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O El Niño e a arte da prevenção

Exemplo da Holanda pode ensinar o mundo a lidar com um novo episódio do El Niño no segundo semestre
O El Niño e a arte da prevenção
Foto: Reprodução Adobe Stock

Enquanto o mundo acompanha a possível chegada do El Niño, a história da Holanda mostra que fenômenos naturais podem ser previstos e seus impactos reduzidos quando ciência, engenharia e planejamento são levados a sério.

Muito antes da previsão climática moderna, os holandeses já haviam aprendido uma lição fundamental: a natureza costuma avisar antes de cobrar a conta. Durante séculos, o lago Haarlemmermeer cresceu lentamente no coração da Holanda. Alimentado por tempestades e inundações recorrentes, avançava sobre terras agrícolas e ameaçava cidades inteiras. O problema era conhecido. O que diferenciou os holandeses foi a decisão de agir antes da tragédia.

No século XIX, utilizando uma das tecnologias mais avançadas da época, o país construiu gigantescas estações de bombeamento movidas a vapor para drenar o lago. Durante anos, as máquinas retiraram milhões de metros cúbicos de água até transformar a área em terra firme. Onde antes havia água, surgiram cidades, fazendas e infraestrutura. A engenharia não derrotou a natureza. Encontrou uma forma inteligente de conviver com ela.

Um século depois, a Holanda enfrentou um desafio ainda maior. Em 1953, uma combinação de tempestade e maré alta rompeu diques e provocou uma das maiores tragédias da história do país, deixando mais de 1.800 mortos. A resposta veio por meio do Delta Works, um gigantesco sistema de diques, barragens e comportas projetado para reduzir o risco de novas catástrofes. Mais uma vez, a lição foi clara: quando a ameaça é previsível, a prevenção é uma escolha.

Agora os olhos do mundo se voltam para a possibilidade de formação de um novo episódio de El Niño no segundo semestre de 2026. O fenômeno pode alterar regimes de chuva, provocar secas em algumas regiões, enchentes em outras e gerar impactos na agricultura, no abastecimento de água e na produção de energia. O mais importante é que seus sinais podem ser identificados com antecedência por meio de satélites, sensores oceânicos e modelos climáticos.

É justamente nesse ponto que a engenharia assume seu papel. Reservatórios, sistemas de drenagem, contenção de encostas, reforço de barragens e obras de infraestrutura não impedem a natureza de agir. Eles reduzem a vulnerabilidade das pessoas diante dela. A engenharia é a forma mais concreta que a humanidade encontrou para transformar conhecimento em proteção.

O Brasil conhece bem essa realidade. Todos os anos sabemos quais regiões enfrentam risco de enchentes, quais cidades sofrem com drenagem insuficiente e quais áreas são vulneráveis a longos períodos de seca. O desafio raramente está na falta de informação. O desafio está na capacidade de transformar conhecimento em ação antes que a emergência se instale.

Os diques holandeses não são apenas monumentos da engenharia. São monumentos à capacidade de acreditar nas previsões. Se o El Niño realmente se confirmar nos próximos meses, a principal questão não será o que a natureza fará. A verdadeira pergunta é se o poder público fará a sua parte ou se parte da população será deixada, mais uma vez, à própria sorte diante de um problema que já sabíamos que estava chegando.

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