A conta do improviso urbano

Cenário contribui para a fragilidade das cidades diante das mudanças climáticas e desastres naturais
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A conta do improviso urbano
Desastre natural que atingiu a Zona da Mata causou prejuízos para o setor produtivo em Juiz de Fora e Ubá | Foto: Fotos Públicas

Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda descreve dois modos distintos de ocupar um território. De um lado, o ladrilhador, que planeja ruas, cidades e espaços pensando nas próximas gerações. Do outro, o semeador, que ocupa a terra conforme ela se apresenta, adaptando-se às circunstâncias mais do que desenhando o futuro. Quase noventa anos depois, essa reflexão continua oferecendo uma explicação atual para muitos dos nossos problemas urbanos.

Recentemente, chuvas intensas e rajadas de vento paralisaram cidades, derrubaram árvores, interromperam rodovias, destruíram casas, provocaram deslizamentos e deixaram mortos e milhares de desabrigados. A explicação mais imediata aponta para as mudanças climáticas. Ela está correta, mas conta apenas parte da história.

As mudanças climáticas não construíram nossas cidades. Apenas revelaram as consequências de décadas de improviso urbano.
O Brasil não chegou até aqui por falta de conhecimento técnico. Há décadas existem soluções para reduzir enchentes, estabilizar encostas, preservar áreas de drenagem e orientar a expansão urbana. Também não faltam normas, códigos de obras ou planos diretores. O problema foi transformar esse conhecimento em prioridade permanente.

Enquanto isso, muitas cidades cresceram mais rápido do que foram planejadas. Rios desapareceram sob avenidas, áreas de várzea transformaram-se em bairros, encostas passaram a receber moradias e o solo tornou-se cada vez mais impermeável. Parte desse processo nasceu da necessidade de moradia. Outra parte resultou da omissão do poder público, da especulação imobiliária e da incapacidade de aplicar o planejamento existente.

Durante muito tempo, essas fragilidades permaneceram escondidas. Enchentes eram tratadas como episódios isolados e deslizamentos como consequência exclusiva da chuva. Com eventos climáticos cada vez mais frequentes e severos, aquilo que parecia exceção tornou-se rotina. O clima mudou, mas nossas vulnerabilidades já estavam construídas.

Como quase sempre acontece, a natureza não distribui igualmente suas consequências. A chuva e o vento atingem toda a cidade, mas são os moradores das áreas mais vulneráveis que perdem suas casas, seus bens e, muitas vezes, a própria vida. As mudanças climáticas são um fenômeno global. A tragédia, porém, continua sendo profundamente humana.

Sérgio Buarque compreendeu que a forma como uma sociedade ocupa seu território revela como ela enxerga o futuro. Cidades não são fruto do acaso, mas das escolhas acumuladas ao longo das gerações. Quando os eventos extremos chegam, não colocam à prova apenas a força da natureza. Revelam, sobretudo, a qualidade do planejamento que fomos capazes de construir.

A natureza apenas antecipou a cobrança. A conta do improviso urbano foi escrita por nós ao longo de décadas.

Pedro de Medeiros
Sobre o autor

Pedro de Medeiros

Filósofo, Engenheiro e pós-graduado em Gestão de Pessoas

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