Economia

Mercado de trabalho aquecido incentiva pedidos de demissões, que crescem 148% em Minas

Jovem busca melhores condições de trabalho e salário, e aquecimento do mercado incentiva a mobilidade
Mercado de trabalho aquecido incentiva pedidos de demissões, que crescem 148% em Minas
Crédito: Gil Leonardi/Imprensa MG

Grande volume de vagas, mercado de trabalho aquecido e mudanças de comportamento geracional podem ser as principais causas do alto número de demissões voluntárias ocorridas em Minas Gerais. Segundo um levantamento da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), os pedidos de demissões no Estado cresceram 148%, passando de 384,1 mil para 952,7 mil entre 2020 e 2025.

O avanço expressivo ocorre em um contexto de aquecimento do mercado de trabalho, marcado por maior dinamismo e ampliação das oportunidades de emprego, e por um comportamento dos jovens com até 24 anos, que tendem a buscar mais experimentações e experiências trabalhistas, tendo menos apego aos postos que ocupam.

“O resultado do estudo foi uma surpresa quando o concluímos. O cenário demonstrado das demissões tem muito a ver com o que houve no mercado. O ano de 2025 foi muito positivo para o mercado de trabalho, tanto no Brasil quanto em Minas Gerais. A taxa de desemprego atingiu o menor nível da série histórica. Com isso, o que também chamou a nossa atenção foi esse número recorde de demissões decididas, mais de 9 milhões de desligamentos no Brasil e 953 mil em Minas Gerais. Com o mercado de trabalho positivo, houve um ambiente que possibilitou essa mobilidade”, disse a analista de estudos econômicos da Fiemg, Cibele Guedes.

Além de opções de trabalho em maior número, o perfil da faixa etária de 18 a 24 anos, que representou cerca de 30% das demissões voluntárias segundo o estudo, busca melhores condições financeiras e de ambiente de trabalho para iniciar e seguir seus primeiros anos laborais.

“É uma fase marcada por mais experimentação, em que essa troca de emprego faz parte do processo de construção da carreira. Isso é diferente para os trabalhadores mais experientes. Os jovens ainda estão testando áreas, funções e ambientes de trabalho. Outro fator relevante é a inserção desses trabalhadores em ocupações com maior rotatividade, especialmente nos setores de comércio e serviços. São funções com menor barreira de entrada e maior substituibilidade”, comenta Cibele.

Escolaridade

Em relação à escolaridade, trabalhadores com ensino médio completo respondem por cerca de 63% dos casos de demissão voluntária, indicando maior mobilidade em ocupações de entrada. Já aqueles com ensino superior completo representam 9% e tendem a mudar de emprego em busca de melhores oportunidades.

Comércio com mais desligamentos

No recorte setorial, o comércio concentra 41% das demissões a pedido, seguido por serviços (37%) e indústria (35%), enquanto agricultura (28%) e construção (20%) apresentam menor participação relativa. Em termos salariais, as maiores médias são observadas na construção (R$ 2.387), na indústria (R$ 2.311) e nos serviços (R$ 2.249). Já o comércio (R$ 1.872) e a agricultura (R$ 2.029) registram os menores valores.

A analista da Fiemg, Cibele Guedes, pondera que para o empresário, o alto turnover não é um bom negócio, pois há custos para demitir e para contratar. Pagamentos de rescisões e processos seletivos geram novos gastos.

“Do lado do mercado, esse movimento de intensa mobilidade não é tão bom, porque as empresas, especialmente nos setores mais intensivos de mão de obra, estão enfrentando uma maior dificuldade de retenção. O maior desafio não é necessariamente conter essa mobilidade, porque ela vai acontecer, mas é estruturar estratégias de retenção, de qualificação, de progressão profissional”, explica Cibele.

Em 2025, as cinco funções que mais registraram demissões a pedido em Minas Gerais foram: vendedor de comércio varejista, faxineiro, alimentador de linha de produção, operador de caixa e atendente de lojas e mercados.

Nessas funções, os salários variam de R$ 1.670, no caso de faxineiro, e a R$ 1.800 para alimentador de linha de produção. Esse padrão de remuneração mais baixo indica que as saídas voluntárias se concentram em atividades com maior substituibilidade e menor barreira de entrada, onde a troca de emprego tende a ser mais frequente.

“Essas pessoas precisam mais do que aumento de salário para ficar. Precisam de maior qualificação e progressão profissional. É isso que elas querem para se manter na empresa. Dizer que é só o salário não é suficiente”, finaliza a analista.

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