A Inteligência Artificial precisa servir à humanidade, e não o inverso
Cerca de 30 milhões de empregos no Brasil podem ser impactados pela automação até 2026, segundo a OCDE. Em Minas Gerais, onde mineração, siderurgia e agroindústria estruturam a economia e a empregabilidade de centenas de municípios, esse número não é abstrato: é território, é renda familiar, é arrecadação municipal.
Qual é o limiar aceitável de introdução de IA nas nossas operações, considerando o impacto que essa tecnologia gera sobre a força de trabalho?
1. As três vozes que dimensionam o que está em jogo
Dario Amodei, CEO da Anthropic, criadora da Claude, uma das plataformas de IA mais usadas no mundo, afirmou em entrevista recente que o fenômeno “é mais amplo, mais profundo e está crescendo mais rápido” do que se imaginava, num cenário em que praticamente não existem instrumentos de proteção de empregos nem governança coletiva mínima sobre o tema.
No podcast “O Assunto”, de Natuza Nery, a discussão articulou IA e crise do modelo capitalista. E Larry Fink, CEO da BlackRock, alertou em sua carta anual de 2026 que “o velho modelo de capitalismo global está se fragmentando e que a inteligência artificial pode acelerar ainda mais a concentração de riqueza nas mãos de poucos”.
2. A IA como motor de desigualdade
Combino essas três perspectivas para falar do aspecto social: se por um lado a IA torna nossas vidas mais práticas, por outro, amplifica os efeitos mais perversos do modelo econômico vigente. A economia global já é extremamente concentrada. O excedente da nova eficiência não será distribuído, ele seguirá nas mãos de poucos. É a IA funcionando como motor de desigualdade.
3. Os dados sobre o Brasil são contundentes
O FMI estima que 40% dos trabalhadores brasileiros estão expostos à IA, sendo que cerca de 20% da população ocupada possui alta exposição e baixa complementaridade em situação real de vulnerabilidade à substituição.
Relatório recente da ESPM, com base na PNAD Contínua, traz um dado que reorganiza o debate: profissionais com ensino superior completo são 16% da população ocupada, mas 58% do grupo de alta exposição. Diferentemente das ondas tecnológicas anteriores, a pressão chega primeiro sobre funções cognitivas, administrativas, analíticas e criativas.
Sobreposto a isso, seguimos com 38,6% da população ocupada na informalidade, taxa que sobe para 44,1% entre homens negros e 41% entre mulheres negras (IBGE/MTE). É sobre essa base já desigual que a IA chega.
4. O dilema mineiro: dois movimentos simultâneos
Para Minas, isso significa pensar simultaneamente dois movimentos. De um lado, setores intensivos em capital como mineração e siderurgia, que tendem a absorver IA com ganhos de produtividade e redução de postos médios. De outro, uma economia de serviços e administração pública que emprega exatamente o perfil mais exposto identificado pela ESPM: escolaridade superior, funções analíticas, atividades de escritório.
A combinação pode produzir, ao mesmo tempo, menos vagas operacionais nos territórios produtores e menos vagas qualificadas nos centros urbanos.
A provocação que fica para executivos e conselheiros de administração é estratégica e reputacional. Se a empresa tem um compromisso de sustentabilidade que passa pela geração de emprego e renda, como argumenta com o território, com as comunidades, com seus stakeholders, que a operação está mais eficiente, mas terá menos postos de trabalho disponíveis para a população?
5. A escolha sobre a mesa: pacto coletivo ou abismo social
Ainda que algumas (poucas) organizações estejam estruturando sua própria governança de IA, o ponto central é outro: como a sociedade tem se organizado para lidar com ela?
Defendo que essa tecnologia precisa ser tratada como tema de política pública, alcançando educação, emprego e renda, inovação – em vez de simplesmente deixar o tema evoluir naturalmente, em perfeita referência à lei da evolução e sua lógica de sobrevivência dos mais aptos. Apesar de ser o setor privado quem acelera a introdução da IA, ele não vai dar conta dessas amarrações sozinho. Daí a necessidade de parceria com o poder público e a sociedade civil, num advocacy de altíssimo nível, que envolve múltiplos atores no Brasil e além de nossas fronteiras.
Seguimos medindo impacto, mas não necessariamente aplicando esses resultados para ajustar a realidade. Não estou propondo não usar IA. Estou propondo que a discussão sobre seu uso seja franqueada e compartilhada, para não ampliarmos o abismo social que carregamos há séculos no Brasil.
A escolha que está sobre a mesa dos conselhos, dos governos e da sociedade é estratégica e ética ao mesmo tempo: ou pactuamos coletivamente como a IA será introduzida, ou aceitamos viver num mundo mais eficiente, mais rico em agregado e, ao mesmo tempo, mais pobre, mais desigual e menos humano.
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