Crédito: ANTONIO CRUZ / AGÊNCIA BRASIL

Há um mês, o empresário mineiro que trocou a direção da maior locadora de veículos da América Latina – a Localiza Rent a Car -, para atuar como secretário especial de Desestatização e Privatização da equipe econômica do presidente Jair Bolsonaro, em uma tentativa de “colaborar para um norte do País”, deixava Brasília.

Hoje, Salim Mattar se diz inconformado, alega que 19 meses integrando a equipe de  Bolsonaro serviram para “conhecer as entranhas do governo” e defende uma reforma plena do Estado como solução para o Brasil.

O empresário participou da live “Ciclo de Debates ACMinas – A Reforma do Estado”, realizada pela Associação Comercial e Empresarial de Minas, cujo objetivo é mobilizar a sociedade em um pacto em prol das reformas estruturais do País. Para o presidente da entidade, Aguinaldo Diniz Filho, nunca foi tão importante e necessário tratar sobre os assuntos.

“A crise sanitária, econômica e social imposta pela pandemia está nos mostrando que urge imediatamente caminharmos por este caminho. Mas o que nos falta? Vontade política? Mais participação da sociedade? Porque não suportamos mais financiar um Estado tão pesado quanto o brasileiro”, questionou.

Neste sentido, Mattar argumentou que o primeiro passo já foi dado com a reforma da Previdência, mas que ainda faltam as demais, como a tributária, a administrativa, a política, além de um pacto federativo entre as esferas administrativas do País.

“Estamos em 2020 e ainda não aprendemos a aplicar nossos recursos. O governo tem dinheiro para colocar em estatal deficitária, mas não tem para dar dignidade ao cidadão. Nossa carga tributária é muito elevada por causa de problemas de gestão. Não falta dinheiro, falta inteligência governamental de alocação de recursos públicos”, definiu.

O empresário citou ainda os custos com a máquina pública, ressaltando a importância da reforma administrativa, mas ponderou que ela está nascendo “um pouco manca” por não alcançar os atuais servidores públicos do Executivo, o que ele chamou não de direito adquirido, como argumentam os juristas, mas de “privilégio adquirido”. “Por isso, sou inconformado e indignado de como nossos governantes tratam a coisa pública”, comentou.

Corporações – Mattar usou o conceito de establishment, que define um grupo sociopolítico, para justificar os entraves de mudanças consideradas essenciais, alegando que no caso do Brasil, é representado pelo Judiciário, Congresso, Executivo, pelos próprios servidores públicos, e “um tanto de corporações oportunistas que em certo momento conjugam dos mesmos interesses”.

“O establichment não deseja que as coisas mudem. Então, temos uma proposta de reforma que mantém uma casta de servidores públicos ao custo de 13,7% do PIB (Produto Interno Bruto). São R$ 328 milhões por ano. Com esse montante, em dois anos, seria possível construir 6,5 milhões de moradias e acabar com o déficit habitacional brasileiro”, argumentou.

Sobre o Congresso, o fundador da Localiza avaliou que os parlamentares se comportam responsavelmente nos momentos mais importantes. Ponderou que eles falham em algumas horas, mas que serão fundamentais para os demais avanços do País. “Fizemos a maior reforma da Previdência do mundo e não é qualquer país que consegue aprovar algo do tipo. Neste ponto, nossos congressistas foram responsáveis e sensatos ao aprová-la e serão igualmente importantes daqui para frente”, afirmou.

Em relação aos entraves nos processos de desestatização e privatização, que levaram o ex-secretário especial a deixar a equipe de Bolsonaro, ele afirmou que perdeu a confiança no trabalho que se propôs realizar, quando pediu um levantamento das estatais brasileiras e recebeu um documento com 184 empresas.

“Procurei Pasadena e não encontrei. Ali eu perdi a confiança e fui fazer minha própria pesquisa, que durou quase um ano e encontrei 699 empresas sob gestão do governo federal. Ou seja, temos um verdadeiro Estado empresário que precisa deixar de existir. E este foi um dos motivos que me levou a ir para o governo. Mas percebi como é difícil vender e extinguir empresas estatais, pois a máquina é autônoma”, lamentou.