Marília Campos articula apoio a Lula em Minas e define agenda para o Senado

Senadora eleita propõe redução da dívida, apoio aos municípios e proteção às mulheres
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Marília Campos articula apoio a Lula em Minas e define agenda para o Senado
Foto: Reprodução Diário do Comércio

A senadora eleita Marília Campos (PT) afirmou que seu mandato no Senado a partir de 2027 será marcado pelo pragmatismo e pela defesa de pautas municipalistas, mesmo em um cenário de maioria conservadora no Congresso. Em entrevista exclusiva ao Diário do Comércio, a primeira concedida depois da vitória dela nas urnas, Marília afirmou que precisará se “reeducar” para o ambiente legislativo após quatro mandatos no Executivo em Contagem e que adotará uma postura serena e determinada.

Marília avaliou que a diferença de votos entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) em Minas Gerais no primeiro turno é pequena e reversível. Para o segundo turno, a coordenação da campanha definiu como meta para ela uma atuação focada na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) para combater a abstenção, com reuniões previstas em vilas e favelas a partir da próxima terça-feira e articulação com prefeitos e vereadores. Ela disse que a estratégia será apresentar o histórico de compromissos assumidos e cumpridos por Lula em contraste com o adversário.

Sobre a formação de frente ampla para apoiar a reeleição de Lula neste segundo turno, Marília relatou que fez contatos com PSDB, MDB, PDT e PSD e disse ter conversado com o vice-governador eleito Falcão para buscar interlocução com o governador eleito Cleitinho Azevedo.

No Senado, a senadora eleita disse que vai focar em políticas públicas com orçamento para o enfrentamento ao feminicídio, sem entrar em debates ideológicos, e na defesa de mais de 400 municípios mineiros com menos de 10 mil habitantes que dependem do FPM.

Como segunda mulher eleita senadora por Minas em mais de 200 anos, ela defende que o Estado, responsável por 40% da balança comercial e isento de impostos sobre minérios e grãos, reivindique compensação financeira e não perdão da dívida.

Como estão suas perspectivas para assumir a cadeira no Senado em 2027?

Estou totalmente focada na campanha do segundo turno, então ainda não estou pensando em como vai ser o nosso trabalho no Senado. Até mesmo porque isso vai variar muito dependendo de quem for eleito presidente. Lógico que com um perfil majoritariamente conservador eleito agora, sei que teremos muito trabalho pela frente no Senado, independente de quem for o presidente. Eu vou ter que me reeducar porque sou talhada para o Executivo e sou talhada para trabalhar num ambiente muito civilizado. Vou ter que ter uma postura serena e ao mesmo tempo uma postura determinada.

A senhora vai ser uma das poucas vozes de esquerda em um Senado com perfil mais conservador. Algumas pautas que a senhora defende, como erradicar o feminicídio, por exemplo, não são pautas que a ala conservadora concorda e defende. Como que a senhora pretende articular isso no Senado?

Acho que a gente tem que estar lá para discutir. Sempre fui uma pessoa que enfrentei os obstáculos e acredito que com o diálogo é possível convencer pela necessidade e não pela ideologia. Pela necessidade de se ter políticas públicas que enfrentem os problemas da nossa população. Tem o problema das mulheres, das violências, que não tem como negar as violências físicas, psicológicas, o assédio, o feminicídio. A gente vai ter que, em algum momento, conversar sobre isso no Senado. E discutir sobre isso não é a mesma coisa que discutir se existe ou não feminicídio, porque ele já é reconhecido por uma legislação específica inclusive. A discussão a ser feita é quais as políticas públicas que a gente vai adotar e, portanto, qual o orçamento que a gente adota para ter políticas que enfrentem o feminicídio no nosso País e em Minas. Não vamos focar na discussão do conceito e sim em qual política pública que a gente vai adotar. É isso que nós vamos discutir no Senado.

Vamos discutir também a sobrevivência das nossas cidades, o pacto federativo, a situação das prefeituras que é complexa. E isso não passa por partido nem por posição ideológica. A grande maioria dos nossos municípios, mais de 400 deles, tem menos de 10 mil habitantes e sobrevive basicamente do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). E nós precisamos garantir investimento, precisamos garantir estrada. Eu quero ver qual senador ou senadora que vai ser contra isso.

Não vou ficar fazendo debate ideológico, debate político no Senado. Temos que debater sobre os fatos que estão postos e os senadores e senadoras vão ter que se posicionar sobre os fatos, como no caso de Minas que tem cerca de 480 municípios com menos de 10 mil habitantes e quais políticas podem ser adotadas para esses municípios. Essa é a minha pauta no Senado, ela é uma pauta pragmática. A gente vai sempre contar com a mobilização dos municípios, com a mobilização dos prefeitos e esse é o meu compromisso, o de aproximar o Senado, que é dito como Câmara Alta, para que ele fique nivelado e sintonizado com aquilo que as cidades precisam. Então, o Senado tem que ficar mais perto do povo. E esse é o meu compromisso. Eu vou ser uma senadora próxima da população, próxima das cidades, próxima das mulheres.

Em 202 anos de história do Senado, a senhora é a segunda mulher eleita por Minas. A primeira foi Júnia Marise, em 1990. Como a senhora encara esse peso simbólico?

Eu me sinto honrada por essa aposta que os mineiros e mineiras fizeram de garantir que uma vaga em Minas Gerais fosse ocupada por uma mulher. Isso, inclusive, esse perfil que eu tenho de ser mulher e de ser uma mulher que dialoga contribuiu para despolarizar o processo eleitoral. Então isso falou mais alto do que, por exemplo, ser uma mulher do PT. O fato de ser mulher, de ter sido prefeita quatro vezes e de ter o perfil do diálogo ajudou na despolarização. E eu espero que no Senado possa contribuir com esse processo de despolarização, colocando pautas que de fato sejam de interesse do Estado de Minas Gerais, como por exemplo a questão do endividamento de Minas, que é grave.

Essa é uma pauta que eu particularmente quero representar. Nós não podemos aceitar que Minas Gerais continue nessa posição de endividamento. Isso compromete a presença do Estado na saúde, na segurança, na infraestrutura. E Minas Gerais não tem que reivindicar perdão da dívida. Minas Gerais tem que reivindicar compensação. E é com esse discurso que eu quero ir pro Senado. Não tem jeito de contestar isso. Nós somos um Estado exportador, responsável por 40% da balança comercial do País. Não cobramos impostos sobre as nossas duas principais atividades econômicas, que é exportação de minério e grão. Então, nós temos que ser compensados e a nossa compensação vai significar a redução do valor principal. É isso que nós precisamos. Nós precisamos pegar esses R$ 12 bilhões que estão previstos, que é o desembolso que teremos que fazer de acordo com Propag, pegar esse recurso e pelo menos 80% dele investir nas nossas estradas. É disso que Minas precisa.

Com a vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno em Minas e a eleição de um Congresso majoritariamente de direita e extrema direita, qual foi o diagnóstico do presidente Lula e sua equipe de campanha sobre esses resultados e como a senhora vê a possibilidade de virar o jogo no segundo turno aqui em Minas?

Antes de tudo, quero acrescentar nesse diagnóstico que a esquerda aumentou suas bancadas na Câmara Federal e na Assembleia Legislativa e pela primeira vez temos uma mulher do PT eleita para o Senado. Então isso compõe um quadro que é aparentemente contraditório, mas a gente deve ressaltar que a esquerda teve uma vitória nessas eleições e, mesmo que seja uma vitória parcial, é uma vitória importante.

Não penso que agora seja um momento para diagnóstico. A gente tem que primeiro considerar que a diferença entre o presidente Lula e Flávio Bolsonaro foi pequena. Na minha opinião, é uma diferença possível de rever do primeiro para o segundo turno. Em uma das minhas eleições para a prefeitura de Contagem, eu perdi no primeiro turno e reverti no segundo turno. Então, mudando a estratégia e focando num determinado público no processo eleitoral é possível reverter o cenário. E é isso que a gente está fazendo.

Qual vai ser o seu papel nessa campanha do presidente Lula no segundo turno?

Estou no grupo de coordenação geral da campanha e tenho a tarefa de articular a Região Metropolitana de Belo Horizonte. Estou encarregada de articular vereadores, vereadoras, de articular cidades, com metas para serem cumpridas para virar esse jogo. Então, é preciso contato, articulação, mobilização, que é o que a gente está fazendo. Estou focada na Região Metropolitana porque nós fizemos uma reunião com os partidos da coligação e distribuímos tarefas. Então, na terça-feira que vem, nós já vamos fazer reunião de vilas e favelas. Estamos focando nesse público porque identificamos um nível de abstenção grande aí. Na Região Metropolitana nós estamos com várias reuniões. Além da disputa virtual que a gente está intensificando em nível nacional, estadual e local, nós estamos também promovendo articulações, envolvendo a sociedade civil e eu, particularmente, estou responsável pelo grupo da Região Metropolitana de BH.

Tudo indica que a campanha do Flávio Bolsonaro vai apostar no voto anti-PT e na pauta da segurança pública. Nessas conversas com o presidente Lula e equipe de campanha dele que aconteceram em Brasília após o primeiro turno foi decidida uma linha de ataque ou até de defesa em relação aos ataques que vierem da campanha adversária?

A linha do Lula e a nossa linha é de apresentar o nosso projeto, não é uma linha de ataque. É claro que a gente disputa com um perfil de candidato que tem uma história de transparência, de compromisso, que contrasta muito com o perfil do outro candidato, que é envolvido em muitas denúncias,inclusive muitas foram denunciadas pela imprensa como no caso dele ter sido beneficiado pelo escândalo financeiro do Vorcaro e do Banco Master. O outro candidato é acusado também de rachadinhas no passado. Enfim, a campanha tem ressaltado essas questões, mostrado essas diferenças entre um e outro, mas também tem ressaltado uma linha onde o Lula é aquele que cumpre compromissos de melhorar a vida do nosso povo com programas, obras e políticas públicas espalhadas por todos os territórios.

Muito se tem falado sobre esse seu perfil do diálogo, da sua capacidade de conversar, inclusive com o centro. Como a senhora vai usar esse perfil para conversar com os partidos de centro aqui em Minas que ainda estão indecisos, neutros, em relação ao segundo turno?

Eu tenho defendido a articulação de uma frente ampla para apoio ao Lula no segundo turno. Nós temos um diagnóstico de que a direita cresceu ,reduzindo a representação política de centro e que, se esse setor não reagir, ele pode, inclusive, ser dizimado em função da polarização que nós temos. Então, a gente está chamando o centro para participar desse processo político de disputa para, inclusive, garantir a sobrevivência desse grupo.

Já tem algum partido ou liderança em mente para iniciar essas articulações com o centro aqui em Minas?

Fiz contatos com o PSDB, com o deputado federal Paulo Abi-Ackel, falei também com o presidente estadual do MDB, o Newton Cardoso Júnior, e fiz contato com o PDT, que são partidos que ainda não tomaram uma posição. Além disso, fiz contato com o PSD, que adota uma posição de neutralidade. Fiz contatos para que a gente se some nesse esforço para garantir a vitória de Lula no segundo turno. Essas articulações também estão sendo feitas em âmbito nacional. Eu fiz contato com o vice-governador eleito, o Luís Eduardo Falcão, e ele ficou de conversar com o governador Cleitinho Azevedo, apesar de ter visto pela imprensa que ele já se posicionou e deve apoiar Flávio Bolsonaro, o que é uma pena. Eu realmente espero ter uma aproximação com o governador Cleitinho, até porque Minas precisa muito do governo federal. E essa é uma chance, na minha opinião, de Minas recuperar seu protagonismo e solucionar o problema da sua dívida com a União que passa por uma negociação com o presidente Lula. Conversei com o Falcão e ainda não tive uma resposta do vice-governador. A gente sabe que o Cleitinho não tem uma posição muito estática, quem sabe ele nos surpreende e vem para o lado de cá? Essa é a minha expectativa.

Sobre o autor

Ana Karenina Berutti

Repórter do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo e mestre em Letras pela PUC Minas. Experiência de 30 anos em cobertura política e econômica.


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