Depois dos 60, uma nova profissão: influencer digital

Aos 69 anos, Dona Ramira transforma situações do cotidiano em conteúdo, publicidade e renda; Minas já soma mais de 510 mil donos de negócios com 60 anos ou mais
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Depois dos 60, uma nova profissão: influencer digital
Dona Ramira | Foto: Arquivo pessoal

Dona Ramira não sabe fazer tudo sozinha no celular. Aos 69 anos, admite que ainda tem dificuldades com a tecnologia e conta com a ajuda do filho para administrar as redes sociais. Mas isso não a impediu de conquistar espaço justamente em um ambiente que ainda representa um desafio para muitos idosos.

O que começou como uma forma de passar o tempo durante a pandemia transformou a dona de casa “de vida simples”, como ela mesma diz, em influenciadora digital. A experiência trouxe novos vínculos, aproximou-a ainda mais do marido e passou até a complementar a renda da família com as “publis”.

“Começamos na pandemia. Foi uma fase muito difícil. Eu estava sozinha e com muito medo. Meu filho ensinou a gente a usar as redes sociais, e isso nos ajudou a lidar com a situação”, lembra.

Estelita Fátima Matos Soares de Oliveira é o nome por trás da persona “Dona Ramira”, uma referência ao marido, “Seu Ramiro”. Tudo começou com ele, que passou a fazer vídeos de humor para divulgar a loja de couro da família em Belo Horizonte, a Ramiro Couros, satirizando situações vividas por empreendedores e funcionários nos negócios.

Logo, Estelita começou a participar dos vídeos, ficou conhecida como Dona Ramira e ganhou a própria página, que hoje acumula mais de 93 mil seguidores. Nas publicações, explora com humor situações cotidianas do casal — e se diverte com isso.

“Adoro fazer os vídeos de casal com meu marido. Ele faz as coisas erradas, aí eu vejo e meto a panelada na cabeça dele. Meu filho ajuda a gente, arrepia meu cabelo, tipo uma dona de casa mesmo, e eu me divirto muito. A gente fica com outra cabeça, mais ativa”, diz.

Dona Ramiro e seu Ramiro
O casal Ramiro | Fotos: Arquivo pessoal

Em um dos vídeos, o casal passeia pelo shopping e se depara com uma loja da Farm. Dona Ramira tenta afastar o marido rapidamente, enquanto a legenda brinca: “Meu marido descobrindo que ‘Farm’ da fatura nunca foi ‘Farmácia’…”

Ela conta que as roupas da loja e os vídeos nas redes sociais estão entre os conteúdos que mais gosta de ver na internet. Também se sente animada ao receber comentários de seguidores que dizem gostar de acompanhar suas publicações.

“Muita gente acompanha meu conteúdo, desde pessoas mais jovens até crianças. Eu acho muito bom, a minha cabeça virou outra. Já recebi mensagens de pessoas dizendo que meus vídeos ajudaram a sair da depressão, a ficar mais contentes. O pessoal me reconhece na rua, tira foto comigo, me manda presente. É muito bom receber esse carinho das pessoas. O presente que eu mais gostei de ganhar foi um terço muito bonito de Nossa Senhora Aparecida”, lembra.

Estelita acredita que os vídeos divertidos que faz com o marido podem ajudar a enxergar o envelhecimento com outros olhos. “Acho que pode dar coragem para mais idosos gravarem. Hoje em dia, o idoso tem que aprender. Acho que, muitas vezes, o que impede isso é não ter ninguém para ajudar”, comenta.

Quando o conteúdo vira renda

Dona Ramira e Seu Ramiro contam com a ajuda do filho, Daniel Matos Soares de Oliveira, de 45 anos, na administração das redes sociais. Mas quem não tem alguém próximo para auxiliar também pode buscar caminhos para aprender, como o curso de inclusão digital da Prefeitura de Belo Horizonte.

O trabalho do casal nas redes também tem rendido um complemento à renda da família. Segundo Daniel, além dos valores recebidos pelas publicidades, eles ganham produtos das empresas anunciantes, como cafeteira, air fryer e televisão. “O dinheiro que eles fazem com os vídeos a gente aplica na loja e também em casa. Isso ajuda a aumentar um pouquinho a renda”, detalha.

O empreendedorismo após os 60 anos está em crescimento. Em Minas Gerais, havia 510,48 mil donos de negócios nessa faixa etária no primeiro trimestre deste ano, segundo dados do Sebrae. O contingente representa alta de 18,95% em relação ao mesmo período de 2025, quando o Estado contabilizava 429.166 empreendedores com mais de 60 anos.

No Brasil, ainda conforme o Sebrae, são 4,5 milhões de empreendedores da chamada Economia Prateada, formada por pessoas com 60 anos ou mais. O número cresceu 58,6% na última década.

No caso de Dona Ramira, transformar a presença digital em renda não significou deixar de ter dificuldades com a tecnologia. Ela ainda usa principalmente o WhatsApp e conta com a ajuda do filho para produzir e administrar os conteúdos. Mas aprendeu o suficiente para descobrir nas redes um espaço que antes não fazia parte de sua rotina e que hoje significa diversão, convivência, reconhecimento e uma fonte adicional de renda. “Nas redes sociais, eu consigo aprender mais coisas e conversar com mais pessoas”, resume.

Sobre o autor

Juliana Baeta

Subeditora do portal Diário do Comércio desde 2024. Jornalista (Newton Paiva) e especialista em Comunicação Pública e Governamental (PUC Minas). Agraciada nos prêmios Mol de Jornalismo para a Solidariedade e CDL/BH de Jornalismo.

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