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Cesar Vanucci *

“Uma humanidade compreensível e sem ódios, e, sobretudo, livre”. (Anseio expresso, há meio século, por Juscelino em seu discurso de posse na Amulmig.”

Concluo hoje a divulgação do pronunciamento que fiz, como presidente da Amulmig, na imponente e concorrida assembléia festiva, realizada na sede da Associação Comercial de Minas, por ocasião da posse do acadêmico Carlos Alberto Teixeira de Oliveira.

“O ingresso de Juscelino na Amulmig envolve pormenores históricos que não podem deixar de ser aqui relatados. Aconteceu há meio século. Aprovada a indicação de seu nome, melhor dizendo, a aclamação de seu nome à conta de seus irrecusáveis méritos como estadista, gestor da coisa pública, tribuno, líder carismático, intelectual, cuidou-se de programar a sessão solene de posse. Foi aí, então, que a ira dos plantonistas do fervilhante obscurantismo cultural dominante na paisagem pátria se manifestou. Pessoas ligadas ao regime autoritário daqueles tempos de chumbo mandaram para a entidade um recado curto e grosso: JK não pode tomar posse. Interrompa-se já o processo, sob pena de severas represálias.

O presidente, fundador da Amulmig, respeitado poeta e escritor Alfredo Marques Viana de Gois, de saudosa lembrança, achava-se licenciado da função. Inteirado da arbitrária “decisão extra-acadêmica”, entendeu de reassumir imediatamente o posto. E enfrentou, galharda e desassombradamente, diante da descabida pressão exercida contra a dignidade do sodalício, a “ordem” insolente emanada de representantes do governo ditatorial. Ou seja, do regime de exceção dominante, que “jamais existiu”, a se levar em consideração ridícula teoria revisionista da história circulante por aí, nascida de uma concepção fundamentalista da vida. Viana de Gois fez questão de coordenar no capricho, nos moldes ritualísticos costumeiros, a festa de posse. JK foi envolvido em clima de consagração. E, tanto quanto se sabe, as prometidas represálias não aconteceram. É incomum, mas pode ocorrer, vez por outra, nos trevosos domínios do despotismo, de alguém embriagado pelo poder subitamente reencontrar-se, por ligeiros instantes, com sua humanidade e acabar sendo acometido de um impulso de pudor.

Foi assim, então, que JK, injustamente banido, transformado em pária político pelo ódio, perseguido por suas crenças democráticas, encontrou na Amulmig um espaço a mais pra expor ideias e ideais fecundos.
Presenteio agora a distinta plateia com algumas palavras de Juscelino na cerimônia em que se tornou membro da Amulmig:

“Estou certo de que quando os sinos bimbalharem o novo minuto do terceiro milênio a sociedade humana se regerá por leis melhores. Nem o capitalismo com suas injustiças e muito menos o comunismo, com as suas terríveis crueldades, satisfarão a humanidade no limiar dessa nova etapa do tempo. Profeta não sou. Médico já fui. Difícil fazer o prognóstico sobre o mundo de amanhã. A equação está montada. Deus há de ajudar para que do cadinho fervente que borbulha em todos os centros de cultura do mundo, surja uma fórmula que permita uma humanidade compreensível e sem ódios, e, sobretudo, livre”.

Assim falou JK. As palavras, como pontuou o escritor Vicente Guimarães, o saudoso Vovô Felício, ao homenageá-lo em sua chegada a Amulmig, jorraram “vaporosas, ondulantes, coloridas como um bando de borboletas multicores.”

Senhores e Senhoras, a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, guardiã serena de saberes acumulados foi apontada também na fala de seu mais fulgurante associado, JK, como “um relicário para guardar a glória de seus mais ilustres expoentes”. É isso, exatamente que a entidade se empenha em fazer na cerimônia desta noite.

Esta Casa, de tão ricas tradições de cultura, que na exaltação à inteligência celebra esfuziantemente a fascinante – posto que em não poucos momentos perturbadora – aventura humana; a Casa de Francisco de Assis, que fez da humildade um itinerário de vida; a Casa de JK, o líder, o estadista, que melhor soube interpretar o sentimento nacional, esta Casa abre as portas de par em par para receber seu mais novo associado. Seja muito bem vindo Carlos Alberto Teixeira de Oliveira. Você tem razão com sua história de vida: o espírito humano só funciona aberto!”