Caminhos sustentáveis

ODS à beira do colapso

Quais são os passos urgentes para reverter essa tendência?
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Este mês, as Nações Unidas divulgaram o Relatório dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável de 2026. Embora haja aspectos a comemorar, de maneira geral, vamos mal. Para se ter uma ideia, das 139 metas com série histórica disponível, apenas 36% possuem avanço considerado bom ou moderado, 49% progridem de forma excessivamente lenta para o prazo e 15% regrediram. O que mais preocupa é que faltam menos de cinco anos para o fim do prazo proposto pela Agenda 2030.

A explicação corrente para o atraso é financeira, o déficit anual de 4 trilhões de dólares que o próprio relatório aponta. Porém, na minha visão, há uma explicação complementar, menos debatida, que é de método. Um estudo publicado no International Journal of Management Reviews por pesquisadores espanhóis examinou os nove guias mais influentes de adoção dos ODS por empresas, produzidos por McKinsey, BCG, Deloitte, PwC, Pacto Global, WBCSD e Harvard Kennedy School. Deles, os autores extraíram quatro processos recorrentes e, em seguida, cruzaram esses processos com 106 artigos de alto impacto publicados em nove periódicos de gestão entre 2010 e 2020.

O achado principal é extremamente preocupante: os guias que orientam a prática empresarial global operam sem suporte em pesquisa e as pesquisas, por sua vez, deixaram de lado justamente os objetivos mais urgentes. Na amostra dos autores, os ODS 9 e 16 concentram mais de um terço dos artigos relevantes, enquanto saúde, vida na água e vida terrestre não produziram nenhum. Cidades e comunidades sustentáveis renderam um único trabalho de alto impacto. Um levantamento citado no estudo identificou apenas 24 artigos sobre mudança do clima nos principais periódicos de gestão entre 2007 e 2018. O resultado aparece nos números que os próprios consultores coletam: 92% dos gestores conhecem os ODS, mas apenas 13% dispõem de instrumentos para adotá-los.

A tradução para o setor público brasileiro é direta e desconfortável, já que boa parte dos planos plurianuais e planos diretores municipais anexa os ODS por aderência retórica, mapeando programas já existentes contra os 17 objetivos para declarar alinhamento integral. Priorizar, na gestão pública, significa identificar onde a ação inicial produz maior efeito sistêmico sobre os objetivos restantes, dada a interdependência entre eles, mas quase nenhum município faz isso efetivamente e a ausência dessa noção de alavancagem explica porque só estamos entregando avanço em dois ou três ODS, mesmo supostamente falando que estamos alinhados com todos. Enquanto priorizar seguir sendo confundido com escolher de forma dicotômica (faço ou não faço), o Brasil continuará comprometido com tudo e responsável por nada.

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Sobre o autor

Paulo Guerra

Diretor de Programas FDC Gestão Pública

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