Agronegócio

Crise global e entraves ameaçam polo de fertilizantes de Minas Gerais

Análise é do Sinprifert; Mosaic paralisou recentemento operações em complexos do Alto Paranaíba
Crise global e entraves ameaçam polo de fertilizantes de Minas Gerais
Conflitos no Oriente Médio e no Leste Europeu afetaram a oferta de insumos para a indústria de fertilizantes | Foto: Reprodução Adobe Stock

Essencial para reduzir a dependência brasileira de importações, o polo de fertilizantes de Minas Gerais está ameaçado pela crise global do setor e por entraves em políticas de Estado, o que coloca em xeque a viabilidade de plantas no Brasil.

Em abril, a Mosaic Company hibernou o Complexo Mineroquímico de Araxá, no Alto Paranaíba, e pôs os ativos no município à venda. O grupo americano também paralisou as operações do Complexo de Mineração de Patrocínio, na mesma região. As medidas devem reduzir em cerca de um milhão a produção anual de fosfato da Mosaic Fertilizantes.

A decisão foi atribuída à estratégia de redução de custo e realocação de capital para áreas que garantam maior retorno financeiro, mas veio após impactos relacionados a uma alta significativa nos preços do enxofre. No ano passado, as atividades destas unidades, assim como das unidades da empresa no Paraná, já haviam sofrido interrupções temporárias.

O ponto é que a Mosaic poderá não ser um caso isolado. O diretor-executivo do Sindicato Nacional das Indústrias de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert), Bernardo Silva, ressalta que se as empresas não encontrarem insumos em escala e custo viável para produzirem fertilizantes no Brasil, há risco real de mais plantas pararem ou hibernarem.

“A produção doméstica de fosfatados depende de enxofre importado. Se não há enxofre em escala e preço, se torna inviável produzir nacionalmente. É um diagnóstico totalmente realista de como a cadeia funciona”, afirma.

Fertilizantes
Brasil e, consequentemente, Minas Gerais são altamente dependentes de fertilizantes para setor agrícola | Foto: Wenderson Araujo / Trilux / CNA

“Da mesma forma ocorre com os nitrogenados. Se não tivermos medidas para ofertar gás natural, biometano e hidrogênio verde para produzir a amônia em um custo viável no País, as plantas não vão ter viabilidade”, ressalta, afirmando também que para os potássicos, o grande problema está em debates ideológicos e regulatórios que impedem uma maior exploração das reservas minerais brasileiras de potássio.

Executivo avalia crise atual como mais grave que a de 2022

O cenário atual se configura, segundo Silva, como uma “tempestade perfeita” que supera em gravidade a crise de 2022, quando o início da guerra entre Rússia e Ucrânia provocou uma “explosão” nos preços globais de fertilizantes. Enquanto naquele período a preocupação era a volatilidade extrema dos preços, hoje o desafio se tornou multifacetado.

Ele explica que, há quatro anos, embora os preços de fertilizantes tivessem disparado, os das commodities agrícolas estavam em níveis vantajosos, conferindo aos agricultores brasileiros um poder maior de compra. Contudo, essa equação já não é a mesma.

Recentemente, com a escalada do conflito no Leste Europeu, houve destruição de plantas de fertilizantes e unidades petroquímicas, além do colapso de infraestrutura portuária na região. Isso tem gerado problemas de capacidade produtiva e logística.

Em paralelo, a guerra iniciada no Oriente Médio vem provocando gargalos semelhantes, com ativos industriais e de escoamento de produtos e insumos sendo destruídos na região. Esse conflito também está resultando em uma alta significativa nos preços dos fertilizantes e insumos para o setor, além de aumento nos custos logísticos.

Conforme o diretor-executivo do Sinprifert, outro grande problema para o setor trata-se da transição energética. Silva esclarece que matérias-primas como enxofre, amônia e ácido fosfórico estão sendo direcionadas para a produção de baterias e a lixiviação de alguns minerais críticos, criando uma disputa de demanda e escassez de oferta.

Bernardo Silva
Diretor-executivo do Sinprifert, Bernardo Silva: mais grave que crise de 20222 | Foto: Arquivo pessoal / Bernardo Silva

Segundo ele, isso tem elevado os custos das empresas. É um dos motivos para a disparada dos preços do enxofre no mercado global. E tem resultado na paralisação de plantas.

“Também tem a questão doméstica. Os preços das commodities agrícolas não estão no mesmo patamar de 2022, ou seja, menos renda para o agricultor poder comprar fertilizante, que está mais caro. Há problemas de financiamento, com menos recursos do Plano Safra e recursos de financiamento mais caros devido aos juros mais altos. Tem recuperação judicial explodindo, algo que não havia em 2022 no patamar de hoje”, acrescenta.

Minas Gerais precisa ter um plano estadual de fertilizantes condizente com sua relevância, afirma Silva

O Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) diagnosticou corretamente a crítica dependência do Brasil na importação de fertilizantes e aponta as medidas para reverter a situação, Porém, apresenta falhas, carecendo de profundidade, por exemplo, em relação ao enxofre, e pecando em governança e implementação, conforme o diretor-executivo do Sinprifert.

Algo que enfraquece o próprio PNF, segundo ele, é o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert) estar parado no Congresso Nacional. Para Silva, Minas Gerais deveria ser o principal interessado em ver o Profert aprovado.

“Mas a gente vê que o Estado está perdendo por w.o. As plantas estão fechando e não estão agindo com a celeridade e o protagonismo que deveriam ter”, afirma.

Ele reconhece que Minas Gerais liderou uma importante mudança para o setor no passado – a correção de um problema estrutural tributário relacionado ao Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Contudo, ressalta que o Estado precisa ser mais protagonista em outros temas, justamente por ter um polo de fertilizantes tão relevante.

“Entendemos que Minas Gerais precisa ter um plano estadual condizente com o papel que tem de maior polo industrial de fertilizantes do País e da América Latina. Isso significa organizar as regulações que impõem custos e prazos à uma cadeia que precisa de custos e prazos mais viáveis. Direcionar recursos financeiros e estratégicos do Estado para essa cadeia. E ter protagonismo não apenas na discussão estadual, mas também nacional”, diz.

Para o diretor-executivo do Sinprifert, se com toda sua relevância no setor Minas Gerais não tiver um plano estadual de fertilizantes, não estará sabendo explorar as vantagens que o Estado possui em termos de reservas geológicas, energia renovável, parque industrial instalado e de competência natural que tem na cadeia.

Estado reitera incentivo à mineração de agrominerais e à produção de fertilizantes

Em nota, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede-MG) afirma que atua de forma planejada no incentivo à mineração de agrominerais, para ampliar a oferta desses minerais no mercado mineiro, bem como a produção de fertilizantes no Estado.

“Nos últimos anos, foram firmados Protocolos de Intenções e, por meio da Invest Minas, a Sede-MG têm oferecido suporte às empresas mineradoras interessadas em se instalar em Minas Gerais com implantação e expansão de plantas industriais, viabilizando investimentos que fortaleçam a cadeia produtiva de fertilizantes”, sublinha.

A pasta também diz que, além do apoio na atração de investimentos, visando manter a competitividade no setor, o Plano Estadual de Mineração de Minas Gerais (PEM-MG) e o Diagnóstico do Setor Mineral de Minas Gerais são dois instrumentos que apresentam um panorama de oportunidades e de ações estratégicas sobre os agrominerais no Estado.

“Diante disso, atualmente, Minas Gerais ocupa o primeiro lugar no País em relação à produção mineral de fosfato, matéria-prima para a produção de fertilizantes. Em 2024, foram produzidas 3,36 milhões de toneladas de fosfato beneficiado (36% do total nacional), o que demonstra a importância do estado na produção deste agromineral para o Brasil, país que ainda é altamente dependente de fertilizantes importados”, reforça.

Ainda de acordo com a Sede-MG, o valor da produção mineral (VPM) de fosfato de Minas Gerais cresceu nos últimos anos. Mencionando dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), a pasta pontua que o montante subiu de R$ 1,3 bilhões em 2020, para R$ 2,3 bilhões em 2024, representando 56% do total nacional.

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