Eleição de um Brasil mais velho
Os números divulgados pelo TSE na segunda-feira (20) confirmam uma tendência que já vínhamos acompanhando: o Brasil chega às eleições de outubro com um eleitorado sensivelmente mais velho. Dos 158,7 milhões de aptos a votar, quase 38 milhões têm 60 anos ou mais, parcela que cresceu de forma consistente enquanto o contingente de jovens adultos, entre 21 e 34 anos, encolheu no mesmo período. Trata-se de uma inflexão demográfica que não deveria ser lida apenas como curiosidade estatística, mas como dado estrutural para qualquer análise séria do pleito, inclusive sob a ótica econômica que é a vocação deste jornal.
Um eleitorado mais velho tende a priorizar pautas distintas das que mobilizam o público jovem: previdência, saúde pública, custo de vida e estabilidade macroeconômica ganham peso relativo diante de temas como emprego de primeira oportunidade ou transformação digital do mercado de trabalho. Os pré-candidatos à Presidência já parecem ter percebido o movimento, e não é por acaso que as campanhas em construção sinalizam discursos de proteção social e previsibilidade fiscal com mais ênfase do que nas eleições anteriores.
Minas Gerais, com 16,4 milhões de eleitores e como segundo maior colégio eleitoral do País, tem papel decisivo nessa equação. O Estado carrega uma economia diversificada, com forte presença do agronegócio, da indústria de base e de um setor de serviços em expansão, e um eleitorado cuja composição etária reflete a mesma tendência nacional de envelhecimento. Isso significa que candidaturas ao governo estadual, ainda em definição tanto no campo governista quanto na oposição, precisarão equilibrar discurso de continuidade fiscal com respostas concretas para uma população que envelhece e que depende cada vez mais de políticas previdenciárias e de saúde bem desenhadas.
Há ainda um recorte que merece atenção da imprensa econômica: a queda de 22,8% no registro de eleitores de 16 e 17 anos em relação a 2022. Se por um lado esse público não é obrigado a votar, por outro sua mobilização em pleitos recentes mostrou capacidade real de influenciar o resultado, especialmente quando movida por campanhas digitais. A retração desse grupo pode significar menor pressão por pautas ligadas a trabalho, educação e empreendedorismo jovem, justamente os temas que sustentam parte da inovação econômica que o País precisa discutir com urgência.
Cabe à imprensa, e a este jornal em particular, ir além da leitura eleitoral imediata. O envelhecimento do eleitorado é também um retrato antecipado dos desafios fiscais e produtivos que o Brasil enfrentará nas próximas décadas, entre pressão previdenciária crescente e necessidade de renovação da força de trabalho. Ignorar essa camada estrutural em nome da disputa entre nomes e siglas seria abrir mão da função mais relevante do jornalismo econômico: explicar não apenas quem vence a eleição, mas que país sairá dela.
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