Desescalada entre EUA e Irã alivia mercados e enfraquece dólar
O avanço de sinalizações de um possível acordo entre Estados Unidos (EUA) e Irã tem provocado reflexos diretos no mercado cambial. Com a diminuição das tensões geopolíticas, o dólar vem perdendo força frente a outras moedas, movimento que traz alívio aos mercados, mas também exige cautela dos investidores. A avaliação é de economistas ouvidos pela reportagem.
Para o economista e sócio responsável da LB Endow, Eduardo Levy, a valorização recente do real está diretamente ligada à redução do risco global. “A melhora da cotação do real é consequência da diminuição do risco geopolítico. Isso pode e deve acontecer”, afirma. Ainda assim, ele pondera que o cenário permanece altamente imprevisível. “Qualquer um que preveja com toda propriedade os rumos dessa situação estará jogando conversa fora. Esse é um dos mercados mais complicados para atuar”, diz.
Levy explica que o comportamento do dólar não depende de um único fator, mas de um conjunto de variáveis que hoje guiam o mercado. “O mercado olha principalmente para cinco fatores: preço do petróleo, juros nos Estados Unidos, fluxo de capital para emergentes, risco geopolítico e a situação fiscal e política do Brasil”, observa.
Nesse contexto, segundo ele, uma eventual trégua mais consistente no Oriente Médio tende a reforçar o movimento de queda da moeda estadunidense. “Uma solução mais estável pode pressionar o dólar para baixo em vários cenários, especialmente frente a moedas emergentes”, afirma.
O economista observa ainda que o ambiente global tem favorecido a tomada de risco por parte dos investidores. “Apesar das incertezas, há um movimento de risk on, principalmente entre investidores institucionais, que buscam mercados como o Brasil”, diz.
De acordo com Levy, esse fluxo pode se intensificar caso o cenário externo melhore. “A entrada de recursos pode aumentar significativamente com a redução das tensões geopolíticas, dando mais conforto para que investidores movimentem capital ao redor do mundo, incluindo o Brasil”, frisa.
Outro ponto destacado pelo economista é a relação entre o cenário internacional e a política monetária. Segundo ele, a queda do preço do petróleo e a redução das pressões inflacionárias podem levar a cortes de juros nos Estados Unidos, ampliando o diferencial em relação ao Brasil. “Com os juros americanos cedendo e os brasileiros ainda elevados, isso favorece ainda mais a entrada de capital no País”, explica.
Apesar da incerteza, Levy avalia que o momento pode abrir oportunidades. Segundo ele, com o dólar na faixa de R$ 4,90 a R$ 4,95, a moeda norte-americana se torna atrativa para quem busca diversificação. “Eu prefiro comprar dólar do que manter posições em reais. É um momento interessante para quem ainda não tem exposição a outras moedas”, afirma.
Na mesma linha, a economista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Diana Chaib, reforça que o comportamento do dólar está fortemente atrelado ao cenário externo, especialmente às tensões geopolíticas e às decisões de política monetária dos EUA. “A guerra no Oriente Médio, ao aumentar a aversão ao risco, tende a fortalecer o dólar, já que investidores buscam ativos mais seguros”, afirma.
Segundo ela, uma possível desescalada do conflito entre Estados Unidos e Irã contribui para o movimento oposto. “Com a redução das tensões, há maior disposição para investir em mercados emergentes, como o Brasil, o que pressiona o dólar para baixo”, explica.
Ainda assim, Chaib destaca que o principal fator para o câmbio continua sendo a trajetória dos juros americanos. “Um eventual corte de juros tende a enfraquecer o dólar globalmente, enquanto a manutenção de taxas elevadas por mais tempo sustenta sua valorização”, diz.
No cenário doméstico, a economista lembra que o comportamento do câmbio também depende de fatores como a credibilidade fiscal, o diferencial de juros e o desempenho das exportações. Diante desse conjunto de variáveis, a expectativa é de um dólar com leve viés de queda em caso de melhora no ambiente externo, mas ainda marcado por volatilidade.
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