Crédito: REUTERS/Adriano Machado

Rodrigo Augusto Prando*

O último final de semana pode ser, por enquanto, entendido como uma gênese de um processo de reação ao discurso e às ações bolsonaristas, nas ruas e nas redes. Atores políticos, intelectuais, torcidas organizadas, artistas, operadores do direito, membros da sociedade civil organizada e demais organizações indicam que as formas de sentir, pensar e agir estão se modificando no bojo da sociedade brasileira no que tange à política.

Ganhou as redes sociais o movimento “Somos 70 por cento” que busca unificar e fortalecer os 70% que significam, em média, os que consideram o governo Bolsonaro como péssimo, ruim e regular e, com isso, de se colocarem contra os 30% de uma base bolsonarista de apoio ao presidente que se mostra coesa e resiliente há um bom tempo nos resultados das pesquisas.

Há, também, o #JUNTOS, que, em página inteira de jornal, afirma que são “cidadãs, cidadãos, empresas, organizações e instituições brasileiras e fazemos parte da maioria que defende a vida, a liberdade e a democracia”.

Noutra página inteira de jornal, lemos o manifesto do “basta”, dos profissionais do direito, que assevera que: “O Brasil, suas instituições, seu povo não podem continuar a ser agredidos por alguém que, ungido democraticamente ao cargo de presidente da República, exerce o nobre mandato que lhe foi conferido para arruinar com os alicerces de nosso sistema democrático, atentando, a um só tempo, contra os Poderes Legislativo e Judiciário, contra o Estado de Direito, contra a saúde dos brasileiros, agindo despudoradamente, à luz do dia, incapaz de demonstrar qualquer espírito cívico ou de compaixão para com o sofrimento de tantos”.

Além dos manifestos em páginas de jornais e nas redes sociais, as ruas tiveram, no domingo 31/05, em São Paulo, na Avenida Paulista, o embate entre bolsonaristas e membros de torcidas organizadas de grandes clubes de futebol.

Há vários domingos, em Brasília e em São Paulo, por exemplo, os apoiadores do governo saem às ruas, não em número expressivo, mas ainda assim capazes de ditar as pautas dos meios de comunicação, não raro, pelos desejos de intervenção militar e de conclamação pelo fechamento do Congresso Nacional e do Superior Tribunal Federal.

A Paulista, espaço simbólico da cidade de São Paulo, palco de enormes manifestações, teve o monopólio dos bolsonaristas contestado por aqueles que – pela primeira vez durante o distanciamento social – se colocam contra o presidente. Infelizmente, presenciou-se no local um conflito entre manifestantes e a Polícia Militar e, segundo o comando militar, já há investigação para saber a origem da contenda e sua dinâmica.

Nesse caso, aqui e alhures, as forças policiais foram acusadas de parcialidade em relação aos manifestantes, tendo, assim, sido lenientes com os bolsonaristas e vigorosa com os “antifas”, as torcidas organizadas que se colocam como antifascistas.
Em todos os casos, nas redes, nas ruas e nos manifestos, pode-se compreender uma inicial ação que busca construir uma frente ampla de oposição ao atual governo.

Estatisticamente, faz sentido reforçar a divisão entre os 30% que avaliam positivamente e os 70 % que, ou consideram regular ou reprovam, o governo Bolsonaro. O problema, aqui, é que os 70% não se apresentam com unidade de visão e de agenda, visto que os interesses políticos pessoais, partidários e ideológicos não foram, ainda, superados. A esquerda, centro-esquerda, direita e centro-direita, por exemplo, não conseguem, por meio de suas lideranças políticas, construir esse consenso objetivando contrapor-se ao bolsonarismo que, até o momento, mesmo em menor número, tem ganho a batalha política simbólica.

A situação política e social apresenta um quadro semelhante a um emaranhado de fios desencapados e que, a qualquer momento, pode gerar um curto-circuito capaz de eletrizar toda a sociedade. Quem sabe se o exemplo de torcidas organizadas, historicamente rivais, no futebol, não sirva para que políticos, independente de seus partidos, também unifiquem suas ideias e ações.

A pandemia levou ao distanciamento, mas não sufocou a política, embora muitos estejam se resguardando de uma cruel doença. As forças sociais se apresentam em potência e, se transformadas em atos, que sejam pela via da valorização do diálogo, do respeito à democracia e às leis e repudiando à violência que, geralmente, serve de combustível aos extremistas que se nutrem do caos apresentando soluções autocráticas.

* Professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia