Crédito: REUTERS/Adriano Machado

Tilden Santiago*

O mesmo Profeta da Justiça e Messias dos Pobres, que disse: “A Verdade vos libertará”, disse também que “um Reino não subsiste, se houver divisão dentro dele”. Olavo de Carvalho, especialista e apaixonado pela Idade Média, guru do presidente Bolsonaro, esqueceu-se de ensinar a seu pupilo a segunda verdade messiânica, a unidade do Reino.

Virou discípulo aprendendo com o aluno os palavrões e se esquecendo de São Tomás.
O presidente vem perdendo muitos de seus apoiadores ilustres: Sérgio Moro, Datena, Janaína Pascoal, Joice Hasselmann, Mandetta, Nelson Teich, Lobão, Frota e outros artistas, Maurício Valeixo, Gustavo Bibiano (já falecido), os governadores Dória e Witzel.

Alguns empresários e oficiais militares favoráveis a Bolsonaro na campanha de 2018 não se manifestam e silenciam, eventualmente decepcionados e frustrados. Mesmo entre pastores e a massa evangélica, há os cabisbaixos, que não se conformam com o desprezo pela vida, o deboche pelas mortes e pela pandemia (gripezinha que vem ceifando brasileiras e brasileiros), com a nau sem rumo, sem ministros-marinheiros, que durem muito tempo nos cargos, que virou nosso Brasil sem planejamento contra o coronavírus e sem projeto para os tempos da peste e posteriormente.

Só que, dessa vez, a ruptura e o antagonismo do guru com seu discípulo é sinal de defecção mais profunda e de consequências imprevisíveis. Nenhum Reino subsiste dividido, ainda mais quando o governante chegou ao poder sem o voto de 75 por cento de sua população.

Já pensou o que seria da Grécia antiga e do legado democrático para a História, se Aristóteles não fosse convocado pelo velho pai da Macedônia para educar seu filho ou se brigasse com Alexandre?. O que seria de Roma e do legado republicano, se senadores e sábios conselheiros se afastassem de César? Se a “inteligência” se afastasse dos chefes dos EUA e da URSS, a barbárie da Guerra Fria teria sido maior, mais sorrateira, secreta e cruel.

E pensar que Olavo de Carvalho já se declarou enamorado de Tomás de Aquino, apesar de defender teoricamente a Inquisição. Pobre Aquinate! Não sou teólogo no sentido técnico do termo, mas curioso dela e de sua serva, a filosofia, guardo, na mente e no coração o que aprendi da visão aristotélico-tomista, sobre a vida e a morte, em Mariana, Roma, Palestina e Israel e, mais tarde, no Brasil, na Teologia da Libertação, com Boff, Betto, Beozzo, Libânio, Gustavo Gutierrez, Pedro Ribeiro, Maria Helena, Paul Gauthier, Marie Thérrèse e outros.

Não nos intimidamos com a visão marxista, que abraça a violência da luta de classe, com naturalidade racional. Isso porque aprendemos do Doutor Angélico, que a violência libertadora é lícita, quando se trata de derrubar um tirano-déspota de seu trono de injustiças, crimes, devaneios e loucuras.

Se admira Tomás de Aquino, o Olavo deveria saber e ensinar a Jair o que o maior doutor da Igreja Romana escreveu, antes da Reforma Protestante de Lutero, em 1470, sobre tiranicídio, no “Comentário em Sentenças de Pedro Lombardo”. São Tomás é muito claro: “Quando o que é ordenado por uma autoridade opõe-se ao objeto, para o qual foi constituída essa autoridade… Não só não há obrigação de obedecer à autoridade, mas se é obrigado a desobedecê-la como fizeram os santos mártires, que sofreram a morte, em vez de obedecer a ordens ímpias dos tiranos… Pode até ser elogiado e recompensado por ser o que liberta o seu país, matando um tirano (Comentário em Sentenças de Pedro Lombardo,  trad. J.G.Dawson-Oxford, 1959-44,2 em O’Donovan, páginas 329-30). Obrigado amigo Beozzo, teólogo, filósofo, sociólogo, historiador e espiritualista.

Não sei se Olavo de Carvalho leu São Tomás de Aquino em profundidade! Duvido! Difícil, se não impossível, para quem fala tantos impropérios e palavrões, como seu aluno! Também não sei até quando dura seu antagonismo retórico ao presidente Bolsonaro.

Não surpreenderá nenhuma brasileira ou brasileiro, se esse falso guru, filósofo ou astrólogo, não se sabe, voltar para os braços do discípulo poderoso, que tem tudo a lhe oferecer…

*Jornalista, embaixador e sacerdote itinerante