Com dois dias úteis a mais do que junho e mercado consumidor aquecido, indústria mineira cresce em julho

Apesar da alta na produção, emprego segue em queda e expectativas para o futuro recuam
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Com dois dias úteis a mais do que junho e mercado consumidor aquecido, indústria mineira cresce em julho
Crédito: Marcelo Albuquerque de Lima / Usina Coruripe

Após queda em junho, quando registrou retração no índice de evolução da produção industrial, que caiu de 50,6 para 47,1 pontos, segundo levantamento da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), o segmento do Estado reagiu em julho, conseguindo ficar acima dos 50 pontos, registrando 51,7 pontos no índice que mede a produção industrial mineira.

O resultado acima de 50 pontos foi favorecido em parte pelo maior número de dias úteis em julho, já que o mês teve dois dias úteis a mais que junho, um efeito de calendário que impacta diretamente a contagem da produção”, disse a economista da Fiemg, Daniela Muniz.

Na comparação com junho, o indicador teve avanço de 4,6 pontos e ficou um ponto acima do nível registrado em julho do ano passado. Ou seja, houve aumento tanto em relação ao mês anterior quanto em relação ao mesmo período do ano passado.

Base forte

Um ponto a ser destacado nesse crescimento de julho da produção da indústria mineira é que, apesar dos contratempos do contexto econômico brasileiro, há uma base de consumo que está sustentando o giro de produtos que chegam ao consumidor final.

A economista da Fiemg, Daniela Muniz, explicou o que ajudou a manter o indicador positivo mesmo diante de tantas restrições e reforçou a importância do mercado de trabalho como sustentação para o consumo da produção industrial.

“O mercado de trabalho tem se mostrado resiliente. Setores mais dependentes da renda da população, e menos dependentes de crédito, conseguem se manter mais firmes. Com um mercado de trabalho forte, a demanda se mantém relativamente aquecida, permitindo que a indústria alcance resultados positivos, como ocorreu em julho”, comenta Daniela Muniz.

“Apesar dos juros elevados e do menor dinamismo da economia, que já apresenta sinais de desaceleração, o emprego e a renda continuam sustentando o consumo. O nível de ocupação segue elevado, com desemprego relativamente baixo, um mercado de trabalho resiliente que tem ajudado não só a indústria, mas também o comércio, os serviços e a economia como um todo”, completa.

Espaço para crescer

Apesar dessa melhora pontual da produção, os demais indicadores mostraram que a recuperação ocorreu em um ambiente ainda marcado pela cautela.

O emprego industrial, por exemplo, continuou em queda, com o índice de evolução do número de empregados permanecendo abaixo dos 50 pontos, fechando julho em 48,5 pontos.

Além disso, o índice de utilização da capacidade instalada efetiva em relação ao usual para o mês registrou 43,4 pontos.

Apesar de um pequeno avanço em relação ao mês anterior, o resultado ficou abaixo do nível habitual para julho, mostrando que as empresas ainda operaram com capacidade ociosa.

Esse dado indica que as empresas têm espaço para elevar a produção sem necessidade imediata de ampliar investimentos ou contratar mão de obra. Ou seja: há espaço para novo crescimento sem afetar o caixa das empresas.

Estoques

O exemplo mais claro de que a indústria de Minas Gerais pode avançar mais é visto no gerenciamento dos estoques de produção. Os estoques de produtos finais aumentaram pelo segundo mês consecutivo, com o indicador marcando 51,7 pontos em julho, e ficaram abaixo do planejado pelos empresários pelo décimo segundo mês consecutivo, com índice de 48,5 pontos.

Isso mostra que o nível de estoques continua inferior ao considerado adequado pelos empresários. Embora estoques abaixo do planejado possam, em alguns casos, estimular a produção futura, o fato de estarem nesse patamar há 12 meses consecutivos revela cautela na recomposição por parte dos empresários, que evitam manter estoque elevado, já que o ideal é operar de acordo com o planejado.

Expectativas para os próximos meses

Para o cenário prospectivo, referente a partir de agosto, as expectativas perderam força, segundo a economista da Fiemg, Daniela Muniz. Na comparação com julho, todos os indicadores de expectativas para os próximos seis meses recuaram:

“A demanda permaneceu positiva, mas com leve redução, ficando em 53,1 pontos, ainda indicando expectativa de crescimento. A compra de matérias-primas passou do campo positivo para uma perspectiva de estabilidade, marcando 49,9 pontos, o menor resultado para agosto em 11 anos. Já o emprego entrou no campo negativo, com 48,8 pontos, sinalizando expectativa de redução do quadro de pessoal nos próximos seis meses”, disse.

Daniela Muniz indica que o levantamento da Federação das Indústrias mostrou que as intenções de investimento também diminuíram em agosto, ficando abaixo do nível observado tanto no mês anterior quanto no mesmo período do ano passado.

Ainda assim, o indicador (53,8 pontos) ficou um pouco acima da média histórica (53 pontos), mostrando que parte das empresas mantém disposição para investir, ainda que de forma mais seletiva e cautelosa.

Contexto econômico e externo

Esse cenário se insere em um contexto de moderação gradual da atividade econômica. O Banco Central reduziu recentemente a Selic para 14% ao ano, mas destacou que as condições monetárias continuam exigindo cautela, diante de expectativas de inflação ainda acima da meta e de um ambiente externo bastante incerto.

Isso significa que, embora tenha começado o processo de flexibilização dos juros, o custo do crédito e as condições financeiras devem permanecer restritivas por um período, o que inibe a expansão e o investimento por parte das empresas.

Já no cenário internacional, a política comercial dos Estados Unidos segue adicionando incerteza, afetando especialmente os segmentos industriais expostos ao mercado externo.

As recentes medidas tarifárias alteraram as condições de acesso de parte dos produtos brasileiros ao mercado norte-americano, enfraquecendo as exportações do Brasil para o país. Ainda que ocorra uma redistribuição de exportações para outros mercados, alguns setores mais dependentes do comércio com os Estados Unidos sofrem mais.

“Em resumo, a alta da produção em julho deve ser interpretada com cautela, já que foi parcialmente favorecida pelo efeito calendário e não veio acompanhada de melhora no emprego ou de perspectivas mais favoráveis para os próximos meses: pelo contrário, houve perda de força nas expectativas. O conjunto dos indicadores aponta para uma indústria que mantém capacidade de crescimento, mas que opera com prudência, diante de condições financeiras restritivas e de um ambiente econômico incerto, tanto doméstico quanto externo”, finaliza Daniela Muniz.

Sobre o autor

Anderson Gonçalves

Jornalista desde 2002, especialista em Projetos Editoriais e campanhas políticas. Desde 2025 é repórter de economia e negócios no Diário do Comércio.

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