Mulheres investem mais tarde, mas aporte inicial é quase 3 vezes maior que o dos homens
As mulheres podem até demorar mais para entrar no mercado de investimentos, mas, quando começam, tendem a aportar valores maiores que os homens. A diferença está relacionada, entre outros fatores, ao comportamento diante das decisões financeiras. Enquanto o aporte inicial mediano das mulheres é de R$ 262, entre os homens o valor é de R$ 98, segundo dados compartilhados pela gerente de Educação da B3, Maria Luiza Limeres, em um evento de educação financeira, realizado esta semana em Belo Horizonte.
Para a gerente da B3, uma das principais barreiras enfrentadas pelas mulheres é justamente a necessidade de se sentirem preparadas antes de começar. O excesso de cautela, porém, pode acabar adiando a entrada no mercado. “Quando a gente olha, a mediana de investimento inicial da mulher é muito maior do que a do homem. Só que a mulher demora mais, porque ela está preocupada em estudar tudo o que precisa antes de começar”, afirmou no Encontro D’Elas, evento realizado pela escola Financial Experts.
Na avaliação da executiva, o conhecimento é importante, mas não deve ser transformado em uma condição para dar o primeiro passo. A recomendação é começar com o que estiver ao alcance. “Eu acho que a principal dica é começar. Comecem, gente. Hoje a gente tem, de verdade, produtos que com R$ 1 você consegue investir. Não estou inventando”, destacou.
Segundo Maria Luiza Limeres, o ato de investir, mesmo com um valor pequeno, também provoca uma mudança de comportamento. “O fato de você colocar o mínimo que seja muda automaticamente a cabeça da pessoa que pensa: ‘agora eu sou uma investidora’. Isso faz diferença”, disse.
A gerente ressalta que a jornada financeira, entretanto, não começa necessariamente pela escolha de um produto de investimento. Antes disso, é preciso organizar as contas, entender a própria situação financeira e, principalmente, sair de um eventual ciclo de endividamento.

Para quem está endividado, a orientação é priorizar a quitação das dívidas com juros mais altos. Maria Luiza também recomenda levantar receitas e despesas para descobrir exatamente quanto entra e quanto sai todos os meses. “É buscar sair do ciclo de endividamento. Então, quitar as dívidas com juros mais alto primeiro, buscar levantar o seu extrato e conhecer o quanto você gasta e o quanto você ganha”, explicou.
O exercício, embora pareça básico, ainda não faz parte da rotina de muitas pessoas. A gerente da B3 defende que é necessário olhar para as despesas e separar aquilo que é essencial do que pode ser cortado, pelo menos temporariamente. “Se você estiver gastando mais do que você ganha, já tem alguma coisa errada”, afirmou.
A ideia, segundo ela, é evitar aquela sensação de que o dinheiro desaparece sem que seja possível identificar para onde foi. Ao conhecer os próprios gastos, a pessoa consegue tomar decisões mais conscientes e abrir espaço no orçamento para começar a guardar.
Reserva de emergência antes dos investimentos
Com as dívidas sob controle e o orçamento organizado, o passo seguinte sugerido pela gerente é construir uma reserva de emergência. Maria Luiza Limeres chama o recurso de “dinheiro do não”, justamente porque ele proporciona maior liberdade para tomar decisões em situações inesperadas. “É o dinheiro da gente ter boas escolhas e dizer não para alguma coisa. Então, não para um emprego que não faz bem para a gente, não para uma situação que a gente não poderia enfrentar, mas a gente tem o dinheiro”, explicou.
A referência apresentada por ela é calcular quanto a pessoa precisa mensalmente para manter as despesas essenciais e multiplicar esse valor por seis. O resultado seria o montante a ser acumulado para formar uma reserva capaz de oferecer segurança em situações como uma emergência de saúde ou uma perda inesperada de renda.
“Eventualmente você tem algum problema de saúde, ou um desligamento da empresa que você não estava contando e aí você precisa recalcular a rota. Você tem uma segurança que aquele dinheiro vai estar ali te esperando, caso você precise”, disse.
Somente depois dessa etapa, é que Maria Luiza Limeres sugere as discussões sobre os diferentes produtos financeiros disponíveis no mercado.
Ter objetivos é o ideal
Com a vida financeira organizada e a reserva constituída, o próximo passo é definir para que o dinheiro será investido. A recomendação é estabelecer objetivos concretos antes de escolher uma aplicação.
Uma viagem, por exemplo, pode ser transformada em uma meta financeira. Se uma pessoa pretende fazer uma viagem por ano, deve calcular quanto pretende gastar e quanto precisa economizar ao longo dos meses para alcançar o objetivo.
“Quanto é que você quer gastar em cada viagem por ano? Esse é o valor que você tem que juntar por ano. Esse é o valor que você tem que achar um produto para fazer o seu dinheiro render por ano”, exemplificou.
A lógica, portanto, é inverter a ordem frequentemente adotada por investidores iniciantes. Em vez de buscar primeiro “o melhor investimento”, a pessoa deve definir o objetivo, o prazo e sua capacidade financeira para, somente então, avaliar os produtos adequados.
Para Maria Luiza, essa abordagem também ajuda a reduzir a percepção de que o mercado financeiro é excessivamente complexo.
Conhecimento e comportamento
Na avaliação da gerente da B3, investir não depende apenas de conhecer produtos, siglas e conceitos do mercado. O comportamento diante do dinheiro tem papel fundamental. “Tem muito mais do comportamento, do que o conhecimento de produto envolvido nessa discussão”, afirmou.
A gerente defende que a educação financeira deve ser contínua, mas não pode servir como justificativa para postergar indefinidamente o início dos investimentos. Ela ressalta que a própria B3 mantém iniciativas voltadas à educação financeira e ao público feminino.
A recomendação de Maria Luiza, portanto, é simples: começar pequeno, organizar a vida financeira e avançar gradualmente. “Eu acho que no final é isso que conta. (…) A minha dica é esta: comecem, nem que seja com R$ 1”, concluiu.
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