Lançada oficialmente em 2012, a Unitec já recebeu investimentos de R$ 1 bilhão | Crédito: Reprodução

Sem produzir um único chip, a Unitec, fábrica de semicondutores instalada em Ribeirão das Neves (RMBH), ao lado de seus sócios (BNDES, BDMG e Corporacion America), tem como prioridade, neste momento, encontrar um novo sócio investidor estratégico. Somente assim será possível cumprir a promessa de ter em Minas um marco tecnológico e uma grande produtora de chips nacional, como foi concebida há mais de uma década.

A informação é do sócio da Tauá Partners, empresa contratada para a reestruturação financeira companhia, Marco Barreto. Segundo ele, elaborada ainda no início dos anos 2000, a Unitec foi projetada para criar a maior empresa de semicondutores da América do Sul. Em suas palavras: “Trata-se de um projeto ousado, desafiador, mas que depende de muitos elementos para se tornar um sucesso exitoso”.

“Um desses elementos é um sócio com ‘expertise’ e atuação global no setor. No passado, esse parceiro era a empresa norte-americana IBM, que acabou vendendo sua unidade de semicondutores para um grande fundo soberano. Por isso, atualmente, a prioridade da Unitec e seus sócios é, em um movimento semelhante ao da própria IBM, encontrar um novo sócio investidor estratégico”, informou em entrevista exclusiva ao DIÁRIO DO COMÉRCIO.

Isso, segundo ele, trará novos investimentos, expertise de gestão e integração da empresa às cadeias globais de produção, abrindo caminho para que a companhia se torne operacional e seja capaz de gerar caixa e empregos.

“Apenas a título de curiosidade, o Brasil importa mais de US$ 4 bilhões por ano de semicondutores. A Unitec poderá contribuir para abastecer parte dessa demanda, gerando empregos e realizando parcerias com outras empresas instaladas no Brasil”, completou.

Investimentos – Lançada oficialmente em 2012, a indústria recebeu investimentos de R$ 1 bilhão. Inicialmente, pertencia ao grupo EBX, de Eike Batista, cuja participação foi comprada pelo grupo argentino Corporación América. Hoje, é uma sociedade entre o grupo argentino Corporación América, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG).

Porém, os anos se passaram, o projeto não se desenvolveu e o resultado, conforme funcionários da empresa que pediram para não serem identificados, é uma série de descumprimentos financeiros e trabalhistas não apenas com o corpo funcional da companhia, mas também com credores e fornecedores.

“Os acionistas não estão cumprindo as obrigações assumidas quando da assinatura do protocolo de intenções, que previa a manutenção de empregos, por exemplo. O Estado concedeu isenção em tributos para a instalação e agora o empreendimento foi abandonado pelos sócios”, dizem.

O resultado levou o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas Mecânicas e de Material Elétrico de BH, Contagem e Região (Sindimet) acionar o Ministério Público do Trabalho. Foram realizadas duas tentativas de mediação entre funcionários e empresa, mas, diante da falta de um acordo, a mediadora Alessandra Parreiras Ribeiro liberou o sindicato e os trabalhadores “para adoção de outras providências que entenderem cabíveis, especialmente no âmbito judicial”. É que na reunião de ontem, a representante da empresa requereu prazo complementar de 10 dias para apresentar uma proposta e cronograma de cumprimento das obrigações trabalhistas. Os trabalhadores, porém, não aceitaram.

Pendências financeiras – Questionado sobre a situação, Barreto confirmou que existem pendências financeiras com os 13 funcionários e que a situação é consequência da saída do parceiro estratégico do projeto, e do impacto do câmbio nos custos dos equipamentos importados, bem como de erros das gestões anteriores.

O executivo argumentou que os funcionários decidiram parar de trabalhar, mesmo de suas residências. Segundo ele, não faltou comunicação e transparência por parte da Unitec, principalmente no sentido de que a solução só será possível a partir da capitalização da empresa.

“Esta capitalização passa, necessariamente, pela busca de um novo sócio capaz de trazer as soluções tecnológicas que viabilizarão a fábrica. Não existe solução mágica e simples para um projeto dessa envergadura e complexidade. Neste contexto, ressalto que a Unitec ainda não foi capaz de entrar em operação e gerar receitas, por isso acumula seguidos prejuízos desde seu início e está com seus investimentos momentaneamente interrompidos”, admitiu.