Governança e sustentabilidade ampliam acesso ao crédito verde
Com um mercado em plena mudança, onde os consumidores estão cada vez mais atentos e a busca por impacto positivo deixou de ser um diferencial para se tornar uma necessidade, o empreendedorismo sustentável é essencial. O conceito ESG (ambiental, social e governança) que antes estava presente somente nas grandes corporações, se tornou estratégico para as micro, pequenas e médias empresas (PMEs). Hoje, os negócios precisam e buscam investir cada vez mais em sustentabilidade, já que o ESG é o novo score de crédito para o pequeno empresário.
Para isso, as PMEs precisam avançar na governança, passo importante para acessar o crédito verde que, geralmente, apresenta condições mais favoráveis de negociação e é importante para ampliar a competitividade dos negócios.
A economista da Federação do Comércio, Serviços e Turismo de Minas Gerais (Fecomércio MG), Fernanda Gonçalves, explica que o acesso a linhas de crédito verdes e a condições de financiamento mais competitivas são uma oportunidade crescente para pequenas e médias empresas. No entanto, para aproveitar esses recursos, é fundamental que os negócios demonstrem suas práticas sustentáveis e de governança de forma organizada e documentada.
“Muitas PMEs já realizam ações sustentáveis, mas a falta de registro impede que o mercado financeiro as reconheça como “verdes”, dificultando o acesso a financiamentos específicos”, diz a especialista.
Para que o mercado financeiro entenda e classifique o risco, as PMEs precisam planificar as ações, o que deve ser feito com a documentação de contratos e notas fiscais relacionados ao manejo de resíduos sólidos e com planilhas para registrar o consumo de energia e água. Essas planilhas permitem monitorar a evolução da economia ao longo do tempo, servindo como indicadores de desempenho ambiental.
“Para as instituições financeiras entenderem, é preciso que todas as ações da empresa sejam planificadas. Se é resíduo sólido, documente o contrato e a nota fiscal. Crie planilhas para mostrar o que está sendo realizado periodicamente, até mesmo para conseguir ter uma métrica da eficiência, como no consumo de energia e de água”, explica.
Além das práticas sustentáveis, a governança financeira também é crucial. Conforme Fernanda, as instituições financeiras buscam entender a capacidade de pagamento da empresa. Então, ter o Demonstrativo de Resultado do Exercício (DRE) e um controle de fluxo de caixa por meio do Demonstrativo de Fluxo de Caixa (DFC) bem organizados é fundamental.
“É importante ter um DRE e um controle de fluxo de caixa. Por meio do DRE, é possível projetar as futuras receitas e despesas. Assim, o empresário mostra que está buscando se alinhar com o lado sustentável para conseguir o recurso e que também tem seu lado financeiro ajustado, com DRE e DFC, mostrando a noção da entrada e da saída.”, informa a economista.
A organização interna, com documentação correta e planilhas detalhadas, é um diferencial. A capacidade de mensurar a porcentagem de economia de recursos de um mês para o outro, por exemplo, permite que a instituição avalie a eficácia do projeto e o impacto social e ambiental. “Sem essa métrica, o projeto se torna inviável tanto internamente quanto na busca por recursos financeiros”, explica Fernanda Gonçalves.
A economista destaca que bancos como a Caixa Econômica Federal (Caixa), Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) já oferecem linhas de crédito com foco em sustentabilidade.
De acordo com Fernanda Gonçalves, empresas que conseguem regularizar o lado financeiro e que estão adequadas às leis sustentáveis, têm maior capacidade de conseguir recursos no mercado financeiro. A documentação pronta e a demonstração de confiabilidade podem resultar em melhores condições de parcelamento em um financiamento.
Oferta de crédito verde é ampla
Em Minas Gerais, pequenas empresas que buscam crédito com foco em sustentabilidade e impacto social encontram um cenário promissor, com diversas instituições financeiras oferecendo linhas específicas. Neste cenário, o Sebrae desempenha um papel fundamental na preparação desses empreendedores para acessar os recursos.
Conforme a analista do Sebrae Minas, Débora de Souza, em Minas Gerais, entidades financeiras como o BNDES, BDMG, Sicoob, Sicredi, Banco do Nordeste e Banco do Brasil oferecem linhas de crédito voltadas para a transição energética e outros projetos de impacto social e ambiental.
“O Banco do Nordeste, por exemplo, atua em 400 municípios de Minas Gerais e atende desde microempreendedores até grandes produtores, inclusive aqueles que não são formalizados. Alguns bancos em Minas Gerais têm linhas de crédito voltadas inclusive para essa transição energética, o que, em um planejamento a curto e médio prazo do pequeno negócio, se paga inclusive em termos de menor custo no futuro. Além da transição energética, existem linhas de crédito específicas para mulheres empreendedoras, com um impacto social diferenciado”.
O Sebrae atua na orientação e preparação das pequenas empresas para acessar o crédito verde. Conforme Débora, a instituição auxilia na organização da documentação e na elaboração de projetos, garantindo que o empreendedor chegue ao banco com o máximo de preparo.
“A governança e a organização financeira são pontos essenciais para acessar o crédito de forma segura, sabendo que terá condições de pagar e que a linha trará resultados positivos. A grande questão é que os financiamentos “verdes”, normalmente, estão relacionados a investimento, então é preciso olhar as opções de mercado, os prazos de pagamento, período de carência e escolher a melhor opção conforme a necessidade e capacidade de pagamento do empresário”.
Apesar dos desafios, o crédito verde é visto como uma oportunidade promissora para as empresas. “O crédito verde contribui para que a empresa seja mais eficiente e também tenha um posicionamento de mercado mais ajustado, contemporâneo e moderno”, explica Débora de Souza.
Crédito de fomento fortalece investimentos sustentáveis no setor produtivo
Nas empresas, a transição para negócios sustentáveis, muitas vezes, demanda investimentos, por isso, o crédito é um recurso fundamental. Assim, entidades bancárias, principalmente, as de fomento, estão disponibilizando recursos com prazos e juros atrativos para que empresários, de todos os portes, consigam avançar na sustentabilidade.
De acordo com o gerente de Micro e Pequenas Empresas do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), Matheus Foureaux, o banco disponibiliza linhas de crédito para que micro, pequenas e médias empresas invistam em sustentabilidade. As opções incluem desde a linha de capital de giro até a linha de crédito verde. Nelas, os recursos podem apoiar a transição das empresas na implantação de práticas mais sustentáveis.
Os micro e pequenos empreendedores mineiros podem implementar práticas verdes nos seus negócios a partir da linha de capital de giro da instituição, modalidade que não exige apresentação de projeto para que o recurso seja liberado e garante ao empreendedor flexibilidade para investir de acordo com a necessidade, como no caso de medidas alinhadas à economia verde que podem reduzir custos, agregar valor ou ser um diferencial entre os concorrentes.
O BDMG conta com diversas linhas de crédito para os pequenos empreendedores, com taxas a partir de 0,41% ao mês + Selic e 48 meses para pagar, sendo 12 de carência, ou seja, o crédito contratado neste ano só começa a ser quitado em 2027.
“A linha de capital de giro vem para que a empresa possa ter acesso ao crédito de forma ágil, sem a necessidade de projeto. Ela tem o diferencial de 12 meses de carência e, falando principalmente em iniciativas de sustentabilidade, como em energia solar, esse é um atributo importante, já que são projetos que necessitam de um tempo de maturação para que comecem a gerar resultados”.
Os recursos dessa linha podem ser aplicados em diversas iniciativas de sustentabilidade, como energia solar, substituição de lâmpadas por LED e troca de equipamentos por modelos mais modernos e eficientes que consomem menos energia.
Para empresas de médio e grande porte, o BDMG tem linhas exclusivas para projetos que gerem impactos ambientais positivos, com destaque para a descarbonização. As taxas são variáveis, partindo do custo anual da Selic, além de prazos que podem chegar a 12 anos, incluindo dois anos de carência.
As médias e grandes empresas também podem acessar a linha “BDMG Verde” para comprar equipamentos que geram economia de energia em instalações industriais e promovem o reaproveitamento de matéria-prima. Entre outras possibilidades, está o financiamento de processos de reciclagem e de tratamento de resíduos sólidos.
Governança, Crédito Verde e ODS
| Pilar de Governança | Ação Prática (Dica) | Preparação para Crédito Verde | ODS Relacionado |
| Transparência | Publicar resumo anual de ações e resultados (DRE/DFC). | Documentação: Prova saúde financeira e transparência no uso de recursos. | ODS 12: Consumo e Produção Responsáveis. |
| Equidade | Salários iguais e ambiente diverso. | Regularização: Cumprimento de normas trabalhistas e redução de riscos jurídicos. | ODS 5: Igualdade de Gênero / ODS 10: Redução das Desigualdades. |
| Prestação de Contas | Registros financeiros em dia e auditáveis. | Capacitação: Facilita a análise de risco pelo banco e o acesso a taxas menores. | ODS 8: Trabalho Decente e Crescimento Econômico. |
| Responsabilidade | Monitorar impacto e descarte de resíduos. | Diagnóstico: Identifica oportunidades de redução de custos e eficiência produtiva. | ODS 11: Cidades e Comunidades Sustentáveis / ODS 13: Ação contra a Mudança do Clima. |
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