A conta da inclusão começa na escola

Entenda o seu impacto na autonomia e participação econômica de crianças com deficiência no Brasil
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
A conta da inclusão começa na escola
Foto: Reprodução Adobe Stock

O Brasil aprendeu a colocar crianças com deficiência na escola. Agora precisa aprender a medir quanto essa inclusão produz de autonomia, qualificação e participação econômica. Em 2025, a Educação Especial chegou a 2,5 milhões de matrículas, crescimento de 82% desde 2021. No mesmo período, o número de pessoas com deficiência atendidas pelo Benefício de Prestação Continuada (BPC) passou de cerca de 2,6 milhões para 3,7 milhões. São curvas diferentes, sem relação automática de causa e efeito, mas que revelam a dimensão econômica do desafio.

O BPC é um direito e não pode ser tratado como problema a ser eliminado. Mas seu custo fiscal merece atenção. Para 2027, estão previstos R$ 83,9 bilhões em despesas com o benefício para pessoas com deficiência, contra R$ 66,9 bilhões em 2026: aumento de 25,4%, ou R$ 17 bilhões em um ano.

Os estudos mais recentes mostram ainda que as concessões judiciais para pessoas com deficiência passaram de 48,4 mil, em 2021, para 207,4 mil, em 2025, alta de 328,9%. Entre os benefícios associados ao autismo infantil, foram 15,1 mil em 2021 contra 78,5 mil em 2024. Diagnóstico, reconhecimento de direitos, mudanças nas avaliações e judicialização ajudam a explicar essa expansão.
A pergunta econômica, portanto, não é quanto o País deve gastar com o BPC. É outra: quanto custa não desenvolver, desde cedo, a autonomia possível de uma criança? Matrícula é acesso. Não é resultado.

Quando comunicação, aprendizagem, autonomia e habilidades sociais não são acompanhadas, parte do custo pode aparecer mais tarde, na qualificação profissional, na empregabilidade e na dependência econômica.

Há ainda uma conta invisível. Sem uma rede de apoio, famílias podem reduzir jornada, abandonar empregos ou deixar de buscar oportunidades para cuidar. É renda perdida dentro de casa e produtividade perdida para a economia.

Por isso, educação inclusiva também deve ser tratada como investimento em capital humano. Diagnóstico oportuno, intervenção, formação de professores, acompanhamento individualizado e apoio às famílias podem reduzir vulnerabilidades evitáveis.
Tecnologia e dados podem melhorar essa equação, permitindo identificar gargalos, acompanhar trajetórias e direcionar recursos. O objetivo não é prever o destino de uma criança, mas permitir que o Estado intervenha antes que uma dificuldade se transforme em exclusão.

A primeira geração da inclusão tinha uma meta: colocar o aluno na escola. A segunda precisa acrescentar outra: fazer com que ele avance. Isso não elimina o BPC. Ao contrário: protege seu caráter de direito enquanto amplia a responsabilidade do Estado de investir antes que a vulnerabilidade se consolide.No fim, a questão é fiscal, social e econômica.

Proteger quem precisa custa dinheiro. Não criar condições para que mais pessoas desenvolvam autonomia também custa e pode custar por décadas.A matrícula é o começo da inclusão.O desenvolvimento é o retorno que ainda precisamos aprender a medir.

Carlos Frederico de Souza Moreira
Sobre o autor

Carlos Frederico de Souza Moreira

CEO da Cognvox, analista de sistemas, bacharel em Filosofia, pós-graduado em Marketing, engenheiro de negócios e empreendedor social


Publicidade Legal

Impresso

Ver outras datas

Digital

Ver outras datas
Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas

Acessos importantes

Conteúdo Especial
Conectados 60+: os desafios e as oportunidades da inclusão digital na terceira idade