Importação de botijões de gás da China reduz produção e ameaça empregos na Mangels em Três Corações
A intensificação das importações de botijões de gás e a possibilidade de o governo federal zerar a tarifa de importação do recipiente têm preocupado a prefeitura de Três Corações, no Sul de Minas Gerais. A Mangels, com sede na cidade e responsável por cerca de 30% do mercado nacional de botijões, já reduziu de dois para um turno a produção, cortou cerca de 150 postos de trabalho entre funcionários, terceiros e temporários e avalia novas reduções, caso o avanço das importações continue ou a tarifa seja zerada de fato.
Segundo o CEO da Mangels, Ivan Ciruelos, a empresa poderá apresentar uma queda significativa nas vendas até o fim deste ano. “Daqui em diante, de setembro até o final do ano, nós estamos falando em uma queda de 75% nas vendas”, afirmou.
De acordo com Ciruelos, a redução do ritmo de produção já começou em agosto. Neste mês, a empresa que operava com dois turnos, ou 16 horas diárias, passou a trabalhar com apenas um. Segundo ele, a Mangels avalia a necessidade de reduzir ainda mais a operação.
“Nós cortamos um turno neste mês, e provavelmente teremos que cortar de um turno para meio turno”, disse. “É tão drástica a queda do volume em relação à capacidade que nós temos, que nos leva a tentar administrar parcialmente a construção do produto em etapas com as mesmas pessoas, por falta de volume mínimo para manter um turno funcionando”, detalhou.
Conforme explicou o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico de Três Corações, Gustavo Franco, as fabricantes de botijões de gás liquefeito de petróleo (GLP), entre elas a Mangels, acreditam em um desequilíbrio comercial em relação às distribuidoras de gás de cozinha em meio à disparada na importação desses recipientes da China.
A Mangels defende que esse desequilíbrio está presente desde que o imposto de importação sobre o aço foi elevado para 25%, em abril de 2024, para proteger a indústria siderúrgica nacional. Conforme o secretário, a tarifa sobre o botijão acabado não acompanhou a aplicada ao aço e permanece em 12,6%, impactando a indústria nacional.
Segundo Ciruelos, o botijão é composto majoritariamente por aço, o que, na avaliação da empresa, torna a diferença entre as tarifas um problema para a indústria nacional. “O botijão é 70% aço. A gente sabe toda essa questão da China, quem está envolvido no mercado de produção de qualquer artefato ou produto que tenha aço: a China tem preços impossíveis de serem competitivos”, afirmou.
Ele argumenta que, ao elevar para 25% o imposto de importação do aço chinês, deveria ter adotado a mesma alíquota para a cadeia. “O Brasil tomou medidas, elevou o imposto de importação de aço da China a 25% e colocou ainda um antidumping com cotas. Muito bem, o botijão é aço. Então, a alíquota do botijão deveria ter sido majorada para 25%”, defendeu.
A disparada na importação dos botijões, sobretudo da China, foi impulsionada pela criação, há um ano, do programa Gás do Povo, em que cerca de 15 milhões de famílias passaram a ser beneficiadas com o combustível. O volume elevou a demanda por novos botijões, já que um dos objetivos do programa era estimular a migração do uso da lenha para o gás.
De acordo com a Mangels, as empresas distribuidoras de gás já haviam adquirido, no primeiro semestre deste ano, cerca de 515 mil botijões de GLP de 13 kg (P13) no exterior, sendo mais de 90% da China. Até agosto, foram 937 mil botijões importados, conforme informou a Mangels. Considerando o decorrer de setembro, a empresa estima que o número já tenha superado 1 milhão, equivalente a cerca de um terço da demanda nacional, de 3 milhões de botijões novos por ano.
A nível de comparação, no ano passado cerca de 29 mil botijões foram importados pelo Brasil. “Ficou bastante desigual essa balança”, afirmou o secretário sobre a questão.
Para Ciruelos, o volume representa uma mudança inédita para o mercado brasileiro. “O Brasil nunca importou botijão na história do País, provavelmente desde quando a Mangels começou a fabricar botijão em 1937. Ou seja, a gente está falando de 90 anos que o Brasil nunca importou botijão. E agora a gente se depara com 1 milhão de botijões importados”, afirmou.
Segundo ele, a empresa tinha carteira de pedidos acima do registrado no ano passado até agosto, e vinha com boas expectativas, até projetar uma forte redução a partir de setembro. “Até então nós tínhamos a carteira cheia e o volume vinha um pouco acima do ano passado. Mas isso até agosto”, informou.
Empregos
A redução da produção já teve impacto sobre o quadro de trabalhadores da empresa. “Quando a gente soma, sejam funcionários, temporários e terceiros, nós estamos falando em já ter demitido e cortado cerca de 150 pessoas. Mas essa conta vai bater 300 pessoas até o final do mês de outubro”, afirmou.
O executivo disse que a empresa busca alternativas para preservar parte desses profissionais, inclusive por meio de remanejamento para outra unidade da companhia. “Nós estamos tentando remanejar o pessoal para a fábrica ao lado que nós temos de fundição de alumínio”, disse.
Segundo o secretário Gustavo Franco, a Mangels emprega atualmente mais de 2 mil pessoas na cidade e representa aproximadamente 12% das carteiras assinadas de Três Corações. “Se nada for feito, a gente pode ter um impacto até maior, podendo alcançar até cerca de 600 colaboradores”, detalhou.
Sobre o peso da companhia para a economia regional, Ciruelos comentou: “Nós temos 2,2 mil funcionários em Três Corações. A Mangels é o maior empregador do Sul de Minas, é o maior gerador de impostos entre as empresas. Somos uma indústria extremamente relevante na região e para o Estado de Minas Gerais”, afirmou.
Disputa pela tarifa
A Mangels levou a discussão a Brasília e participou de reuniões com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Ministério do Planejamento e Casa Civil. A empresa defende que a tarifa de importação dos botijões seja elevada para 25%, acompanhando a proteção aplicada ao aço.
Segundo Ciruelos, a empresa também conta com o apoio de outras indústrias da cadeia, como siderúrgicas, fabricantes de tintas e válvulas, além do Sindicato dos Metalúrgicos de Três Corações. “Fomos a Brasília, fomos bem acolhidos em todos os ministérios. Tivemos até junto conosco o Sindicato dos Metalúrgicos de Três Corações, a ajuda do prefeito, ajuda de deputados de Minas Gerais, enfim, de todos relacionados ao tema”, afirmou.
Para a Mangels, a eventual redução da tarifa para zero agravaria a diferença de custos entre o produto nacional e o importado. “Se for a zero, acabou. Eu não tenho como manter a indústria. A indústria de botijão no Brasil acabou”, afirmou Ciruelos.
O executivo também questionou o argumento de que a importação seria necessária para atender à demanda gerada pelo programa Gás do Povo. Segundo ele, a indústria nacional possui capacidade ociosa para ampliar a produção, desde que haja planejamento e previsibilidade de demanda. “Se faltasse botijão e você precisasse importar, o mercado estaria aberto a importar. Mas tem que importar para dentro de 25% de imposto de importação. Qual é a lógica de você baixar a zero?”, questionou.
Ciruelos afirmou que a Mangels estaria atualmente utilizando apenas 25% de sua capacidade produtiva. “Eu tenho capacidade ociosa, estou trabalhando só com 25% agora da minha capacidade, demitindo. Quer dizer, como assim não tem capacidade? Tem capacidade, sim”, disse.
Sindigás defende tarifa zero
Procurado, o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Sindigás) respondeu em nota que defende a redução a zero da tarifa de importação de recipientes de GLP como uma medida complementar e temporária para atender ao aumento da demanda por botijões no mercado brasileiro.
Segundo o sindicato, a necessidade de ampliar o número de recipientes em circulação ganhou ainda mais relevância com a implementação do programa Gás do Povo, que ampliou o acesso ao GLP e, consequentemente, a demanda por novos botijões. “Nesse contexto, a importação funciona como uma alternativa para complementar a produção nacional e permitir a incorporação de novos recipientes ao mercado no prazo necessário”, informou.
Ainda segundo o Sindigás, a medida não representa substituição da produção brasileira, que continua sendo demandada pelas distribuidoras. “A redução temporária da tarifa busca justamente garantir maior agilidade na expansão do parque de recipientes, evitando que eventuais limitações de oferta ou prazos de produção comprometam o atendimento às famílias beneficiadas pelo programa”, diz a nota.
O Sindigás informou ainda que acompanha as discussões no âmbito da Camex e defende que a decisão considere as necessidades atuais do mercado, os impactos sobre o abastecimento e o objetivo de ampliar o acesso da população ao GLP.
A definição sobre a tarifa ainda está em análise técnica no âmbito do governo federal, segundo Ciruelos. “Não tenho prazo. Isso ocorre do ponto de vista de análise técnica no Mdic e na Camex, que são os ministérios competentes, que vão dar o parecer técnico”, afirmou.
Ouça a rádio de Minas