Indústria Inteligente

Crédito barato não garante transformação digital

BNDES Mais Inovação é parte do programa Nova Indústria Brasil
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No início de maio, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou uma redução importante no custo da linha de crédito do programa “BNDES Mais Inovação”, parte do programa Nova Indústria Brasil e voltada ao financiamento de máquinas e equipamentos da indústria 4.0.

Com orçamento de R$ 10 bilhões para 2026, a linha passou a oferecer taxas de 5,85% mais spread para micro, pequenas e médias empresas e de 6,94% para as grandes, além de ampliar o escopo para bens de informática e automação. Trata-se de um avanço relevante em um País onde o custo do capital costuma frear a modernização industrial.

A medida chega em boa hora. Inteligência artificial, automação e conectividade deixaram de ser promessa para se tornar condição de competitividade. Empresas que disputam mercados globais sabem que operações mais conectadas produzem com mais previsibilidade e menos desperdício. O crédito mais acessível remove uma barreira importante e amplia o acesso a essa transformação.

O erro de investir sem prioridade

O risco está em confundir acesso a crédito com garantia de retorno. Taxas menores reduzem o custo do investimento, mas não respondem à pergunta mais importante: investir em quê e para resolver qual problema.

O padrão se repete. Empresas compram tecnologia sem revisar os processos que deveriam melhorar e acabam automatizando a própria ineficiência. Muitas investem por pressão competitiva ou para acompanhar tendências. Falta o que separa um bom investimento de um desperdício caro: governança de capex, critérios claros de priorização e disciplina para recusar iniciativas que ainda não fazem sentido.

Transformação digital bem-sucedida começa antes da tecnologia. Exige compreender a maturidade operacional da empresa, identificar perdas e direcionar recursos para os gargalos mais críticos. Cada projeto precisa de uma tese de retorno, estimativas consistentes de ROI e indicadores que permitam medir a captura de valor. Sem isso, o investimento vira aposta.
Crédito acessível exige mais disciplina.

Há um aspecto menos discutido. Quando o financiamento é caro, a escassez funciona como filtro natural das escolhas. Quando fica acessível, essa barreira desaparece. Cresce, então, o risco de investimentos pulverizados, desconectados entre si e incapazes de gerar impacto relevante. O dinheiro mais barato exige, paradoxalmente, governança mais forte.

Nada disso reduz o mérito da iniciativa do BNDES. Pelo contrário, ela cria uma oportunidade importante para acelerar a modernização da indústria brasileira. O que definirá se ela se transformará em competitividade ou apenas em dívida associada a ativos subutilizados será a maturidade das decisões tomadas pelas empresas.

Transformação digital não começa pela tecnologia. Começa pela clareza sobre quais problemas a empresa realmente precisa resolver.

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