Plano Geral

A Última Casa: o apocalipse doméstico que abraça o próprio clichê

A crítica e o público torceram o nariz em coro, mas a equação de A Última Casa (original Netflix) é mais honesta do que parece: entrega exatamente o entretenimento rasteiro que promete
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O longa pega emprestado o conceito clássico da narrativa de cerco. É uma estrutura cujos ecos remetem tanto ao faroeste Onde Começa o Inferno (1959), de Howard Hawks, quanto ao terror visceral de A Noite dos Mortos-Vivos (1968), de George Romero – aquela velha e deliciosa fórmula da claustrofobia, em que sobreviventes acuados sob o mesmo teto medem forças contra o caos que bate à porta. Porém, em vez de uma delegacia no Texas ou de uma casa de campo no interior da Pensilvânia, o confinamento aqui é na residência dilapidada de Ann e Jason, vividos por dois atores de peso: Greta Lee e Wagner Moura. Ela, uma aspirante a horticultora; ele, um engenheiro desempregado. Habilidades domésticas que, convenientemente, se provarão vitais. Seu casal de filhos idem, prestes a enfrentar uma espécie de clausura pandêmica sem máscaras, mas em que não se pode pedir comida por aplicativo.

A premissa flerta com o apocalipse: uma chuva torrencial antes do Natal força todos ao isolamento. Janelas emperram, o vidro não quebra e as paredes vedam o mundo lá fora. Ilhada, sem suprimentos e usando lousas para se comunicar com vizinhos do outro lado da rua, a família precisa aprender a caçar roedores (através da chaminé) e cultivar tomates no claustro para não ir a pique.

É a chuva que faz as vezes do antagonista: o temporal parece vir acompanhado de um selante invisível, com propriedades quase sobrenaturais, transformando cada casa num caixão blindado. Conforme os mantimentos minguam e as paredes ameaçam ruir, o espetáculo migra para dentro da cabeça dos personagens, onde a saúde mental é a primeira a ir para o ralo.

O filme opera sem pudor em dicotomias simplistas e brinca de ser clichê. A começar pela própria dinâmica da família, que assiste ao clássico Força Aérea Um em loop, decorando falas e simulando um cockpit no meio da tragédia. É, no fim das contas, um filme de suspense e ficção científica que se finge de tratado sobre “valores familiares” – quase uma lição torta para as crianças valorizarem o ar fresco, a comida e o encanamento básico.

É claro que a execução patina. O roteiro de Matthew Robinson peca por diálogos rasteiros, uma coleção de frases prontas que tentam soar profundas embora falte à boa parte da crítica a astúcia de perceber que o filme ri de si mesmo e flerta, de propósito, com os próprios clichês.

Além disso, a ausência de um vilão palpável faz com que a paciência do espectador flerte com o limite depois da décima parede desmoronando ou da enésima goteira. A Última Casa não revoluciona o gênero, longe disso, mas para quem está preso em casa, seja por motivos sobrenaturais ou por pura preguiça, vale a espiada sem grandes expectativas.

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Sobre o autor

Thiago Barcellos

Cineasta, crítico de cinema e mestre em artes. Pesquisa o cinema a partir das narrativas audiovisuais e de suas construções estéticas e afetivas, com foco na linguagem e na experiência do olhar.

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