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Rio de Janeiro – Os auditores fiscais presos na Operação Armadeira criaram um intrincado esquema de lavagem de dinheiro para dificultar a identificação de seus bens, afirma o Ministério Público Federal. O centro deste esquema, de acordo com as investigações, é o auditor Daniel Gentil, apontado como “lavador de recursos da organização criminosa”.

Empresas em nome de sua mãe, Sueli Gentil, também presa, apareciam como proprietárias de imóveis e carros usados por outros servidores suspeitos, entre eles Marco Aurélio Canal, supervisor nacional da Equipe Especial de Programação da Lava Jato – grupo responsável por aplicar multas aos acusados da operação por sonegação fiscal. Daniel Gentil era subordinado a esse setor.

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O grupo foi preso na última quarta-feira sob suspeita de cobrar e extorquir dinheiro de investigados na Lava Jato. Em troca, eles anulariam multas por sonegação fiscal decorrentes de fatos descobertos pela operação.

Canal é suspeito de ter atuado na cobrança de propina de R$ 4 milhões junto à Fetranspor (federação das empresas de ônibus do Rio de Janeiro) e no recebimento de 50 mil euros de Ricardo Siqueira Rodrigues, acusado na Operação Rizoma.

O advogado Fernando Martins, que representa Canal, pediu ao juiz Marcelo Bretas para que o investigado não seja levado para Bangu 8, onde ficam os réus da Lava Jato, em razão de sua atuação nos procedimentos da operação.

O Ministério Público Federal apontou indícios de que bens usados pela família de Canal estão em nome de empresas ligadas a outros auditores, especialmente Daniel Gentil.

É o caso da cobertura em que, segundo a investigação, a família mora na avenida Lúcio Costa, orla da Barra da Tijuca. O imóvel está em nome da empresa B. Magts, cuja única sócia é Sueli. A Polícia Federal afirma não ter identificado pagamento de aluguel aos proprietários.

A empresa ligada à família Gentil também é proprietária de dois veículos (Honda Fit e Mitsubishi Outlander) usados pela filha e mulher de Canal. O carro Golf, utilizado pelo ex-supervisor da Receita, está em nome de uma empresa de um amigo dele.

A Procuradoria afirma que os investigados utilizaram uma técnica de “lavagem cruzada” a fim de dificultar as investigações.

Parentes – Em apurações anteriores, o crime de branqueamento costumava ser cometido em nome de parentes. As informações sobre os reais proprietários dos bens só foram colhidas após monitoramento de agentes da Polícia Federal.

“É claro que, sendo muitos dos membros da organização criminosa experientes funcionários da Receita Federal, havendo diversos auditores fiscais, por exemplo, com amplo conhecimento técnico dos parâmetros de fiscalização de imposto de renda, o esquema de lavagem de valores por eles empreendido mescla uma série de tipologias possíveis e sofisticados engendramentos”, afirmam os procuradores no pedido de prisão.

As investigações indicam ainda o envolvimento de outro auditor fiscal na lavagem de dinheiro -Fábio Cury, preso temporariamente. O Ministério Público aponta a compra de um notebook como indício de que os auditores Cury, Gentil e Canal têm bens cruzados.

Em um email de Cury para tratar da aquisição, o auditor envia a uma pessoa o cartão de crédito de Gentil para pagar o computador adquirido pelo filho de Canal.

“Aparentemente, o que foi comprado pelo filho de Marco Aurélio Canal e pago por Daniel Gentil foi um laptop no valor de US$ 6.276,71, conforme observado em um formulário de autorização de compra anexado a um correio eletrônico encaminhado pelo filho de Canal a Fábio Cury”, diz a Procuradoria.

Além disso, um ex-cunhado de Cury vendeu imóveis às empresas ligadas a Gentil, o que levantou a suspeita de procuradores.

Os procuradores suspeitam ainda que Canal tenha lavado dinheiro na construção de um shopping em Itaguaí (a 72 km do Rio de Janeiro), no qual uma empresa em nome de sua mulher tem participação.

O advogado Fernando Martins, responsável pela defesa de Marco Aurélio Canal, declarou em nota que a prisão é ilegal. Ele não quis comentar especificamente as suspeitas sobre lavagem de dinheiro.

“Trata-se de mais uma prisão ilegal praticada no âmbito da denominada Operação Lava Jato, eis que de viés exclusivamente político, atribuindo a Marco Canal responsabilidades e condutas estranhas a sua atribuição funcional, e pautada exclusivamente em supostas informações obtidas através de ‘ouvi dizer’ de delatores”, diz Martins.

Em depoimento à Polícia Federal, Cury não foi questionado sobre a compra do laptop. Sobre as transações imobiliárias entre seu ex-cunhado e Gentil, ele afirmou que apenas apresentou os dois, sem ter participado da transação.

O advogado Bruno Rodrigues, que defende Cury, afirmou que ele nega as suspeitas de envolvimento com crimes. A reportagem tentou contato com o advogado André Barreto, que representa Gentil, mas não obteve retorno. (Folhapress)

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