Nair costa Muls*

No cenário desafiador trazido pela pandemia, impactando vidas e negócios, as mudanças programadas se tornam ainda mais urgentes. Algumas já se registram, impostas pela própria realidade: tanto no processo de trabalho quanto no comércio e quanto no papel do Estado.

O trabalho remoto, o home office, o ecommerce, o uso e o aprimoramento das plataformas digitais, a digitalização dos processos internos das empresas foram as fórmulas encontradas para a continuação de muitos dos negócios e serviços, aproveitando-se do avanço da tecnologia digital.

Esse avanço facilita, simplifica os processos, diminui os custos e a burocracia; e ainda impacta a mobilidade urbana e, consequentemente, a poluição. Nesse novo contexto, os órgãos públicos também têm um papel de destaque, adaptando os recursos digitais para os diferentes serviços a serem prestados pelo Estado, diminuindo a burocracia, eliminando custos excessivos, descartando projetos e métodos desnecessários e facilitando a vida das pessoas e dos negócios.

Também nesse novo contexto de isolamento social, fechamento de vários negócios e de perda de empregos, torna-se extremamente importante o bem-estar físico, emocional e social para o equilíbrio e bem-estar das pessoas, assim como a existência de um sistema de saúde pública bem estruturado e bem equipado, também se utilizando de plataformas digitais.

Ampliaram-se assim os legados deixados pelas discussões promovidas no último painel, composto por diretores da ArcelorMittal e Gerdau, presidente da Fiemg, da Fundação Pitágoras e da MRV, mediados pelo presidente da FDC.

Um dos maiores legados, segundo os participantes, foi a percepção, pelo mundo dos negócios, das causas das desigualdades sociais e da exclusão da maior parte da população, constituída pelos trabalhadores e por aqueles que praticamente não têm acesso a um trabalho estável nem a um salário razoável.

Desigualdade esta que se assenta na retenção da maior parte do resultado obtido no processo de trabalho pelos detentores do capital (o lucro) e na pequena parte desse resultado destinada aos trabalhadores. Urge, portanto, resolver essa questão. Ou seja, a compreensão de que se o capitalismo gerou muita riqueza, ela se concentrou em uma pequena faixa da população mundial.

Assim sendo, o capitalismo precisa se aperfeiçoar e “jogar dinheiro no andar de baixo”. Um segundo legado foi a compreensão de que essa mudança tem que ser estrutural, na forma de ser do capitalismo: eficiência e lucro sim, mas salário justo para o trabalhador.

A filantropia também pode ser um importante instrumento de alocação dos lucros excessivos. O terceiro legado, a compreensão de que essa mudança estrutural exige uma ação intersetorial, numa forte e bem coordenada articulação de todos os setores responsáveis ─ produtivo, comércio, serviços, Estado/governo, universidade ─ em prol do bem-star da sociedade e de uma economia solidária, sustentável e soberana.

Um quarto legado é a compreensão da importância do conhecimento científico e da pesquisa para o avanço da produção e fortalecimento da economia, portanto, para o bem-estar da sociedade. Nesse mesmo sentido, um quinto legado: a valorização da educação nesse processo, sobretudo da educação básica; daí o compromisso com a melhoria da rede básica do ensino público responsável pela formação da maior parte da população das classes excluídas.

O Projeto Conspiração Mineira de Educação, desenvolvido pela Fundação Pitágoras, que busca a permanência dos jovens na escola, pode ser um exemplo. Mas também a valorização da universidade pública, principal responsável pelo avanço da ciência, pela pesquisa e pela produção de conhecimento que pode servir ao avanço da economia, à melhoria da produtividade do processo de produção e à qualidade dos produtos e dos serviços.

Daí, outro legado foi a compreensão clara da importância da educação, da qualificação e da formação profissional em todos os níveis do mundo dos negócios, inclusive no setor das pequenas e médias empresas que precisam ser melhor atendidas nesse aspecto. Os papéis do Sesi, do Senai, do Senar e do Sebrae são de fundamental importância. E ainda um legado importante: assegurar um desenvolvimento sustentável, através de um ecossistema de sustentabilidade, constituído pelo bom desempenho da empresa; pelo reconhecimento e valorização do desenvolvimento e bem-estar das pessoas, ou seja, de todos aqueles que são parte integrante da realização da missão e dos valores da empresa, aí se incluindo as comunidades onde estão inseridos os negócios.

Um último, mas não menos importante legado, é a motivação, o entusiasmo, a disposição sentida pelos participantes para promover as transformações exigidas para que o modo de produção capitalista possa ser realmente mais justo e mais consciente.

Todos esses legados podem se resumir na necessidade de empatia, de compaixão, de cuidado, de amor e de entusiasmo que vão inspirar as transformações estruturais a serem realizadas através da articulação intersetorial de todos os setores responsáveis, em prol da construção de um mundo melhor, como acentuou e bem resumiu a presidente do DIÁRIO DO COMÉRCIO, Adriana Muls, no encerramento do Encontro #JuntosPelasEmpresasdeMinas, complementada pelo posicionamento do Diretor Executivo e de Mercado, Yvan Muls, que considera esse compromisso assumido pelos participantes do Encontro, como “heroico, porque tira as pessoas da pobreza e gera prosperidade”.

*Doutora em Sociologia, professora aposentada da UFMG/Fafich