Crédito: REUTERS/Pilar Olivares

No mês de abril passado, aos primeiros sinais de irregularidades no pagamento do auxílio emergencial a trabalhadores autônomos e pessoas de baixa renda, o Planalto prometeu cadeia para os fraudadores e que a Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência já estavam à caça deles.

Hoje já se sabe que será um trabalho duro e que não haverá como acomodar tantos infratores. Considerando que mais de 50 milhões de benefícios estão sendo pagos, pode até parecer pouco encontrar, nesse meio, algo como 600 mil pagamentos indevidos, aí incluídos políticos, militares, funcionários públicos e pessoas de renda média, alguns de alta renda talvez, como a noiva gaúcha que recebe o benefício e ultima preparativos para festa de seu casamento, que acontecerá numa ilha caribenha.

Já tocamos no assunto mais de uma vez, mas, em plena pandemia e com o número de mortos já tendo ultrapassado a marca dos 50 mil, é impossível manter silêncio ou esconder indignação, sobretudo diante do deboche de alguns dos fraudadores como a senhora que, entrevistada na televisão, comentava entre risos que compraria um carro novo enquanto anunciava que a filha também está na lista de beneficiários. Ou o político, com patrimônio de mais de R$ 3 milhões, que se diz falido e que necessita do auxílio para pagar contas de campanha.

É absolutamente inacreditável que tudo isso aconteça, que as ameaças por enquanto tenham ficado por isso mesmo, enquanto o governo federal anuncia, com rufar de tambores, que o auxílio será prorrogado por mais três meses, com valores menores. É preciso saber o que aconteceu e o que está acontecendo, é preciso que seja explicado por que não foram feitos os cruzamentos devidos entre as bases de dados disponíveis, o que facilmente apontaria aquilo que os burocratas gostam de chamar de “inconsistências”.

Talvez, sobretudo, seja preciso informar se, de fato, o que veio a lume, como resultado de apuração jornalística ou informações dos órgãos responsáveis, é realmente toda a história. Margem para desconfiança é o que não falta.

Passar a borracha e apagar o mal feito definitivamente é o que não pode acontecer, antes que seja esclarecido quem errou, como errou e porque errou. Afinal, já se sabe que houve fraudes, assim como ocorreram pagamentos indevidos, pelos quais o beneficiário não tem qualquer responsabilidade, tudo isso ajudando a sugerir que houve também muita displicência, se não incompetência, algo que não pode ser justificado como resultado da pressa em liberar o auxílio.