O PJ deixou de ser exceção e o mercado ainda não percebeu
Recentemente conheci um estudo, “Perfil do PJ Corporativo”, da Company Hero, em parceria com a Opinion Box, que mapeou o perfil do profissional PJ no Brasil: mais de 22 milhões de pessoas que hoje trabalham sem carteira assinada, muitas delas em posições de liderança. À primeira vista, parece só mais uma estatística sobre o mercado de trabalho. Mas, quando você olha com atenção, encontra ali uma pergunta que interessa a qualquer empresa que se diz movida por propósito: estamos tratando essas pessoas como parceiras ou só como uma linha a menos na folha de pagamento?
O estudo mostra algo curioso. A maioria desses profissionais escolheu esse caminho: 71% negociaram ou optaram conscientemente por atuar via CNPJ, em busca de autonomia e remuneração melhor. Não é gente fugindo de algo. É gente caminhando em direção a algo. E, ainda assim, dois terços deles seguem sem nenhum tipo de cuidado estruturado por parte de quem os contrata.
Isso me lembra uma cena que costumo trazer quando falo de liderança: a de um comerciante tão concentrado em fechar uma grande venda que ignora um pedido de ajuda ao seu lado. No fim do dia, alguém pergunta a ele qual foi seu melhor negócio. E a resposta certa não estava na nota fiscal mais alta, mas naquilo que ele deixou passar sem perceber: a chance de enxergar quem estava bem à sua frente.
É mais ou menos o que acontece quando uma empresa trata o PJ apenas como uma sigla no contrato. O CNPJ existe no papel, mas o CPF continua ali, sentindo, se organizando, tentando entender se pertence a algum lugar. E os dados confirmam isso: 75% desses profissionais recebem algum tipo de avaliação de desempenho e, ao contrário do que se poderia imaginar, 62% dizem que isso os faz sentir mais valorizados, não menos livres. Ser visto, aparentemente, importa mais do que ser deixado sozinho.
O ponto mais delicado, porém, está na saúde. 79% consideram o plano de saúde essencial. Apenas 6% têm acesso a ele. Entre um número e outro mora uma lacuna que não é só contratual: é humana. É a diferença entre uma empresa que enxerga risco jurídico em cada gesto de cuidado e uma empresa que entende que cuidar bem de quem entrega valor todos os dias não é generosidade: é coerência.
Talvez o maior engano do mercado seja achar que autonomia e proteção são opostas, como se cuidar de alguém fosse, necessariamente, prendê-lo. O próprio estudo revela o contrário: 87% dos profissionais acreditam que remuneração justa e benefícios reduzem riscos, inclusive os jurídicos. Ou seja, a compaixão aplicada à gestão não é só bonita. Ela também é estratégica.
Fica um convite, então, para quem lidera equipes com PJs no time: da próxima vez que bater o olho numa planilha de custos, tente enxergar, por trás de cada CNPJ, o CPF que decidiu confiar o próprio sustento à sua empresa.
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