenário tem impacto direto nos clubes mineiros, com possibilidade de geração de receitas tanto pela taxa de transferência quanto pelo Mecanismo de Solidariedade da Fifa, que remunera os clubes formadores ao longo de toda a carreira da atleta.

O Cruzeiro é o grande destaque de Minas Gerais no mercado de transferência de atletas. O clube somou cerca de 490 mil euros entre os anos de 2020 e 2025 com vendas internacionais. Entre as negociações realizadas, o estudo destaca a transferência da lateral Isabela Chagas para o clube francês Paris Saint-Germain, em setembro do ano passado, por 320 mil euros, que figura entre as mais valiosas do Brasil.

A consultora relata que o Estado, de maneira geral, ainda está em desvantagem estrutural se comparado com outros grandes centros, como São Paulo. “A diferença é que em São Paulo o ecossistema já tem massa crítica: há base, há competição estadual com mais de dez equipes e há patrocínio específico ao Paulistão”, diz.

Cenário no futebol estadual

Equipe feminina do Cruzeiro comemorando o título do Campeonato Mineiro 2025.
Foto: Tiago Trindade / FMF

Guarnier pontua que o Campeonato Mineiro tem entre seis e nove equipes participantes. Ela ainda acrescenta que a Federação Mineira de Futebol (FMF) não oferece subsídios de alimentação, hospedagem, transporte e de ambulância, assim como apoio à arbitragem. Além disso, o relatório aponta que o torneio local possui apenas uma competição de base feminina: o Campeonato Mineiro Sub-17.

“É uma estrutura estadual que ainda precisa evoluir muito para sustentar o crescimento dos clubes”, completa.

O campeonato estadual é apontado pela analista como outro desafio estrutural para os times mineiros. Ela reconhece que o fato de o torneio ter isenção de inscrição é um avanço, mas reforça que a ausência de subsídios operacionais básicos é um ponto a ser resolvido para viabilizar a participação dos clubes.

Para Laura Guarnier, sem esse suporte, a operação de cada jogo se transforma em um custo extra que o próprio clube precisa cobrir. Ela destaca que todos os times entrevistados no levantamento apontaram esses custos como a principal dor da modalidade.

Outro desafio para a evolução da categoria está relacionado à transparência financeira. A consultora destaca que nenhum dos clubes mineiros publicam demonstrativos financeiros separados para o futebol feminino. “Sem essa separação, é praticamente impossível medir o retorno real do investimento, justificar aumentos de orçamento para a diretoria ou atrair patrocinadores com propostas embasadas em dados”, explica.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas