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A pandemia causada pelo Covid-19 colocou a sociedade diante de um cenário cheio de lacunas de informação e conhecimento científico. Nesse contexto, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) lançou a Chamada 01/2020 – Programa emergencial de apoio a ações de enfrentamento da pandemia causada pelo novo coronavírus.

Um dos projetos aprovados, o Angiotensina (1-7) no tratamento de pacientes do Covid-19: o estudo ATCO, pretende testar um tratamento desenvolvido por pesquisadores da UFMG, originalmente para tratar a hipertensão arterial, em pacientes que apresentam quadros graves do Covid-19. O medicamento é uma cópia feita em laboratório da angiotensina 1-7, hormônio produzido pelo corpo humano com efeito protetor.

Segundo o coordenador do Laboratório de Hipertensão, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nano-Biofarmacêutica (N-Biofar) da UFMG e CEO da Angitec – startup de pesquisa e desenvolvimento derivada do N-Biofar -, Robson Augusto Souza dos Santos, a substância tem propriedades anti-inflamatórias e anti-hipertensivas.

O hormônio também atua na prevenção de arritmias e tromboses. “No organismo, é produzida a partir de uma enzima, conhecida por ECA2 (enzima conversora de angiotensina 2). E é a partir desse ponto que pesquisadores brasileiros e belgas irão investigar como a história dessa substância se cruza com o novo coronavírus”, explica o coordenador.

Possibilidade de tratamento Santos explica que a ECA2 está no centro do Covid-19, uma vez que atua como receptora do vírus nas células do nosso organismo, incluindo as células dos pulmões. Ou seja, para que novo vírus penetre nas células pulmonares e se replique, é necessário a presença da ECA2. Após entrar na célula o vírus causa um processo inflamatório e debilita o sistema respiratório.

Além das células pulmonares, a ECA2 também compõe as células dos neurônios e do sistema imunológico e, por isso, os sintomas da doença vão muito além do que conhecemos por uma gripe. “Hoje temos a hipótese de que o Covid-19 seja uma doença mais vascular do que pulmonar, embora a porta de entrada sejam as vias respiratórias”, explica Santos.

Segundo o pesquisador, o coronavírus sequestra a ECA2 e com isso ela não consegue exercer sua função protetora. “O tratamento experimental busca, assim, compensar esse desequilíbrio repondo o hormônio”, afirma.

“Se os testes confirmarem a hipótese inicial, a angiotensina 1-7 poderá ser utilizada nos hospitais em caráter experimental, como recurso adicional de tratamento para o Covid-19”, ressalta o pesquisador.

Passo a passo – A primeira fase do estudo clínico para testar a eficácia do remédio acontecerá em Belo Horizonte, no Hospital Mater Dei e na Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig). O estudo verificará cerca de 60 pacientes voluntários, maiores de 18 anos, internados com insuficiência respiratória, com necessidade de ventilação mecânica e com previsão de estadia na UTI por mais de 48 horas.

Segundo o coordenador, os voluntários receberão o medicamento via endovenosa por sete dias. “Metade receberá a substância ativa e outra um placebo”, explica.

Como o remédio é feito a partir de uma substância produzida pelo organismo humano, a expectativa é que não ocorra efeitos colaterais. “Além disso, nenhum outro tratamento, que já esteja sendo utilizado será interrompido”, destaca.

Se os resultados forem satisfatórios em diminuir a gravidade dos sintomas e em reduzir o tempo de ventilação mecânica e permanência na UTI, haverá uma nova fase de testes. “Além disso, no segundo semestre deste ano, outro protocolo deverá ser realizado com a mesma substância por via oral, mas com foco em pacientes com sintomas leves”, adianta.

Alternativa segura Santos destaca, ainda, que a eficácia da angiotensina 1-7 já está muito bem documentada. Segundo o médico, um estudo clínico, realizado entre 2009 e 2011, por pesquisadores da UFMG já demonstrou a aplicabilidade dessa substancia no controle de quadros de pré-eclâmpsia, a chamada pressão alta na gravidez.

“Além disso, o medicamento também já foi testado em pacientes com câncer, em pesquisas internacionais”, conta o pesquisador.

Aliança quer vacina de até US$ 40

Londres/Chicago – Os coordenadores de um esquema de financiamento global de vacinas contra coronavírus estão analisando uma vasta gama de preços em potencial para o produto, e o valor divulgado de 40 dólares por dose seria o “número mais alto” dessa faixa, disse um dos colíderes do projeto ontem.

Seth Berkley, executivo-chefe da aliança de vacinas Gavi e colíder da Covax, um mecanismo concebido para garantir um acesso mundial justo a vacinas contra Covid-19, disse que não tem uma meta de preço específica e que também tentará negociar uma escala de preços para países mais ricos e mais pobres.

Berkley rejeitou comentários feitos por fontes da União Europeia na semana passada segundo as quais a Covax está visando um preço de 40 dólares para vacinas contra Covid-19 em países ricos. As fontes da UE haviam dito que o bloco tentará obter acordos mais baratos fora do esquema da Covax.

“Havia uma gama ampla de números, e elas (fontes da UE) deixaram o número mais alto de fora”, disse Berkley. Ele ainda disse que representantes da Covax deram “uma variedade de preços diferentes” em uma apresentação a autoridades da UE.

“E este (40 dólares) foi o preço máximo na faixa para países de alta renda, ao invés de um preço definido”, disse ele.

A Covax é coliderada pela Gavi, pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Coalizão para as Inovações de Prontidão Epidêmica (Cepi) e foi criada para garantir um acesso global rápido e igualitário para vacinas contra Covid-19 assim que elas tiverem sido desenvolvidas.

Seu objetivo é garantir e distribuir suprimentos de 2 bilhões de doses em nações que se filiarem até o final de 2021. No início deste mês, a Gavi disse que mais de 75 países expressaram interesse em ingressar na Covax.

Berkley disse que a maioria das vacinas ainda se encontra em um estágio de testes tão precoce que é cedo demais para saber qual será o preço final.

“A verdade é que ninguém tem ideia de qual será o preço, porque não temos ideia de qual vacina funcionará.”

Ele disse que as perguntas sobre qual tecnologia pode ser mais eficaz, se as vacinas serão de dose única ou dupla e qual pode ser a produção das instalações de fabricação ainda não têm resposta e que todas influenciarão o preço final da vacina.

Berkley disse que a Covax e vários outros mecanimos também estão incluindo um “bônus de velocidade” no custo das vacinas contra Covid-19 que incentiva as empresas a fabricarem milhões de doses às cegas, mesmo antes de saberem se suas candidatas a vacina funcionam. “Vemos isso como sendo 15% ou 20% do que o custo será”, estimou. (Reuters)