PIX, do Banco Central, entrou em operação plena ontem e deve abrir portas para criação e oferta de novos serviços financeiros | Crédito: Antonio Cruz/ABr

Daniel Vilela*

Após duas semanas em fase de teste, o PIX, novo meio de pagamentos criado pelo Banco Central (BC), entrou em operação plena ontem. Além de trazer economia e comodidade para clientes, o sistema de pagamento instantâneo trará também oportunidades no mercado financeiro. Segundo o BC, cerca de 50 milhões de pessoas já se cadastraram para utilizar o novo serviço.

Para as fintechs, empresas que utilizam a tecnologia para inovar e aperfeiçoar serviços do sistema financeiro, o PIX é mais uma forma de buscar um lugar ao sol ao lado dos  grandes bancos e instituições financeiras. Segundo a ABFintechs, no Brasil, existem atualmente cerca de 800 fintechs, sendo que 300 atuam no segmento de pagamentos.

“A mesma tecnologia de instantaneidade nos pagamentos disponíveis para um grande conglomerado financeiro também estará disponível para uma fintech com poucos anos de vida”, afirma Diego Perez, diretor-executivo da ABFintechs e cofundador da SMU investimentos.

Segundo o CEO do Inovebanco, Patrick Burnett, o PIX vem para aumentar a democratização dos meios de pagamento. “É benéfico para toda a cadeia. Vai baratear o custo das transações e tem papel importante de inclusão socioeconômica”, afirma.

No Brasil existem cerca de 45 milhões de desbancarizados e, com a simplificação e o barateamento dos serviços, surgem inúmeras oportunidades.

O novo serviço de pagamento instantâneo lançado pelo Banco Central abre portas também para a criação e oferta de novos serviços, afirmam os especialistas. “Acredito que surgirão oportunidades de novos produtos, de novos modelos de negócio”, diz Ingrid Barth, cofundadora e COO da Linker, uma conta digital PJ voltada para as necessidades de pequenos e médios empreendedores.

A empresária conta que as fintechs não precisarão atuar somente na oferta do PIX, mas também no desenvolvimento de tecnologias para outros players que desejem ofertar serviços de pagamento instantâneo.

“O mercado está bastante animado com o PIX. Esse é o primeiro passo, mas no futuro  esperamos poder ter novos produtos baseados no PIX, como o crédito parcelado, por exemplo”, acrescenta Ingrid Barth.

Geração de receitas – Para o diretor-executivo da ABFintechs, a maior oportunidade para as fintechs que irão oferecer o PIX é atrelar ao serviço outros produtos de interesse de seus clientes.

“O PIX pode gerar receitas adicionais para quem o opera porque as fintechs e outras instituições poderão oferecer serviços adicionais cujo PIX seja o principal atrativo. Quando você oferece um pagamento instantâneo, você atrai interesse de usuários que querem transacionar no seu serviço”, explica Diego Perez.

“Todos os players que têm o PIX integrado, em tese, não vão cobrar taxas. Então quaisquer diferenciais que você inclua no seu serviço para atrair usuário podem ser colocados como uma fonte de receita adicional”, complementa Diego.

Para o diretor de negócios digitais da Sinqia, Edson Fonseca, as fintechs que irão se destacar no futuro serão aquelas que entenderem que são mais do que um banco. “As fintechs que vão se dar bem são as que entenderem que o caminho natural é se tornar mais do que um banco e abrir seu leques de serviços e parcerias. E o PIX ajuda nisso, ele simplifica as transações”, comenta.

Empresas garantem segurança

É comum que produtos e tecnologias novas gerem resistência e desconfiança por parte das pessoas e até mesmo de empresários. Por ser um serviço digital e simplificado, o PIX gera dúvidas com relação à segurança e proteção contra fraudes bancárias.

“Nos preocupamos com prejuízos que fraudes podem gerar. Por isso, investimos muito em mecanismos de prevenção. Contratamos, inclusive, mais pessoas para a área de compliance da nossa empresa”, relata o CEO do Inovebanco, Patrick Burnett.

O diretor-executivo da ABFintechs, Diego Perez, explica que as empresas que irão operar o PIX precisam oferecer tecnologia compatível com níveis de segurança exigidos pelo Banco Central. “As empresas estão sim preocupadas com a questão de fraudes. No entanto, existem diretivas do Banco Central para coibir que as fraudes aconteçam e existem mecanismos para rastrear operações fraudulentas”, pontuou.

Crédito: Adriano Machado/Reuters

BC promete novas funcionalidades para 2021

Brasília – O Banco Central (BC) lançou ontem o aguardado sistema de pagamentos instantâneos PIX, prometeu novas funcionalidades para o ano que vem e minimizou intercorrências registradas até aqui, negando instabilidade nas liquidações das operações.

Em coletiva de imprensa, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, e o diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução, João Manoel de Mello, afirmaram que tanto o cashback quanto o PIX garantido, que embutirá uma funcionalidade de crédito, ficarão para o primeiro semestre do ano que vem.

No cashback, os clientes poderão pagar a mais aos estabelecimentos comerciais para receberem, além do produto efetivamente comprado, o troco em dinheiro.

Campos Neto frisou que há muitas cidades no País sem caixa eletrônico ou agência bancária e que esse mecanismo acabará facilitando o acesso dos consumidores a recursos em espécie, ao mesmo tempo em que permitirá que lojistas não tenham a necessidade de arcar com custo grande de segurança para manutenção e transporte de valores.

Mello, por sua vez, explicou que o PIX garantido será uma espécie de transação irrevogável, como os parcelamentos feitos no cartão de crédito, que são garantidas pelo banco emissor. “Essa mesma funcionalidade estará prevista no PIX”, disse.

Ontem, Campos Neto havia defendido que o PIX dá o pontapé a uma grande evolução em meios de pagamento, com demanda da sociedade por algo que seja rápido, barato, seguro, transparente e aberto – elementos presentes nas transações feitas pelo sistema.

O pagamento instantâneo pelo PIX funcionará 24 horas por dia, todos os dias do ano, a um custo operacional significativamente mais baixo que o de modalidades já consolidadas no mercado, como transferências do tipo TED ou DOC e pagamentos por cartões de crédito e débito. Segundo o BC, o custo do PIX é de 1 centavo para 10 transações.

As operações de pessoa física para pessoa física são gratuitas desde que feitas por meios eletrônicos. As compras feitas por cidadãos com o PIX tampouco podem ser tarifadas. Em contrapartida, os bancos poderão taxar as transações com PIX feitas entre empresas, tanto na ponta do pagador quanto do recebedor.

Não há, a princípio, limite para o valor das operações, ainda que as instituições financeiras possam estabelecer restrições, desde que sejam iguais às aplicadas nas demais transações já ofertadas.

As transações via PIX poderão ser feitas com a utilização de chaves, como o número de celular, CPF, CNPJ ou e-mail. Embora as chaves não sejam obrigatórias, o BC acredita que elas conferem agilidade às transações e acabarão sendo predominantes. Sem seu uso, os usuários têm que informar dados bancários a exemplo do que acontece com TEDs e DOCs.

“Hoje ainda tem grande número de operações feitas sem chave, mas as operações feitas com chave vão ser muito mais rápidas e muito mais eficientes, com probabilidade muito menor de a operação não ser completada”, afirmou Campos Neto.

“No final das contas, o nosso objetivo é que fazer um PIX seja tão fácil quanto fazer uma ligação ou mandar uma mensagem”, acrescentou. (Reuters)

Banco nega instabilidade em sistema

De acordo com o Banco Central (BC), mais de 72 milhões de chaves já foram cadastradas, incluindo 30 milhões de pessoas e 1,8 milhão de empresas.

A autoridade monetária negou a existência de instabilidade no sistema de liquidação para transações feitas pelo PIX, apesar de reconhecer que algumas operações não foram concluídas e que está havendo “aperfeiçoamento ao longo do caminho”.

“Teve um volume maior que não foi completo, não conseguiu ser completo num banco ou outro, a gente monitora sempre isso, a gente tem conversado com os bancos”, admitiu Campos Neto.

O chefe do Departamento de Competição do BC, Angelo Duarte, avaliou que, no momento, está “todo mundo operando muito bem no PIX”, dentro dos parâmetros de qualidade, e que mais de 400 mil operações foram liquidadas.

Duarte afirmou ainda ser “normal” que instituições maiores tenham “problemas momentâneos”, já que entram com quantidade muito grande de clientes no sistema.

“O Banco Central está monitorando a operação de todas as instituições, esses problemas foram detectados, as instituições foram acionadas e já imediatamente iniciaram processo de ajuste nos seus sistemas”,
disse. (Reuters)