Crédito: REUTERS/Paulo Whitaker

Entidades do setor siderúrgico nacional receberam com preocupação a notícia de que o presidente Donald Trump pretende voltar a sobretaxar o aço brasileiro que entrar em território americano. Existe um acordo com os Estados Unidos de cotas de exportações de aço para só taxar o excedente do volume acertado. Representantes do setor dizem que é preciso monitorar os próximos anúncios por parte de Trump e que as siderúrgicas devem agir com cautela antes de qualquer reação.

Por meio de nota, o Instituto Aço Brasil afirmou que recebeu com perplexidade a decisão anunciada pelo presidente, de restaurar as tarifas de importação de aço e alumínio provenientes do Brasil e da Argentina, sob o argumento de que estes países têm liderado uma desvalorização maciça de suas moedas, e que isso não é bom para os agricultores daquele país.

O Instituto reforçou que o câmbio no País é livre, não havendo por parte do governo qualquer iniciativa no sentido de desvalorizar artificialmente o real e a decisão de taxar o aço brasileiro como forma de “compensar” o agricultor americano é uma retaliação ao Brasil, que não condiz com as relações de parceria entre os dois países.

“Por último, tal decisão acaba por prejudicar a própria indústria produtora de aço americana, que necessita dos semiacabados exportados pelo Brasil para poder operar as suas usinas”, declarou a entidade.

Da mesma maneira, o presidente do Instituto Nacional da Distribuição de Aço (Inda), Carlos Loureiro, ressaltou a necessidade de se acompanhar os próximos avanços quanto à declaração de Donald Trump, que ocorreu por meio das redes sociais. Segundo ele, o setor precisa não apenas monitorar detalhes da medida, mas também ter cautela em qualquer decisão.

“Precisamos ver a especificidade do que voltará a ser taxado e quais produtos serão atingidos. Mas, num primeiro momento, já é possível afirmar que o efeito para o parque brasileiro não será tão grande, pois são poucas as siderúrgicas que exportam semiacabados, por exemplo. Além disso, as próprias siderúrgicas americanas seriam prejudicadas, já que elas também compram do Brasil (e da Argentina) e receberiam o produto com o efeito da sobretaxa nos preços”, explicou.

Reajustes – Sobre os reajustes nos preços, Loureiro lembrou que, na última semana, Gerdau e Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais (Usiminas) anunciaram elevação para o início do ano que vem e que o movimento deverá ser acompanhado pelas demais companhias, dado o elevado patamar do dólar e a perspectiva de que se mantenha em níveis semelhantes em 2020.

A Gerdau anunciou aumentos de preço de 8% a 12% para os produtos de aço longo no Brasil a partir de janeiro. Já a Usiminas informou que o aumento de seus produtos deve ser da ordem de 5% também no início do ano que vem, após outros 5% a serem praticados no decorrer do ultimo trimestre deste exercício.

“Estas elevações estão não somente refletindo o preço do dólar, mas a perspectiva de que não vai cair. Já existe uma expectativa do mercado de que em 2020 a moeda americana deverá se manter em patamar superior a R$ 4”, explicou.

Neste sentido, o presidente do Inda lembrou que há espaço para o aumento dos preços, uma vez que o prêmio está negativo. “Vamos confirmar essa movimentação somente lá pelo dia 15 de janeiro. No entanto, se nada for feito por parte das siderúrgicas nacionais, o prêmio negativo irá persistir. O minério de ferro e o carvão, insumos fundamentais do setor, por exemplo, estão com possibilidades de reajustes para cima, além da elevação cambial. É necessário se mover para manter o market share”, concluiu.

Especialista aponta retaliação

Rio – O interesse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em anunciar que vai retomar tarifas de importação contra embarques de aço e alumínio do Brasil e Argentina tem relação com inquietação de agricultores norte-americanos sobre o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, avaliou o presidente da associação de exportadores brasileiros (AEB), José Augusto de Castro.

O acordo anunciado em meados deste ano “deve alavancar as vendas de produtos agrícolas brasileiros e argentinos para o mercado europeu e, consequentemente, tirar espaço do agronegócio americano”, disse Castro à Reuters.

Segundo ele, a retomada da taxação sobre os metais brasileiros e argentinos não se justifica, uma vez que as vendas externas do Brasil destes produtos para os norte-americanos são pequenas em relação ao volume importado pelos EUA. Castro também citou que boa parte da volatilidade cambial no Brasil se deve pelas próprias posições instáveis de Trump, que promove uma guerra comercial contra a China que tem causado impactos sobre perspectivas de crescimento global. “O Trump aprontou mais uma peça” contra o comércio global, disse Castro. “O causador dessa desvalorização (do câmbio) é ele mesmo, que fala uma coisa hoje e depois diz outra.”

Dados da AEB apontam que a exportação de aço semiacabado do Brasil para os EUA caiu 16,3% entre janeiro e outubro deste ano frente a igual período de 2018. Neste ano, as exportações somam cerca US$ 2,3 bilhões, ante US$ 2,7 bilhões no ano passado, segundo a AEB.

No caso do alumínio, de acordo com a entidade, as vendas externas para os Estados Unidos aumentaram neste ano, mas o patamar continua muito baixo.

Segundo dados do Instituto Aço Brasil, os EUA são o maior destino das exportações brasileiras de produtos siderúrgicos. Em 2018, o Brasil vendeu ao exterior 16 milhões de toneladas, das quais 6,6 milhões para os EUA. Em dólares, o total exportado correspondeu a US$ 9,65 bilhões, dos quais US$ 3,85 bilhões foram para os EUA.

Já a Abal, que representa os produtores de alumínio do País, citou que o Brasil exportou de janeiro a outubro deste ano 119,5 mil toneladas de produtos de alumínio, das quais 52 mil para os EUA. Desse volume, 47 mil toneladas pagaram a sobretaxa de 10%. Segundo a AEB, em dólares as exportações de alumínio do Brasil somaram US$ 144 milhões de janeiro ao fim de outubro, ante US$ 127 milhões no mesmo período de 2018.

“Com essa decisão, ele vai elevar o custo da matéria-prima para laminar o produto lá. Essa decisão é um tiro no próprio pé. Ele está encarecendo um produto que interessa o próprio produtor e consumidor norte-americano”, disse o presidente da AEB. “Claramente, é uma decisão com interesse político. Ele quer prestigiar o agricultor americano que está sendo afetado pelo acordo Mercosul-UE”, acrescentou. (Reuters)