Crédito: Marcello Casal Jr / Agência Brasil

Brasília/São Paulo – O Brasil foi o emergente mais atingido pela debandada de fluxos de capital ocorrida a partir de março, enquanto o real registrou o pior desempenho entre seus pares, mas tamanho choque ainda falha em gerar ampla confiança de que o País está barato a ponto de ser candidato óbvio a receber parte das injeções de liquidez que inundaram o mundo desde então.

Isso não significa, contudo, que não haja algum otimismo. Alguns analistas chamam atenção para a melhora, ainda que tímida, do fluxo cambial, para a percepção de um real com excesso de desvalorização e para a conta corrente equilibrada.

A dúvida é se essa melhora na margem tem força para continuar, especialmente considerando as dificuldades do Brasil em lidar com a pandemia e seus efeitos.

O estrategista sênior para mercados emergentes do Standard Chartered Bank Ilya Gofshteyn avaliou que a delicada situação da trajetória das contas públicas brasileiras é um fator que pesa do lado negativo, com o País já adentrando a crise com o balanço fiscal sobrecarregado.

No geral, a avaliação de grande incerteza sobre os rumos da economia em meio a uma pandemia em curso, a temores de relaxamento na agenda de austeridade fiscal e a embates políticos pesa sobre o sentimento em relação ao Brasil, piorado pela volatilidade cambial – a mais alta entre as principais divisas emergentes.

Dados mais recentes de fluxo cambial ainda mostram um quadro misto.
Em junho até dia 19, segundo números mais atualizados do Banco Central (BC), houve ingressos de US$ 823 milhões em ações e fundos de investimento no Brasil e de US$ 411 milhões em títulos de dívida. Mas mesmo o chefe do Departamento de Estatísticas do BC, Fernando Rocha, disse que não tem condições de afirmar que os dados positivos da parcial poderiam indicar tendência de retomada de ingressos.

Dados da B3 mostraram que o fluxo de estrangeiros para o mercado secundário de ações ficou positivo em R$ 343 milhões em junho (fora ofertas de ações), primeiro resultado positivo do ano e após saída acumulada de quase R$ 77 bilhões entre janeiro e maio.

Mas outros números do BC revelaram fluxo cambial líquido praticamente zerado na semana passada, com déficit de quase US$ 3 bilhões em junho até dia 26 e de US$ 12,577 bilhões no ano.

Em março, quando a crise do Covid-19 ficou mais evidente, a saída de investimentos em carteira do Brasil (somando ações e renda fixa negociadas no mercado doméstico) alcançou US$ 22,07 bilhões, um recorde. Abril (- US$ 7,43 bilhões) e maio (- US$ 2,25 bilhões) continuaram vendo déficits, embora menores.

Atratividade – Alguns analistas dizem que a dívida brasileira em dólar parece mais atrativa, mas ainda assim tem seu apelo afetado pela ausência de grau de investimento.

“O Brasil se destaca dentro dos emergentes, porém, México e Colômbia parecem mais atrativos em uma perspectiva ajustada pelo risco, já que os yields são ligeiramente menores e têm grau de investimento”, afirmou Axel Christensen, estrategista-chefe da BlackRock para a América Latina.

Os títulos em dólar do Brasil com vencimento em cinco anos e negociados no mercado secundário pagam 2,86%, enquanto os do México têm rendimento de 1,93% e os da Colômbia, de 2,32%.

O Milltrust International, grupo especializado em investimentos, colocou o Brasil na lista com recomendação “neutra”, junto com Malásia e China, devido ao que os analistas consideram como “valuations caros”. Os profissionais estão overweight (com recomendação acima da média) em Rússia, Coreia do Sul, África do Sul e Taiwan.

O valuation – conceito de avaliação de preços relativos – é um dos motivos que fazem Christensen, da BlackRock, considerar que o mercado de ações brasileiro parece “menos atrativo” no curto prazo, devido às “perspectivas desafiadoras para a economia brasileira” como resultado da crise de Covid-19.

Ele lembrou que o Fundo Monetário Internacional (FMI) piorou a 9,1% a estimativa para retração do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro neste ano, contra expectativa de queda de 5,0% para países emergentes e em desenvolvimento fora a China.

Pablo Riveroll, diretor de renda variável da Schroders para a América Latina, destacou que a retomada clara de fluxos ao Brasil passa pela melhora na confiança da moeda, que, por sua vez, está ligada a uma âncora fiscal “sustentável”.

Mas Riveroll é otimista sobre a volta de capital no curto prazo, em parte por acreditar que o real está com excesso de desvalorização e o Brasil está “atrasado” ante seus pares.

“Estamos positivos com o Brasil na renda variável”, disse, citando especialmente empresas dos setores de e-commerce, meios de pagamentos, tecnologia da informação, educação privada, companhias de saúde e bancos.

O mercado de ações do Brasil medido em dólar saltou 22,55% no trimestre passado, quarto melhor desempenho entre 43 índices de mercados emergentes listados pelo provedor de índices e dados MSCI.

No ano, porém, as ações brasileiras ainda perdem 39,47%, também o quarto pior número. O real desvaloriza 25% no ano, em termos nominais, lanterna entre as principais moedas.

Câmbio – Mas alguns analistas enxergam no câmbio um elemento que pode elevar a atratividade das aplicações em ativos brasileiros. Isso porque, para os que acreditam que o real está com excesso de depreciação, o caminho à frente estaria mais inclinado a ganhos, o que em tese melhoraria o risco/retorno de se trocar retornos em dólar por em reais.

Brooks, economista-chefe do IIF, calcula que o real é a moeda emergente com maior excesso de desvalorização, da ordem de 15%.

Riveroll, da Schroders, também vê a divisa com depreciação além da justificada. “Essa underperformance (desempenho abaixo da média) do real não vai se manter por muito tempo. Por isso acho que vamos ter recuperação no câmbio e que os fluxos de capital vão voltar”, disse. (Reuters)

BC estuda alta volatilidade do câmbio no País

Brasília – O diretor de Política Econômica do Banco Central (BC), Fabio Kanczuk, afirmou, na sexta-feira (3), que a autoridade monetária está tentando identificar a causa do aumento elevado da volatilidade do câmbio e se ela é eficiente ou não, reconhecendo que esse movimento destoa do nível de volatilidade visto em outros países emergentes.

“Infelizmente eu não tenho muito a adicionar. Só posso dizer que a gente está super de olho nisso aí tentando entender”, afirmou ele em live promovida pelo Banco Safra. “É necessário entender exatamente o problema para daí poder pensar qual é o remédio possível”, acrescentou.

Segundo Kanczuk, a mudança de overhedge criou pressão no câmbio nos últimos meses e há “parte residual” que ainda pode afetar comportamento do dólar, algo a que o BC está atento.

Mas ele ponderou que há uma coisa distinta acontecendo, ligada à volatilidade diária “bastante elevada” do câmbio, com aumento grande de contratos pequenos. (Reuters)