Vinho da Casa

Há mais de um século na Argentina, a francesa Malbec segue em movimento

Marca vem se adaptando a novas formas de produção

Do sudoeste da França – onde a Malbec tem origem em vinhedos cultivados desde o Império Romano – ao sol intenso de Mendoza, sua trajetória atravessa séculos. Em 1853, a casta chega à Argentina. Celebrado em 17 de abril, o ‘Malbec World Day’ marca o início dessa história no país.

Para além da sua história centenária, a Malbec ainda está em movimento. E se adaptando a novas formas de produção.

Este ano, o ‘Guia Descorchados’, do jornalista chileno Patricio Tapia, que desde 1999 mapeia tendências da vitivinicultura nos países da América do Sul, aponta ainda mais caminhos possíveis para a casta trilhar. E destaca entre seus rótulos mais bem pontuados na Argentina o equilíbrio perfeito entre o sol abundante das altitudes do Vale do Uco, em Mendoza, e a presença decisiva dos solos calcários.

Casta de muito corpo, taninos macios, fruta preta, como ameixa, muitas vezes com sensação de doçura, é um tiro certeiro na taça do brasileiro e faz do Brasil mais um capítulo relevante na trajetória da Malbec, tendo em vista que a Argentina é a segunda maior exportadora de vinhos para cá.

Esse vínculo ajuda a explicar também como certos estilos se consolidaram. Ao revisitar a trajetória recente da casta, o ‘Descorchados’ constrói quase uma cena: anos 1980, Mendoza. Enólogos de Bordeaux se surpreendem e se encantam. Sol abundante significava maturação plena, portanto, vinhos intensos. O resultado? “Pelo menos uma década com vinhos como geleia; quinze, dezesseis graus de álcool nos rótulos”, segundo Tapia.

É justamente quando essa lógica começa a se esgotar que os produtores passam a buscar outras respostas através das características do solo que, em partes da região de Mendoza é calcário, comum na Borgonha (França) e na Serralunga (Itália), região do clássico Barolo.

O calcário funciona como esponja, que drena e armazena o excesso de água, realizando um equilíbrio perfeito da umidade do solo, oxigenando e estimulando o crescimento das raízes. Ele também afeta características do vinho, ganhando estrutura em boca e aromas mais terrosos e de giz.

Segundo o Guia, “a Malbec suculenta, redonda, que gera tintos compreensíveis para todos, cujos atributos sem arestas — com aquela suavidade e leve doçura (que, de fato, conquistaram mercados como uma canção pop) — de repente poderia ser algo mais.”

Vale do Uco
Foto: Reprodução

O efeito é perceptível. O calcário traz tensão, firmeza, textura mais marcada. Diminui a sensação de doçura e alonga o vinho em boca. Foi aberto um novo caminho entre vinhos frutados e florais a estilos terrosos e potentes.

É neste ponto que a narrativa ganha precisão. Os dois tintos que alcançaram pontuação máxima na edição lançada este mês — Adrianna Vineyard Mundus Bacillus Terrae 2023, de Gualtallary, e Finca Piedra Infinita Gravascal 2023, de Paraje Altamira — funcionam como síntese desse momento. Conquistaram nota máxima 100 no guia.

Diferentes, mas alinhados em um ponto essencial: extração mais delicada, taninos precisos, presença de cal sem exagero.

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