Negócios Sustentáveis

O agro superou a mineração, e o que Minas ainda não aprendeu com isso

O mundo agora exige que se prove, com dados e rastreabilidade, que o campo é sustentável

O agronegócio mineiro acaba de superar a mineração em PIB. Mas produzir bem nunca foi suficiente, o mundo agora exige que se prove, com dados e rastreabilidade, que o campo é sustentável. E Minas ainda está aprendendo essa língua.

Há uma virada histórica acontecendo em Minas Gerais que ainda não entrou no vocabulário cotidiano de seus empresários, seus conselhos de administração, suas câmaras de comércio. Em 2025, pela primeira vez, o agronegócio mineiro ultrapassou a mineração em participação no PIB estadual. R$ 250 bilhões. Um número que não é apenas econômico. É uma declaração de identidade. E Minas está processando o que isso significa.

O gigante que cresceu no silêncio

Minas Gerais exporta para 175 países. Café, leite, soja, milho, cana, horticultura – uma diversidade produtiva que nenhum outro estado brasileiro consegue replicar com a mesma profundidade territorial.

O Triângulo Mineiro exporta grãos para a Ásia. A Zona da Mata entrega café especial para torrefadores europeus que pagam prêmio por origem rastreada. O Sul de Minas sustenta uma cadeia leiteira que abastece metade do Brasil.

Isso não aconteceu por acidente. Aconteceu por décadas de investimento em pesquisa, em extensão rural, em cooperativismo, em irrigação. Aconteceu porque o produtor mineiro aprendeu, na prática, que diversificar é sobreviver. O problema é que aprender a produzir e aprender a narrar o que se produz são habilidades diferentes. E o mundo, agora, cobra as duas.

O que o mercado está perguntando, e Minas ainda não ouviu


Quando um importador europeu fecha contrato com um exportador de café mineiro hoje, ele
não pergunta apenas preço e qualidade. Ele pergunta: qual é a pegada de carbono desse lote? Existe trabalho análogo à escravidão nessa cadeia? Há desmatamento associado a essa produção nos últimos cinco anos? A propriedade está regularizada fundiariamente Não são perguntas filosóficas. São critérios de acesso a mercado.

O Regulamento Europeu sobre Desmatamento (EUDR ) entrou em vigor em junho de 2023. Ainda que tenha tido sua aplicação prática adiada (dez/25 para grandes empresas e jun/26 para pequenas), ele já impõe rastreabilidade georreferenciada para café, soja, madeira e outros produtos que chegam à União Europeia. O CSRD, a nova diretiva europeia de reporte de sustentabilidade, obriga grandes empresas a divulgarem os impactos de toda a sua cadeia de fornecimento, o que inclui, diretamente, o produtor rural
brasileiro que vende para elas.

E a Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD) chegou para fazer com o tema da biodiversidade o que o TCFD fez com o clima: transformar natureza em linguagem financeira. Bancos, fundos e seguradoras que adotam o TNFD passam a avaliar riscos relacionados ao uso da terra, à saúde dos solos, ao status de bacias hidrográficas. O produtor que não tiver essas respostas vai encontrar crédito mais caro, ou nenhum crédito.

Minas Gerais tem 12 das 12 bacias hidrográficas mais estratégicas do Brasil nascendo ou passando pelo seu território. Tem o Cerrado, que é um dos 36 hotspots de biodiversidade do planeta. Tem o agro que superou a mineração. E tem, ainda, uma enorme lacuna entre o que produz e o que documenta.

O que o agro mineiro já está fazendo bem e precisa escalar

Não é justo pintar um cenário só de omissão, afinal de contas, há movimentos concretos e
promissores acontecendo. O programa Irriga Minas, uma iniciativa do Governo de Minas Gerais, executada pela Emater e pela Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa) em parceria com prefeituras, distribuiu 20 mil kits de irrigação por gotejamento a agricultores familiares – um avanço real de produtividade com potencial de redução de risco climático.

A Emater-MG regularizou mais de 12 mil títulos fundiários no mesmo período, desbloqueando acesso a crédito para produtores que viviam na informalidade há gerações. O Circuito de Oportunidades de Minas
gerou R$ 28,6 milhões em 2025, com 80% das negociações tendo continuidade após os
eventos.

O cooperativismo mineiro – especialmente no café e no leite – já pratica rastreabilidade há anos, porque os mercados de origem controlada exigem isso. Nesse sentido, escalar o que já funciona é mais urgente do que inventar o que ainda não existe. O desafio é que essas ilhas de excelência ainda não viraram arquipélago. A rastreabilidade que o exportador de café especial da Serra da Mantiqueira domina não chegou ao produtor de soja do Triângulo que vende para o mesmo mercado internacional. A governança
ambiental que a grande cooperativa pratica não desceu para o pequeno produtor integrado.

A lição que Minas ainda precisa aprender

O agro que superou a mineração em PIB ainda não superou a mineração em mentalidade
estratégica. E isso é uma provocação necessária. A mineração, com todos os seus problemas, e Mariana e Brumadinho estão aqui pra nos lembrar quais são eles, sempre soube que estava inserida em cadeias globais, sujeita a escrutínio internacional, dependente de reputação para acessar capital. O agro mineiro
chegou a um porte equivalente sem necessariamente ter desenvolvido essa consciência institucional.

O produtor que planta café há três gerações na mesma terra, que nunca desmatou, que cuida da nascente como cuida da família, que tem a rastreabilidade na memória afetiva de cada safra – esse produtor precisa aprender a falar a língua que o mundo agora exige. Não porque a língua seja mais importante que a prática. Mas porque sem ela, a prática fica invisível para quem decide onde compra, onde investe, onde financia.

Rastreabilidade é narrativa com dado. ESG no campo é prática com documento. Sustentabilidade no agro é o que o produtor mineiro já faz — traduzido para o vocabulário de quem o financia e de quem o compra.

O que está em jogo


Minas Gerais tem uma janela de oportunidade que não vai ficar aberta para sempre. Enquanto concorrentes latino-americanos e africanos ainda estão construindo suas cadeias produtivas, MG já tem produto, já tem diversidade, já tem cooperativismo, já tem mercado.

O que falta é urgência institucional. É o governo estadual tratando rastreabilidade como política pública de competitividade, não como exigência burocrática. É o sistema financeiro oferecendo crédito diferenciado para produtores que documentam suas práticas. É a Federação da Agricultura entendendo que a pauta ambiental não é inimiga do produtor – é o passaporte para os mercados que pagam mais.

O agro que superou a mineração tem tudo para liderar a próxima fase do desenvolvimento de Minas. Mas para isso, precisa parar de se ver como vítima de exigências externas e começar a se ver como protagonista de um padrão que o mundo vai adotar de qualquer forma. Mais vale chegar primeiro.

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