Movimento Minas 2032

Arte pelo combate à exploração sexual e tráfico de pessoas

Com o Dia Internacional do Trabalhador e o Maio Laranja em pauta, cineasta criada em Minas Gerais usa documentário e cartilha para prevenir violência contra crianças e trabalho escravo contemporâneo
Arte pelo combate à exploração sexual e tráfico de pessoas
Foto: Arquivo Pessoal - Kalley Beatrice

No momento em que o Brasil volta sua atenção ao Dia do Trabalho e ao Maio Laranja, dois temas se cruzam com urgência: o trabalho escravo contemporâneo e a exploração sexual de crianças e adolescentes. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, cerca de 50 milhões de pessoas vivem hoje em condição de escravidão moderna, muitas vítimas de exploração sexual ainda na infância.

Nesse contexto, a cineasta brasileira Kalley Beatrice lança o projeto Set Free, que une documentário e uma cartilha formativa já disseminada em países da América do Sul. Com raízes mineiras e o jeito “de comer quieta”, ela transforma a arte em ferramenta de mobilização social. A iniciativa oferece materiais gratuitos para escolas, empresas e espaços públicos, com foco em prevenção, formação de lideranças e fortalecimento de redes de proteção.

Em pleno século XXI o tráfico humano é uma das indústrias mais lucrativas do mundo. Como ele ocorre e por que isso ainda acontece?

O tráfico humano é uma das atividades criminosas mais lucrativas do mundo porque combina alta demanda, risco relativamente baixo para o traficante e um modelo de exploração contínua. Diferente de outras atividades ilícitas, como o tráfico de drogas – em que o produto é consumido uma única vez -, no tráfico humano a mesma vítima pode ser explorada repetidamente ao longo do tempo, gerando lucro recorrente. Esse modelo se sustenta porque traficantes exploram vulnerabilidades emocionais, psicológicas e sociais profundas, frequentemente formadas em contextos de violência, negligência e instabilidade. Trata-se de um crime que envolve o recrutamento, transporte, transferência, alojamento ou recebimento de pessoas, geralmente por meio de força, fraude ou coerção, com o objetivo da exploração para obtenção de lucro.

Na prática, o tráfico humano geralmente começa com estratégias de aliciamento – como promessas falsas de emprego, propostas de estudo no exterior, relacionamentos manipuladores ou, em alguns casos, sequestros – e raramente se apresenta como violência imediata, o que reduz a percepção de risco. A partir daí, as vítimas são submetidas a diferentes formas de exploração, como exploração sexual, trabalho análogo à escravidão, mendicância forçada ou até mesmo remoção de órgãos. Quando percebem a situação, muitas já estão sob forte controle psicológico e físico ou em condição de isolamento. Em alguns casos, podem estar em outro estado ou país e sem documentos, mas o tráfico frequentemente acontece no próprio contexto local, dentro da comunidade em que a vítima vive.

Esse crime persiste por uma combinação de fatores, mas, na prática, o que mais impacta é a vulnerabilidade construída em nível individual e familiar – como lares disfuncionais, violência, abuso, uso de drogas e fragilidades na saúde mental, que tornam a pessoa mais suscetível ao aliciamento. Em seguida, fatores como desemprego e instabilidade econômica ampliam essa exposição. Situações como migração forçada, conflitos e crises humanitárias agravam ainda mais o cenário. Redes criminosas altamente organizadas se aproveitam dessas fragilidades, utilizando desde abordagens diretas até tecnologias digitais para recrutar e explorar vítimas.

Seu projeto nasce no encontro entre arte e educação. Por que usar o cinema para tratar de temas tão complexos como tráfico humano e exploração sexual?

O cinema tem a capacidade de traduzir temas complexos em uma linguagem acessível, informativa e, em muitos momentos, emocional. O documentário “Set Free – Lutando contra o Tráfico Humano na América” apresenta o problema de forma concreta, mostra que o tráfico humano existe, como acontece e como pode estar mais próximo do que se imagina. A cartilha Proteção e Responsabilidade aprofunda esse entendimento e oferece orientação prática, tanto para prevenção quanto para a identificação de situações de risco.

O material já chegou a dez países. O que isso revela sobre o problema?

Cerca de 50 milhões de pessoas vivem hoje em condições de escravidão. Só na exploração sexual, são mais de 6 milhões de vítimas, e cerca de ¼ são crianças – números que revelam a dimensão global desse problema. O principal desafio ainda está na forma como o tema é compreendido. Tráfico humano não depende de transporte ou sequestro, ele se sustenta na exploração da vulnerabilidade. Pessoas fragilizadas, emocional, social ou economicamente, podem ser aliciadas e exploradas dentro do próprio ambiente em que vivem, o que torna esse crime mais invisível e difícil de identificar. O fato de o material já ter chegado a tantos países mostra que essa é uma realidade global e precisa ser mudada.

Qual o papel de sociedade civil, empresários e governos?

O enfrentamento exige responsabilidade em diferentes níveis. A sociedade civil precisa estar informada e disposta a agir com responsabilidade; empresas devem rever práticas, cadeias produtivas e ambientes digitais para reduzir vulnerabilidades; e governos têm o papel de estruturar políticas públicas, canais de denúncia e proteção às vítimas. Quando cada setor entende seu papel e atua de forma coordenada, reduz-se o espaço para a exploração e aumenta-se a capacidade real de prevenção.

Como a sociedade, empresas e governos podem usar esse material?

A proposta é formar multiplicadores capazes de prevenir, identificar e agir diante de situações de risco. O material está disponível gratuitamente em português, inglês e espanhol, para qualquer pessoa, desde líderes comunitários e religiosos até professores e famílias.

Como essa iniciativa se conecta com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)?

A iniciativa se conecta diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ao atuar na prevenção de violência e exploração por meio da educação. O projeto contribui para o ODS 4, ao oferecer formação acessível e prática; para o ODS 5, ao abordar a proteção de mulheres e meninas; para o ODS 8, ao enfrentar formas de exploração como o trabalho forçado; e para o ODS 16, ao fortalecer a capacidade da sociedade de prevenir, identificar e responder a violações.

Qual é a principal mensagem que você quer deixar por meio dessa iniciativa?

A principal mensagem é que informação salva vidas. Quando as pessoas entendem o que está acontecendo, elas deixam de ser passivas e começam a agir, conseguem se proteger e proteger outros. A mudança começa pelo conhecimento, mas exige disposição para enxergar a realidade como ela é.Por isso, meu trabalho é uma chamada à responsabilidade. O audiovisual pode despertar, informar e motivar a ação por ambientes mais atentos, relações mais saudáveis e decisões mais conscientes.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas