Mercado de aço não prevê aumento de preços no curto prazo
O mercado brasileiro de aço entra no segundo semestre sem perspectiva de aumento de preços no curto prazo, diante de uma demanda ainda enfraquecida e de estoques elevados nas distribuidoras. Segundo o presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda), José Carlos Loureiro, as usinas não sinalizaram reajustes para setembro. A recomendação é ter cautela na formação dos estoques. Os dados foram apresentados em coletiva de imprensa nesta quinta-feira (20).
“Não vejo, nas minhas conversas com pessoas de usina, nenhuma disposição de baixar preço”, afirmou Loureiro. Para ele, também não há indicação de aumentos no próximo mês. A possibilidade de redução, embora não esteja no radar das usinas, tampouco pode ser totalmente descartada, especialmente em negócios pontuais envolvendo lotes específicos ou estoques.
A avaliação do presidente do Inda é baseada no fato de que as vendas das distribuidoras ainda estão abaixo do registrado no ano passado. Em julho, as vendas cresceram 3,9% na comparação com junho, mas o resultado acumulado de janeiro a julho ainda aponta queda de 1,5%. Para Loureiro, a situação permanece difícil e a expectativa é, na melhor hipótese, terminar o ano com o mercado praticamente estável. “A gente tem um grande problema com a nossa indústria, em condições muito difíceis. Então, dificilmente nós vamos ver um crescimento do aço esse ano”, afirmou.
As compras das distribuidoras também avançaram em julho, mas o acumulado do ano permanece negativo, com retração de 2,9%. A perspectiva, segundo Loureiro, é de avanço de aproximadamente 1,5% nas vendas de agosto em relação a julho. Porém, mesmo com esse crescimento, o acumulado deverá continuar em queda.
Um dos principais sinais de pressão sobre o mercado está nos estoques. O nível das distribuidoras permanece em 3,6 meses, patamar considerado elevado pelo Inda. Segundo Loureiro, o nível considerado mais saudável seria entre 2,9 e 3 meses.
A manutenção de estoques elevados se tornou ainda menos atrativa diante do custo Brasil. Com juros básicos em torno de 14% ao ano, manter recursos parados em produtos estocados representa um custo significativo para as empresas. “Seria saudável, e é o que a gente recomenda aos nossos associados, que diminuam esses estoques”, afirmou.
O movimento também está relacionado à expectativa frustrada de aumentos de preços. Segundo Loureiro, os estoques chegaram a subir porque havia uma percepção no mercado de que as usinas poderiam elevar os preços. Diante dessa possibilidade, os distribuidores aumentaram as compras para garantir produtos pelos valores anteriores. Como essa perspectiva de grandes aumentos de preços não se concretizou, a estratégia perdeu atratividade.
Indústria perde espaço
Além da demanda interna mais fraca, o mercado de aço ainda enfrenta a concorrência da importação indireta, incorporada aos produtos industrializados comprados pelo Brasil. De acordo com Loureiro, a importação de produtos industrializados cresceu 19% neste ano em relação ao ano passado, reduzindo o mercado disponível para a indústria nacional.
O fenômeno afeta diretamente segmentos consumidores de aço, como os setores automotivo, de máquinas e equipamentos e de equipamentos agrícolas. No setor automotivo, por exemplo, o aumento das vendas de veículos ocorre, em parte, com maior participação de modelos importados. “Os nossos consumidores estão perdendo mercado. Então, fica muito difícil a gente crescer”, afirmou.
Para Loureiro, essa perda de espaço da indústria ajuda a explicar por que o consumo brasileiro de aço permanece praticamente estagnado, apesar de alguns indicadores positivos das usinas.
Em julho, as vendas das usinas somaram cerca de 1,1 milhão de toneladas, alta de 7% em relação ao mesmo mês do ano anterior. No acumulado de janeiro a julho, o avanço foi de 2,5%. O resultado, no entanto, é atribuído principalmente à redução das importações, e não a um crescimento efetivo do consumo.
O consumo aparente de aço, segundo os dados apresentados pelo Inda, caiu 3,7%, mesmo com o aumento das vendas das usinas. A importação direta de aço também recuou, com queda de 31% em julho e de 24% no acumulado de janeiro a julho. “A diminuição da importação fez a usina crescer, mas o consumo não cresceu”, comentou.
China amplia pressão sobre o mercado
Loureiro destacou ainda a diferença entre a evolução da produção siderúrgica brasileira e a de grandes produtores mundiais. Em 2004, o Brasil produzia cerca de 33 milhões de toneladas de aço, enquanto a China fabricava 273 milhões de toneladas. No ano passado, o Brasil continuava próximo das 33 milhões de toneladas, enquanto a produção chinesa havia alcançado 961 milhões de toneladas.
A Índia, outro país em desenvolvimento, também apresentou forte expansão, passando de cerca de 33 milhões para 165 milhões de toneladas no período.
Para o presidente do Inda, essa disparidade ajuda a explicar a pressão exercida pelo aço chinês sobre os mercados internacionais. “Essa é a razão por que a China está inundando o mercado com aço”, afirmou.
O cenário coloca a indústria brasileira diante de condições consideradas difíceis para ampliar a produção e recuperar participação no mercado. Na avaliação de Loureiro, dificilmente o consumo de aço no Brasil terá crescimento expressivo neste ano: “Provavelmente, veremos um crescimento entre 1% e 2%, mantendo as cerca de 33 mil toneladas”.
Importações mudam de perfil
O presidente do Inda chamou a atenção para outro ponto: houve mudança nas origens das importações. Em julho, o Vietnã passou a liderar os embarques para o Brasil, com 53 mil toneladas, seguido pela China, com 40 mil toneladas, e pelo Egito, com 26 mil toneladas.
No entanto, Loureiro destacou a possibilidade de haver uma triangulação de produtos chineses por meio do Vietnã, algo que, segundo ele, merece atenção.
Exportações seguem limitadas
As exportações brasileiras de aço continuam relativamente fracas, conforme os dados apresentados. Até julho, foram embarcadas 847 mil toneladas, crescimento de 2,8% em relação ao mesmo período (janeiro a julho) do ano anterior. Na comparação anual, a alta ficou em apenas 0,4%.
O principal produto exportado é a placa, tendo os Estados Unidos como principal destino. Em proporções menores, também houve embarques para países europeus, como Espanha, França e Alemanha.
Nesse ponto, Loureiro destacou a diferença entre os preços praticados. As bobinas brasileiras estão sendo exportadas por valores superiores a US$ 550 por tonelada, enquanto a bobina laminada a quente importada pelo Brasil chega ao mercado nacional por menos de US$ 500 por tonelada. Para ele, o quadro evidencia a pressão competitiva enfrentada pela siderurgia brasileira.
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