Caminhos sustentáveis

A empatia, a guerra e o clima

Sociedades que cultivam medo, hostilidade e polarização acabam mais propensas à violência

A falta de empatia é uma lógica invisível que perpassa muitos dos desafios contemporâneos. Ela está presente na escalada de conflitos como o que envolve Irã, Israel e os EUA e, de forma mais silenciosa, sustenta a inércia global diante da crise climática. Os desafios contemporâneos são expressões de uma arquitetura social incapaz de reconhecer o outro como legítimo, vulnerável e interdependente.

O povo judeu tem direito à segurança, à vida, à liberdade? O povo iraniano tem direito à segurança, à vida, à liberdade?

Creio que é fácil, para quem está de fora do conflito, perceber que a resposta para ambas é sim, mas para quem está envolvido no conflito quase sempre a resposta é não.

A falta de empatia distorce a percepção sobre direitos para quem está inserido no conflito e a escalada recente do conflito ilustra essa realidade com clareza assustadora. A percepção de risco e a retórica de inimigo absoluto alimentam um ciclo de desumanização em que cada ação reforça a narrativa de que o outro deve ser aniquilado, é perigoso e indigno de consideração. Isso legitima novas ações violentas e banaliza a perda de vidas. A eliminação da empatia está na essência de manutenção de qualquer conflito.
Quando grupos passam a enxergar o mundo em termos binários (nós contra eles) não há espaço para a empatia, e assim, pouco a pouco, sociedades inteiras se acostumam a operar sem ela.

A paralisia frente à crise climática é outra face da mesma moeda. A solução da crise climática exige que nos importemos com pessoas que ainda não nasceram, com populações que vivem longe de nós, com espécies que não falam nossa língua e com ecossistemas que não votam, não protestam e não fazem lobby. Ao nos deparar com a crise climática somos obrigados a reconhecer que nossas ações individuais e coletivas têm consequências para outros e, se entendemos que esses outros importam, a inércia deixa de ser uma opção.

Mas quando nos falta a empatia, o reconhecimento do outro não existe e sair da nossa zona de conforto se torna muito mais difícil. É por isso que quando a empatia se enfraquece, a urgência climática se dilui, o problema passa a ser do outro e não meu.

Pesquisas em psicologia do desenvolvimento mostram que a empatia surge da capacidade de interpretar intenções e emoções alheias e que isso precisa ser cultivado a partir de ambientes que valorizam a sensibilidade emocional e o reconhecimento do outro em interações reais, obtidas através de convivência pacífica e respeitosa. Quando esses elementos atuam junto, as pessoas desenvolvem comportamentos pró-sociais, como ajudar, compartilhar e confortar.

Isso significa que a empatia é uma construção social que só floresce quando é incentivada e desaparece quando é sistematicamente desvalorizada. Por isso, sociedades que cultivam medo, hostilidade e polarização estão mais propensas à violência, seja ela ativa, como na guerra, ou passiva, como na inércia climática.

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