Clima e conflito no Oriente Médio podem manter preços dos alimentos em alta nos próximos meses
Atribuir a um único fator a alta nos preços de alimentos e bebidas, registrada entre fevereiro e março, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), seria uma simplificação. O grupo alimentação e bebidas subiu de 0,26% em fevereiro para 1,56% em março. O acumulado do primeiro trimestre teve alta de 2,07%.
Essa é a percepção do economista da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (Ipead), Paulo Casaca. Para ele, os grupos e subgrupos de alimentos e bebidas foram “atacados” de várias formas e quase ao mesmo tempo. Ainda assim, existem alguns fatores mais visíveis que podem ser identificados.
“O fator mais evidente que pressiona o aumento dos alimentos é o impacto dos combustíveis, causado pela guerra no Oriente Médio. Porém, é um impacto que perpassa o setor como um todo. Quase tudo no Brasil é transportado por veículos movidos a petróleo. Mesmo quando se usa etanol, o custo fica elevado, pois seu preço é muito indexado ao diesel e à gasolina. Isso acaba afetando os produtos alimentícios pelo custo do transporte, que impacta o valor da produção e chega ao consumidor final”, explica.
Entretanto, um conjunto de “vilões”, frequentemente ignorados, também influencia muito no preço final de itens básicos da alimentação, como grãos, frutas, legumes, verduras e carnes em geral. Os efeitos climáticos estão entrando na equação.
“É óbvio que também temos outros efeitos que podem influenciar o setor, como os climáticos, que impactam as safras e o ecossistema agropecuário”, diz Paulo Casaca.
As elevações de preços mais expressivas neste momento são as do tomate, da cebola, da batata-inglesa e do leite, segundo o IPCA. O índice registrou, em março, aumentos de 20,31% no tomate, 17,25% na cebola e 12,17% na batata-inglesa. O leite longa vida, com 11,74%, e as carnes, com 1,73%, foram os itens com menores reajustes.
Dá para segurar os preços?
A pergunta que os consumidores, e até mesmo os produtores de alimentos e bebidas, fazem quando há grande pressão inflacionária é: será que é tão difícil segurar os preços sem repassá-los ao consumidor?
“Depende do produto, depende do setor. Em geral, há um repasse de custos de forma rápida. Se um produto chega ao ponto de venda um pouco mais caro por conta do frete, ou por qualquer outro efeito relacionado à produção de alimentos, os revendedores não ficam segurando o repasse de preço, principalmente no caso dos alimentos. Alimentos são bens com maior volatilidade de preços pela necessidade de consumo rápido”, afirma Casaca.
Além da política monetária
O economista da Fundação Ipead faz uma ponderação sobre a leitura superficial que se pode ter quanto à culpa pela inflação de alimentos e bebidas. Ele diz que é equivocado atribuir ao Banco Central ou ao governo um aumento no preço dos combustíveis que impacta toda a cadeia de produção alimentar, pois, no momento atual, uma guerra tem gerado um efeito em cascata.
“Não foi o Lula que ordenou o ataque ao Irã. Foi Trump e Netanyahu. Da mesma forma, quando era o governo Bolsonaro, também houve aumento no preço do petróleo quando eclodiu a invasão russa na Ucrânia”, pondera.
O raciocínio do economista indica que, sem o fim do conflito no Oriente Médio, a tendência é de que haja mais pressão inflacionária sobre itens básicos da alimentação dos brasileiros.
“Quando o Irã fecha o Estreito de Ormuz e impede a passagem de navios, não está bloqueando apenas o comércio de combustíveis. Também está bloqueando o comércio de fertilizantes, essencial para a produção agrícola. Sem acesso a fertilizantes, a produtividade agrícola mundial cai. Com menor produção, o preço sobe. Esse risco existe para os próximos meses”, conclui.
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