Energia barata, por que não?
Há uma contradição instalada no coração do setor elétrico brasileiro: o País gera energia em abundância, hidrelétrica, solar, eólica, térmica, e ainda assim o consumidor paga cada vez mais caro pela eletricidade que chega à sua tomada. O reajuste de cerca de 6% anunciado pela Cemig deixou evidente que o problema não está na escassez de produto, mas na forma como a energia é precificada, transportada e entregue. Corrigir esse desencontro entre oferta e custo é uma das tarefas mais urgentes da política energética nacional.
O primeiro nó a desatar é o modelo matemático que define o preço da energia no sistema. Concebido numa época em que o País dependia quase exclusivamente das hidrelétricas, ele carrega uma aversão ao risco elevada: ao menor sinal de estresse nos reservatórios, aciona as termelétricas, as mais caras da matriz, para cobrir a demanda por precaução. O resultado é um custo inflado que não reflete a realidade de uma geração hoje diversificada e robusta. Rever esses parâmetros, reduzindo a aversão ao risco sem comprometer a segurança do fornecimento, seria um primeiro passo concreto para aliviar a conta de luz.
O segundo gargalo é físico: faltam redes de distribuição em alta tensão. O diagnóstico do ex-presidente da Cemig e de Furnas, Aloísio Vasconcelos, é preciso: operar com baixa tensão encarece o sistema e onera tanto o consumidor residencial quanto o industrial. Ampliar essas linhas e incentivar grandes consumidores, como mineradoras e indústrias do interior de Minas, a migrarem para patamares mais eficientes reduziria estruturalmente o custo de entrega. O mercado livre de energia não cumpriu seu potencial porque a infraestrutura de distribuição não acompanhou a expansão da geração.
A terceira frente é o armazenamento: incentivar baterias na geração distribuída permitiria injetar energia excedente na rede nos horários de pico, equilibrando a carga e barateando a tarifa.
As soluções existem, são tecnicamente fundamentadas e apresentadas por especialistas com longa experiência no setor. O verdadeiro obstáculo, como reconhecem esses mesmos especialistas, não é técnico: é político. Pressões de grupos específicos e interesses setoriais travam reformas que beneficiariam a maioria. O Ministério de Minas e Energia precisa assumir o protagonismo nesse processo, com apoio da Aneel, da CCEE e do ONS, e liderar essa remodelação com coragem técnica e independência política.
Energia cara não é apenas um problema de tarifa. É um freio ao desenvolvimento industrial, uma ameaça às margens empresariais e uma injustiça com o consumidor. O Brasil tem energia de sobra. Está na hora de fazer com que ela chegue a todos com eficiência e a preço justo.
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