O custo econômico de ser mulher no Brasil
Quanto mais me aprofundo no panorama econômico das mulheres no Brasil, mais um detalhe me perturba: os sinais de declínio e alerta se acumulam. Ouvi, em um evento, que a maioria das mulheres (97%) não participa de nenhuma comunidade profissional ou de negócios – não tenho a fonte oficial desse número, mas ele ecoa algo que os dados confirmam: isoladas, nossa capacidade de vender, transformar e inovar fica defasada. E o resultado desse isolamento alimenta um círculo vicioso de ansiedade e depressão. Coloque pessoas boas num sistema ruim, e o sistema vence quase sempre.
A saúde da mulher deixou de ser apenas pauta de bem-estar para virar, também, pauta econômica. Segundo o relatório Women’s Health Investment Outlook 2026 (Perspectivas de Investimento em Saúde da Mulher), do Fórum Econômico Mundial, mulheres passam 25% mais tempo da vida em condições de saúde ruim do que os homens – uma perda global de 75 milhões de anos de vida saudável. Fechar essa lacuna poderia somar US$ 1 trilhão por ano à economia mundial até 2040. Ainda assim, a saúde feminina recebe apenas 6% do investimento privado em saúde no planeta.
No Brasil, esse descompasso aparece com números concretos. Segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa, em 2026 as mulheres se tornaram, pela primeira vez, maioria entre os inadimplentes do País: 50,5% do total, contra 49,5% dos homens. Em uma década, o número de mulheres negativadas saltou de 27,7 milhões para 40,4 milhões. O motivo é estrutural: quatro em cada dez mulheres dizem ser responsáveis financeiras pelas contas de casa.
Essa sobrecarga cobra um preço na saúde mental. Dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) mostram que, em 2025, 63,46% das licenças por transtornos mentais foram concedidas a mulheres – a maioria delas com cerca de 41 anos, justamente a faixa em que mais se tornam chefes de família. Pesquisas apontam que mulheres têm o dobro de casos de depressão e quase o dobro de ansiedade em relação aos homens.
O empreendedorismo feminino cresce, mas ainda como estratégia de sobrevivência. São 10,4 milhões de mulheres donas de negócio no País, concentradas em serviços como beleza, educação e alimentação. A maioria, porém, tem capacidade de pagamento de apenas até R$ 1 mil – sinal de que é empreendedorismo de necessidade, não de escala.
A desigualdade de renda aprofunda o quadro. Mulheres chefes de família já são maioria nos lares brasileiros (51,7%), mas ganham 30% menos que os homens na mesma posição. Entre as mães solo – já mais de 11 milhões no País – a renda média é de apenas R$ 2.322, a menor entre todos os arranjos familiares.
Há ainda um elo pouco discutido: a menopausa. Estudo do Instituto Esfera estima que os sintomas do climatério geram R$ 2 bilhões em perdas por ano no Brasil, por afastamento do trabalho. Apenas 12% das brasileiras fazem reposição hormonal, taxa bem menor que na Europa. Entre as mulheres em menopausa, 93% ainda contribuem financeiramente em casa.
O ciclo se fecha: a mesma mulher que sustenta a família, adoece mentalmente, empreende por necessidade e enfrenta a menopausa sem tratamento é quem também mais se endivida. Especialistas como Nathalia Arcuri, Camila Farani e o Grupo Mulheres do Brasil defendem que, sem investimento real em saúde, crédito e liderança femininas, esse ciclo continuará se repetindo geração após geração.
De forma alguma este texto busca excluir os homens – sem eles não existiria sociedade. O convite aqui é para um despertar de consciência: ao julgarmos uma mulher, muitas vezes estamos julgando engrenagens que nos ultrapassam individualmente. Estamos falando do sistema.
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