Paraguai atrai, Brasil afasta: a contramão da competitividade
Aproximadamente 350 indústrias já operam no Paraguai sob um regime exportador, a maioria, cerca de 230, com capital brasileiro. Algumas transferiram para lá parte da produção daqui; outras nem se instalaram aqui, usando o vizinho como base mesmo tendo o Brasil como mercado. Segundo autoridades paraguaias, são cerca de 25 mil empregos que deixaram de ser gerados aqui.
O fenômeno revela um desafio que o Brasil insiste em adiar: voltar a ser competitivo na disputa global por investimentos. São perdas silenciosas, que só aparecem quando atingem empregos e arrecadação. É o que ocorre na fronteira, sob o regime de maquila, que permite a empresas estrangeiras instalar fábricas no país para produzir e exportar com tributação reduzida.
Não são negócios marginais: há nomes como Lupo, JBS, Karsten e Dass, além de fornecedores de autopeças. A questão não é por que elas foram, mas o que o Paraguai oferece que o Brasil deixou de oferecer ou nunca ofereceu.
Na maquila, os números falam por si: a empresa recolhe apenas 1% de imposto sobre o valor agregado exportado e importa máquinas e insumos com tributos suspensos. A soma de impostos e encargos trabalhistas, que em setores brasileiros chega a 80% do custo, fica em torno de 12% no Paraguai. A energia, puxada por Itaipu, custa até 60% menos, e um empregado formal sai 40% mais barato que sob a CLT, com jornada legal de 48 horas semanais. O Paraguai construiu essa competitividade de forma deliberada. O Brasil convive com imposto de renda corporativo de até 34% antes dos tributos sobre consumo, juros altos, insegurança jurídica e uma burocracia que torna o investimento produtivo um exercício de resistência.
Como secretário de Desenvolvimento Econômico, negociando com empresas nacionais e estrangeiras, aprendi que investidores não escolhem destinos por afinidade, e sim por racionalidade. Foi assim que Minas atraiu mais de R$ 500 bilhões, não por incentivos isolados, mas por liberdade econômica, simplificação regulatória e articulação com os municípios.
Preocupa que o debate nacional foque mais em distribuir renda do que em produzi-la, como na discussão sobre a redução da jornada e o fim da escala 6×1, sem pesar o impacto na produtividade e no custo. Nenhuma economia sustenta custos crescentes sem ganhos de eficiência, sob pena de perder investimento e emprego formal. Isso não significa renunciar a direitos, mas reconhecer que emprego de qualidade e renda dependem de empresas dispostas a investir.
Minas tem razões para acompanhar de perto e com prioridade esse movimento: a indústria responde por boa parte das exportações, da arrecadação e do emprego formal do Estado, e setores como o têxtil, o calçadista e o de autopeças convivem com a concorrência internacional. Até aqui não houve migração relevante de empresas mineiras, mas competitividade não é conquista permanente: precisa ser cultivada sempre.
Por experiência própria, sei que a competição por investimentos não dá trégua. O Paraguai já fez suas escolhas, e a pergunta que o Brasil precisa responder é quais serão as suas, pois ninguém perde investimento por acaso, e sim quando deixa de oferecer as condições para recebê-lo. Com o capital cada vez mais móvel, competitividade deixou de ser vantagem, agora é condição de sobrevivência.
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