Dados do Índice FipeZap apontam que os aluguéis avançaram 0,29% na Capital em abril | Crédito: Charles Silva Duarte/Arquivo DC

A expansão do home office e a falência de empresas em meio à pandemia do novo coronavírus (Covid-19) têm jogado luz às previsões relacionadas ao mercado de locação comercial de imóveis.

A alta vacância, e consequente reflexo nos preços, é uma das possibilidades que surgem nesse cenário. Especialistas consultados pelo DIÁRIO DO COMÉRCIO não descartam que isso possa realmente ocorrer, mas ponderam: o futuro deverá ser de transformações e não necessariamente de resultados negativos.

Primeiramente, conforme destaca o economista-chefe do grupo Zap, Danilo Igliori, todo esse quadro de crise na saúde e impactos na economia ainda não mexeu com os preços dos aluguéis dos imóveis comerciais. De acordo com o Índice FipeZap divulgado recentemente, em Belo Horizonte, os valores relacionados à área tiveram um leve aumento em abril na comparação com março, de 0,29%, e de 1,02% na variação acumulada do ano.

 

“Essa é a soma de dois efeitos: o de choque negativo na demanda, que derruba preços, mas também de retração da oferta, que eleva os valores”, ressalta ele. O economista explica que se, por um lado, a vacância se tornou uma realidade em curto prazo, por outro, muitos proprietários de imóveis não querem negociar os preços dos aluguéis e jogá-los para baixo, até mesmo deixando de oferecê-los no momento. Isso acaba gerando um certo equilíbrio ou até mesmo uma pequena expansão de valores.

No entanto, diz Danilo Igliori, esse cenário poderá mudar, dependendo do tempo de duração da pandemia do novo coronavírus (Covid-19) e seus resultados na economia como um todo, assim como a adoção – ou não – mais intensa do home office em longo prazo. Ele afirma que existe a possibilidade de os preços dos aluguéis caírem e também a de se recuperarem posteriormente.

O vice-presidente da área imobiliária do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais (Sinduscon-MG), Renato Michel, também ressalta que esse cenário de crise atual poderá, sim, impactar a rentabilidade dos aluguéis. Porém, para ele, esse desajuste entre a oferta e a demanda será algo temporário.

“É uma situação momentânea, não algo estrutural. Inclusive, no ano que vem, poderá haver até mesmo um pico na demanda. Esperamos uma recuperação em V, quando a economia cai, mas se recupera rapidamente”, diz ele.

Além disso, pondera, é difícil neste momento apontar tendências de uma forma radical. Isso inclui a ideia de que o home office poderá ser a opção da maioria das empresas daqui para a frente, mesmo em um período pós-pandemia.

No entanto, mesmo que essa fosse uma realidade, não afetaria a construção civil, para Renato Michel. Apenas transformaria os tipos de imóveis a serem ofertados. E, no mais, diz ele, existem muitas atividades econômicas que não podem ser adaptadas para o trabalho remoto.

“Em termos de mercado, essa não é uma grande preocupação. Temos uma carência de imóveis comerciais em Belo Horizonte de uma forma geral. A oferta e a demanda vão se ajustando ao longo do tempo”, afirma.

O vice-presidente da área imobiliária do Sinduscon-MG também ressalta que se, por um lado, se deixasse de construir imóveis comerciais, por outro, haveria uma demanda maior em produtos residenciais adaptados para uma nova realidade.

“Seriam apartamentos maiores, com espaço para home office ou coworking. O setor estará atento a isso, captando as mudanças e incorporando-as aos novos empreendimentos. A evolução das edificações é um movimento natural. Hoje, já se faz diferente do que há dez anos. Novas necessidades vão surgindo”, afirma ele.

O diretor da RB Imóveis, Reinaldo Branco, também aposta na transformação dos tipos de imóveis oferecidos em um possível cenário de aumento exponencial do home office. Para ele, além das mudanças no setor residencial, a área comercial poderia vir com escritórios mais compactos, por exemplo, mas eles não deixariam de existir.

Retomada – Já em relação à crise instaurada pela pandemia do novo coronavírus (Covid-19), Reinaldo Branco acredita em uma euforia econômica quando tudo passar, o que refletirá, inclusive, na retomada das empresas. Isso, diz, fará com que o mercado de locação comercial também não seja impactado negativamente.

“Os juros nunca estiveram tão baixos, e os aluguéis têm dado e continuarão oferecendo um bom retorno para os investidores. Além disso, a pandemia não parou com o mercado de locação de imóveis comerciais. Fechamos negócios durante a crise que se iniciaram antes dela e outros, inclusive, que começaram quando já havia a pandemia”, conta.

A vice-presidente das administradoras de imóveis da Câmara do Mercado Imobiliário e Sindicato das Empresas do Mercado Imobiliário de Minas Gerais (CMI/Secovi-MG), Flávia Vieira, também acredita que haverá um processo de retomada quando a pandemia do novo coronavírus (Covid-19) passar.

“O Brasil não sabe lidar com o novo coronavírus, mas, em relação a crises econômicas, somos muito maduros. A desocupação de imóveis vai ocorrer agora, o mercado pode vir a ficar muito ofertado e os preços tendem a cair. Porém, haverá a recuperação em médio para longo prazo”.

Flávia Vieira não acredita em uma tendência de home office tão forte a ponto de impactar sobremaneira a locação comercial. No entanto, pondera: “O mundo está, sim, em transformação”.