Como o fim da escala 6×1 pode impactar as viagens corporativas
Se aprovada em definitivo, a proposta que extingue a escala 6×1 poderá produzir um efeito ainda pouco explorado no debate público: tornar as viagens corporativas mais caras para as empresas brasileiras. Claro que os motivos são compreensíveis e respeitáveis, mas as mudanças exigirão ainda mais atenção ao planejamento estratégico e financeiro das companhias.
A discussão sobre a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas e a adoção de dois dias de descanso consecutivos tem sido conduzida, naturalmente, sob a ótica das relações de trabalho, mas seus impactos vão além de empregados e empregadores. Setores que operam de forma contínua, como hotelaria, aviação e turismo, podem enfrentar desafios operacionais relevantes, com reflexos diretos sobre custos e preços.
Vale dizer, antes de qualquer análise econômica, que a discussão sobre qualidade de vida e descanso de quem trabalha é legítima e necessária. Reduzir jornada e garantir dois dias de folga consecutivos responde a uma demanda real por bem-estar. A intenção aqui não é contestar esse mérito, mas olhar para um efeito colateral que ainda tem recebido pouca atenção no debate: o impacto sobre a estrutura de custos das empresas que dependem de viagens e despesas corporativas.
A proposta de emenda à Constituição já foi aprovada em dois turnos na Câmara dos Deputados e segue para análise do Senado. Independentemente de seu formato final, o avanço da discussão já coloca em evidência uma questão importante: como as atividades que funcionam 24 horas por dia irão absorver a necessidade de manter o mesmo nível de serviço com jornadas reduzidas?
Na hotelaria, a resposta tende a passar pela ampliação das equipes. Hotéis dependem de profissionais em áreas como recepção, governança, alimentação, eventos e manutenção durante toda a semana. Caso a migração para uma escala 5×2 ocorra sem redução salarial, a contratação de novos colaboradores poderá se tornar necessária para garantir a cobertura operacional. Trata-se de uma mudança que tende a elevar custos de forma estrutural e que, em maior ou menor grau, costuma ser repassada aos preços das diárias.
Na aviação, as preocupações seguem uma lógica semelhante. Durante teleconferência de resultados da LATAM Airlines Brasil, o CEO Jerome Cadier chamou atenção para os impactos que mudanças generalizadas na jornada poderiam gerar sobre operações internacionais. O alerta não se restringe a uma companhia específica. O setor possui características próprias, com escalas e jornadas adaptadas à dinâmica dos voos, especialmente em rotas de longa distância. O episódio ilustra a complexidade de aplicar regras uniformes a atividades que operam sob regimes especiais.
Os impactos potenciais também extrapolam os setores diretamente afetados. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) alerta para o risco de aumento dos custos de produção de bens e serviços, com possíveis reflexos sobre preços e atividade econômica.
Para as empresas que dependem de viagens a trabalho, o momento exige atenção redobrada. O mercado já convive com uma pressão significativa sobre os custos do transporte aéreo, impulsionada pela valorização do petróleo e pelo aumento do preço do querosene de aviação. Uma eventual alta nas tarifas hoteleiras adicionaria um novo componente de pressão aos orçamentos corporativos.
Pela primeira vez em muitos anos, hotelaria e transporte aéreo caminham simultaneamente para um cenário de custos mais elevados, criando um desafio adicional para o planejamento financeiro das organizações.
Os números ajudam a ilustrar esse contexto. Em poucos meses, o barril do petróleo Brent saltou de US$ 67 para US$ 110 em meio às tensões geopolíticas no Oriente Médio. No mesmo período, o querosene de aviação acumulou reajustes de até 55% no preço de distribuição, segundo anúncio da Petrobras realizado em abril de 2026.
O reflexo já aparece nas tarifas. Dados da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) mostram que os preços das passagens aéreas no Brasil avançaram, em média, 15% entre fevereiro e março de 2026. No período, a Azul registrou alta de 21,6%, a Latam de 10,7% e a Gol de 11,3%.
As perspectivas para os próximos meses indicam a continuidade desse movimento. Projeções baseadas nos resultados divulgados pelas principais companhias aéreas norte-americanas apontam que o repasse dos custos de combustível para as tarifas deve se intensificar ao longo de 2026. Na prática, isso significa a consolidação de um novo patamar tarifário para o setor, com impactos que podem se estender por 2027.
O debate sobre a jornada de trabalho ainda está em curso, e seu desenho final dependerá do Senado, mas uma coisa já parece clara: os efeitos vão além da relação entre empresas e empregados. Para quem administra viagens e despesas corporativas, o recado é que a vantagem competitiva dos próximos anos virá menos da negociação pontual de tarifas e mais da capacidade de enxergar, com dados e tecnologia, onde cada real é gasto.
Tecnologia, inteligência artificial e centralização de dados já oferecem ferramentas capazes de apoiar decisões mais precisas, reduzir desperdícios e ampliar o controle sobre despesas de viagem. Em um ambiente de custos crescentes, a capacidade de gestão passa a ser tão importante quanto a negociação de tarifas.
Os resultados já começam a aparecer em diferentes organizações. Soluções baseadas em inteligência artificial têm contribuído para identificar oportunidades de economia, automatizar processos e melhorar a experiência dos viajantes corporativos, demonstrando que eficiência e controle financeiro podem caminhar juntos.
O debate sobre a jornada de trabalho ainda está em curso. O que já parece evidente, porém, é que seus efeitos não ficarão restritos às relações entre empresas e empregados. Para quem administra viagens corporativas, os próximos anos poderão exigir menos foco em contenção de gastos e mais capacidade de gestão para lidar com uma nova estrutura de custos do mercado.
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