Toda empresa é um time: o que a Espanha da Copa pode ensinar sobre liderar equipes
No dia em que estou escrevendo essa coluna, ainda não temos o resultado do final da Copa do Mundo, mas o dia em que você, leitor e leitora, vai ler, sim. Mas, independentemente do resultado, o que quero compartilhar aqui, com vocês, é sobre o processo e a trajetória.
A Espanha manteve-se invicta em 37 jogos, com uma campanha que impressiona menos pelo talento individual dos seus jogadores e mais pela forma como esse talento foi organizado em torno de um projeto coletivo.
Luis de la Fuente assumiu o comando da seleção espanhola em dezembro de 2022, pouco depois da eliminação precoce no Catar. Quase quatro anos depois, o retrospecto fala por si: 49 jogos, 37 vitórias, 10 empates e apenas duas derrotas, um título de Eurocopa sobre a Inglaterra e uma Liga das Nações erguida nos pênaltis contra a Croácia. Antes de chegar à seleção principal, ele já trabalhava havia anos nas categorias de base. Não por acaso, nove dos jogadores que hoje disputam a final estiveram também na decisão olímpica de Tóquio, em 2021, sob seu comando. Não é um técnico que herdou uma geração pronta: é alguém que construiu, junto com os jogadores, uma identidade ao longo do tempo.
Depois de vencer a França na semifinal, De la Fuente resumiu o trabalho em uma frase: começamos há quase quatro anos com uma ideia e nos mantivemos firmes nela. Ideia, permanência e coletivo, sucesso que sustenta o futebol da Espanha, e que pode servir de exemplo para as organizações.
Toda empresa é, em alguma medida, um time em busca de coesão. E toda liderança enfrenta o mesmo desafio de De la Fuente: como transformar talentos individuais, com histórias e estilos diferentes, em um conjunto que joga a favor do mesmo objetivo?
A resposta que o exemplo espanhol sugere é conhecida, mas frequentemente negligenciada nas empresas: tempo de convivência, conhecimento profundo de cada pessoa do time e consistência na forma de liderar. Não se constrói um coletivo forte trocando de estratégia a cada trimestre, nem ignorando o que cada colaborador tem de melhor a oferecer. Um bom líder, assim como um bom técnico, não deve tentar uniformizar o seu time. E sim identificar as diferenças de repertório e função, organizar um conjunto diverso para que funcione com sentido coletivo.
Isso conversa diretamente com o que discutimos aqui quando falamos de diversidade e inclusão nas organizações: não basta reunir pessoas diferentes em uma mesma equipe. É preciso que a liderança seja capaz de enxergar essas diferenças como potência, e não como obstáculo à padronização. Um time coeso não é um time igual; é um time bem liderado.
Fica o convite para pensarmos algumas práticas de liderança inspiradas nesse momento da seleção espanhola:
• Invista tempo real em conhecer cada pessoa do seu time, suas motivações e seus pontos fortes.
• Tenha uma direção clara e sustente-a com consistência, sem abandonar o projeto ao primeiro tropeço.
• Reconheça o coletivo, mas capitalize as individualidades: cada colaborador cumpre um papel específico dentro do todo.
• Esteja presente na rotina da equipe, não apenas nos momentos de resultado.
Construa confiança antes de exigir desempenho: ela é a base de qualquer time que joga junto de verdade.
A Espanha pode não ser a campeã do mundo. Mas já venceu, há tempos, o desafio mais difícil de qualquer liderança: transformar um grupo de talentos em um verdadeiro time.
Ouça a rádio de Minas