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EDITORIAL | Sem espaços para amizade

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Crédito: REUTERS/Kevin Lamarque

Muito possivelmente o presidente Jair Bolsonaro enxergue em Donald Trump, além de modelo, seu principal aliado, alguém digno de um alinhamento automático em matéria de política externa ou o que mais for.

Um sentimento, fica mais claro a cada dia que passa, unilateral e não correspondido, a julgar pelas atitudes do atual morador da Casa Branca, em Washington. Trump, quebrando uma tradição de 60 anos, acaba de anunciar que pretende indicar um conterrâneo para a presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), cargo sempre ocupado por um latino-americano e para o qual o presidente Bolsonaro teria pretensões de indicar um brasileiro.

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As más línguas poderiam dizer que Trump talvez tenha ficado mal impressionado com a indicação de Bolsonaro para uma das diretorias do Banco Mundial, assim como não se pode esquecer que o presidente norte-americano fez do slogan America First o principal mote de sua campanha.

Nesse sentido, ele estaria apenas sendo coerente, como teria sido quando ameaçou elevar tarifas de importação sobre o aço brasileiro ou, faz pouco, quando fechou as fronteiras de seu país para brasileiros ou nos mandou de presente um grande lote de cloroquina, cujo uso acabara de proibir no seu país.

Como alguém já disse, em política externa não existem amigos, existem interesses, fato que o presidente brasileiro, tanto quanto seu ministro das Relações Exteriores, ignora por completo, como se ainda vivessem nos anos 60 ou 70, no auge da Guerra Fria. E raciocinando como se tudo que for bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil, enquanto fustigam, sempre que podem, o maior comprador de produtos brasileiros no planeta.

Como dissemos algumas linhas acima, a questão do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que Trump mal deve saber do que se trata, tanto quanto não sabia da existência de um arsenal atômico na Grã-Bretanha ou que a Finlândia não é parte da antiga União Soviética, é reflexo de um comportamento que, uma vez mais, fere os princípios da boa convivência, ao mesmo tempo em que, para o bom entendedor, reforça o lado sombrio do America First .

Tudo isso por certo é mais assustador diante das proporções da crise sanitária que o planeta enfrenta e da perspectiva, bastante real, de que uma de suas consequências será recessão global também de proporções inéditas. E tudo isso cobrando um preço alto também para o próprio Trump, cujas chances de reeleição despencam na mesma proporção em que os problemas de seu país aumentam.

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