Economia

Contratações desaceleram e MPEs registram queda de 61% no saldo de vagas em Minas

Deseceleração foi notada em todos os setores analisados, com impacto mais acentuado no comércio e indústria extrativa mineral
Contratações desaceleram e MPEs registram queda de 61% no saldo de vagas em Minas
As micro e pequenas empresas respondem pela maioria das vagas com carteira assinada no País | Foto: Gil LeonardI / Impresa MG

Os efeitos da desaceleração na economia já começam a aparecer com força na base do mercado de trabalho das micro e pequenas empresas (MPEs) de Minas Gerais. Em fevereiro, o setor, responsável pela maior parte dos empregos no País, registrou saldo de 12.705 postos formais no Estado, 61% menos que no mesmo período anterior, quando atingiu 32.825 postos.

Os dados são do Painel de Inteligência do Sebrae, com base no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). A movimentação no período somou 137.992 contratações contra 125.287 dispensas, enquanto o estoque totalizou 2,7 milhões de oportunidades (+2,2%), o que significa que o número total de trabalhadores formais, com carteira de trabalho assinada, é maior hoje do que no período anterior.

A deseceleração foi notada em todos os setores analisados, com impacto mais acentuado no comércio e indústria extrativa mineral. Ambos registraram saldo positivo no ano passado e em fevereiro deste ano, apresentaram déficit no saldo de 581 e 62 postos respectivamente.

O setor de serviços, responsável por mais de 70% do saldo total para MPEs, desacelerou 45% neste ano, saindo de 16.482 para 9.027 vagas em apenas um ano. A agropecuária, que possui segundo maior peso em contratações dentre as categorias, recuou 58%, totalizando saldo de 2.228 oportunidades formais no segundo mês de 2026.

Já as indústrias de transformação e a construção civil registraram quedas ainda mais intensas, de 74% e 71%, respectivamente. Juntas, as duas atividades somaram 7.714 vagas no período, bem abaixo do observado no ano anterior.

O economista Guilherme Almeida avalia que o mercado de trabalho em Minas Gerais segue em expansão, mas com perda de ritmo. Segundo ele, embora o estoque de empregos ainda cresça, as contratações ocorrem em velocidade menor do que em períodos anteriores.

“Não é um cenário de esfriamento total. Isso ocorreria se houvesse saldo negativo combinado à queda no estoque de empregos. O que vemos hoje é uma transição de um crescimento acelerado para um ritmo mais moderado e conservador”, afirma.

Almeida explica que a desaceleração tem múltiplas causas. Entre elas, a sazonalidade (já que o início do ano costuma ser menos aquecido após o pico de contratações temporárias no fim do ano), possíveis sinais de saturação em alguns setores e o aumento dos custos operacionais, pressionados por juros elevados.

Uma dos resultados mais impactantes para a economia é o desempenho negativo do comércio, que já perdura por alguns meses. Na avaliação do economista, o setor é altamente sensível a variáveis macroeconômicas, especialmente renda e crédito.

Almeida aponta que três fatores explicam a perda de fôlego no segmento: juros elevados, inflação ainda pressionada e alto nível de endividamento das famílias. “Com o crédito mais caro, principalmente para bens duráveis e semiduráveis, o consumo tende a cair. Ao mesmo tempo, a inflação, sobretudo de alimentos, que têm peso relevante no orçamento, reduz o poder de compra e limita gastos com outros itens”, salienta.

Belo Horizonte lidera, mas polos regionais também impulsionam empregos

Dentre as cidades, Belo Horizonte lidera com saldo de 1.703 oportunidades para micro e pequenos negócios, seguido por Uberlândia (1.006), Nova Serrana (889), Ipatinga (754) e Betim (527). Em contraste, Ubá (-217), Teófilo Otoni (-101) e Arinos (-82) registraram os piores saldos, com as demissões se sobrepondo às contratações.

Para Almeida, a presença de um hub de serviços na capital mineira continua sendo o principal motor de crescimento, absorvendo sobretudo mão de obra de entrada, muitas vezes do varejo. Já Uberlândia se destaca pela localização estratégica e pela força logística, sobretudo com vocação para o agronegócio, o que impulsiona a atividade local.

Em Nova Serrana, polo calçadista, o diferencial é a resiliência. O economista explica que pequenas indústrias têm alta capacidade de adaptação, ajustando rapidamente a produção às demandas do mercado interno e externo.

“São vocações distintas que ajudam a explicar por que essas cidades seguem entre as maiores geradoras de emprego. Mas, feita essa ressalva, o cenário de desaceleração é comum às três”, destaca Almeida.

Ano deve ser de cautela para novas contratações

Para os próximos meses, a tendência é de uma desaceleração na geração de vagas. Segundo o economista, a revisão nas expectativas de juros, diante de incertezas externas e pressões inflacionárias, deve manter o crédito caro e restringir investimentos. Com isso, decisões como expansão de negócios, abertura de novas unidades e contratação de mão de obra tendem a ser mais cautelosas.

“O cenário é de incerteza para o mercado de trabalho em Minas Gerais, e a tendência é de desaceleração na geração de vagas ao longo do ano. Ainda assim, o impacto deve variar entre setores: alguns podem se beneficiar da sazonalidade, enquanto outros seguem mais sensíveis às condições financeiras e ao ambiente econômico”, finaliza.

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