Especialistas dizem que bairros serão valorizados no pós-pandemia, descentralizando-se a cidade | Crédito: PBH/Divulgação

A reabertura de Belo Horizonte já completou três semanas. As ruas estão mais cheias de automóveis. Mas os engarrafamentos de antes diminuíram de tamanho. Caminhar pelo do centro da cidade dá uma sensação estranha de que alguma coisa mudou na centenária capital de Minas. Há mais pessoas nas ruas. Mas menos que antes.

Na outrora fervilhante Savassi, sobram cadeiras vazias nos bares e restaurantes, que estão liberados para funcionar, mas têm que seguir algumas regras. Teatros e cinemas seguem fechados, nem há um prazo definido para que voltem a funcionar. Há quem diga que quando as escolas retornarem com as aulas, a cidade voltará a ser o que era antes. Mas há quem pense diferente – que nada será como antes. Nesta edição, “Engenharia hoje” mostra o que irá mudar nas grandes cidades, como BH. Na semana que vem, o que mudará na arquitetura dos imóveis.

Em um ponto há uma concordância entre os especialistas. É que com a população confinada nos apartamentos e casas há vários meses – embora hoje, nem tanto quanto foi no início da pandemia – o home office parece ter vindo para ficar, ao menos para as classes de maior poder aquisitivo. Isso leva, por incrível que possa parecer, a uma valorização dos espaços públicos como resposta ao isolamento social imposto pela pandemia, afirma o arquiteto e urbanista Sérgio Myssior.

Para o cenário pós-Covid, ele enxerga um aumento da demanda por espaços públicos de convivência, como praças e parques, que sejam de melhor qualidade. “Antes da pandemia, o espaço público era pouco percebido pelas pessoas”, afirma a arquiteta e urbanista Fernanda Basques.

Para ela, a Covid-19 irá levar as pessoas a valorizar o espaço aberto e de uso público como ponto de encontro, o que irá gerar a necessidade, por parte do poder público, de investimentos mais robustos em ambientes abertos que sejam de qualidade e que funcionem como pontos de convergência de pessoas. “É preciso buscar cidades que ofereçam mais possibilidades de as pessoas estarem na rua”, reforça a socióloga e doutora em Gestão de Cidades Janaina Maquiaveli Cardoso.

Janaina Maquiaveli enxerga a valorização das hiperlocalidades | Crédito: Gladyston Rodrigues

Hiperlocalidades – À valorização do espaço público, o arquiteto e urbanista Bernardo Farkaswölgyi acrescenta outra forte tendência para as cidades no pós-Covid: a de crescimento das hiperlocalidades, com a valorização dos serviços e atividades comerciais que sejam capazes de evitar que as pessoas tenham que fazer grandes deslocamentos pela cidade. “As pessoas irão morar, trabalhar e se divertir no mesmo lugar”, afirma Bernardo Farkaswölgyi.

“As pessoas tenderão a querer resolver tudo na vizinhança”, acrescenta Janaina Maquiaveli. Trata-se, no seu entendimento, de algo que será positivo, pois a multicentralidade – que as cidades pequenas e médias não possuem – é, segundo ela, o que valoriza e dá vigor às grandes cidades.

Uma possível consequência da hiperlocalidade poderá ser, segundo Janaina Maquiaveli, a gentrificação, que ocorre quando determinada região da cidade sobre um processo de enobrecimento de seus usos, como ocorreu, em Belo Horizonte, na região do bairro de Lourdes. O fenômeno foi estudado por ela em São Paulo, na região da Luz, e em Nova York, no Meatpacking District, e descrito no livro “Cidades em Miniatura”.

Segundo Sérgio Myssior, a multicentralidade era uma tendência que já vinha se desenhando para Belo Horizonte e que, tal como o home office, apenas foi acelerada pela pandemia. “A cidade vai ser dividido em centenas de polos de vizinhança. Meu hub de comércio e serviços vai estar no meu entorno”, reforça Sérgio Myssior.

Cautela – Fernanda Basques reconhece que muita coisa mudou na dinâmica das cidades nos últimos seis meses. Ela, porém, acha que ainda é cedo para se poder afirmar, de forma categórica, que se trata de mudanças que vieram para ficar. Muito menos qual seria o seu grau de impacto na vida urbana. “As respostas que ocorrem em momentos de crise não podem ser consideradas como mudanças efetivas. Como será, efetivamente, a vida nas cidades, só depois da vacinação”, afirma Fernanda Basques.

Ela admite que a pendemia mostrou que o home office é possível sem grandes transtornos, mas não descarta que, no pós-pandemia, as pessoas possam vir a reivindicar a volta do espaço do trabalho, restaurando a dualidade casa e trabalho como a característica mais marcantes das cidades.

Quem também prefere a cautela em relação a como será a grande cidade no pós-Covid é Janaina Maquiaveli. A seu ver, em momentos dramáticos, como foi o do isolamento radical, que vigorou até algumas semanas atrás, as pessoas tendiam a acreditar que as mudanças seriam drásticas. Uma delas seria de que a natureza da vida urbana iria acabar e que as pessoas iriam querer viver de forma mais isolada, por conta do home office, ou iriam se mudar para o campo ou para cidades menores. “Acho precipitado dizer isso, embora no momento mais dramático da pandemia, isso pudesse ter sido pensado”.

Periferia – Todas essas mudanças estão previstas para ocorrerem nos ambientes de classe média e classe média alta, que dispõem de internet, computadores e espaços para a instalação de locais de trabalho na residência e cujas atividades podem ser realizadas à distância. Mas elas serão pouco sentidas pelas populações mais pobres da periferia, que moram em espaço apertados e cujos trabalhos têm que ser realizados presencialmente. São as pessoas que trabalham, por exemplo, em empresas de conservação e limpeza, no comércio ou são profissionais autônomos, como bombeiros, eletricistas ou pedreiros.

Para estas pessoas, o que a pandemia fez foi acentuar a marca da desigualdade. Tanto que nos bairros de periferia a adesão ao isolamento foi menor que nos bairros de classe média ou classe média alta da região Centro-Sul de Belo Horizonte. Sem o home office e sem o espaço adequado para cumprirem o distanciamento social, as pessoas mais pobres acabaram sendo empurradas para ruas. A elas não foi dado o direito de, na sua integralidade, colocar em prática o “fique em casa”. Por isso, para Sérgio Myssior, a pandemia tornou relevante a necessidade de adoção, pelo poder público, de medidas que, no pós-Covid, venham contribuir para reduzir essa desigualdade.

Sérgio Myssior defende transporte público com subsídio de passagem | Crédito: CSUL/Divulgação

Transporte público – Levando em conta o cenário da impossibilidade do home office para estas pessoas, ele defende que o poder público invista para melhorar o sistema de transporte, adotando algo que já é comum em países de primeiro mundo: o subsídio às tarifas de transporte público, cujas viagens são custeadas, em Belo Horizonte, em sua totalidade, pelo próprio usuário. “É um serviço de interesse público. Igual saúde e educação”, reforça Sérgio Myssior. Ele lembra que, no sistema atual, quem mora mais longe é quem acaba sendo penalizado com a tarifa de ônibus mais elevada.

Para Sérgio Myssior, além de todos os problemas de ordem sanitária, a pandemia evidenciou a desigualdade social, com as pessoas mais pobres morando longe dos locais de trabalho e também dispondo de uma oferta precária de serviços básicos, com saúde e educação. “Para os pobres, não mudou nada”, completa Janaina Maquiaveli”, que também considera primordial o reforço nos investimentos em transporte público, tendo em vista que o atual deslocamento de casa para o trabalho demanda um tempo muito grande.

Na pós-Covid, Bernardo Farkasvölgyi defende, como medida para se corrigir as desigualdades, que se passe a ter, na região central da cidade, um coeficiente de edificação mais alto para que se tenha um número maior de moradias e, com isso, se possa permitir o deslocamento, para o centro da cidade, de parte da população que mora nas regiões periféricas. “É preciso dar a todas as pessoas a possibilidade de morarem perto do local onde trabalham”, afirma Farkasvölgyi. (Coluna produzida pela SME)