Do campo à xícara: café vira força econômica no Vale do Jequitinhonha e movimenta cerca de R$ 640 milhões
O Vale do Jequitinhonha, historicamente associado à seca e à baixa renda, encontra no café um caminho de transformação socioeconômica. Na região da Chapada de Minas, que inclui o município de Capelinha, a cafeicultura se consolida como uma das principais atividades locais, com produção estimada de 400 mil sacas por ano, volume que movimenta perto de R$ 640 milhões anuais entre a agricultura familiar de subsistência e grandes negócios.
Na Fazenda Jacutinga, em Capelinha, uma nascente de água modesta em uma terra desafiadora virou a base de toda a operação, que completa 28 anos como referência em tecnologia e sustentabilidade na região. Concebida como projeto de aposentadoria dos produtores Clênio Lamounier e Paulo Sadi, a fazenda tem hoje 85 hectares de café e gera renda e qualidade de vida para os moradores do entorno.
“Fizemos sete pequenos barramentos para segurar a água da chuva e, com essa água, conseguimos irrigar tudo isso e garantir aos nossos vizinhos, abaixo da fazenda, um volume de água que eles não tinham”, detalha Lamounier.
Segundo ele, a região tem potencial, embora ainda pouco explorado. A precipitação supera 1.000 milímetros (mm) por ano, um volume expressivo para o Vale do Jequitinhonha, mas é mal distribuída e concentrada em poucos meses. Nesse cenário, o produtor avalia que armazenar a água das chuvas poderia transformar a realidade do Jequitinhonha, que tem clima favorável à produção ao longo do ano, mas ainda enfrenta a falta de água como principal desafio.

Foi justamente a busca por soluções para esse entrave que levou a Fazenda Jacutinga a se tornar autossuficiente em água e energia elétrica, além de contribuir para a geração de emprego, renda e melhoria da qualidade de vida na região. “Irrigamos 85 hectares de café e, ainda assim, liberamos mais água do que entra na fazenda para os nossos vizinhos. Consumimos 10 mil kWh por mês de energia elétrica e produzimos esse mesmo volume mensalmente em nossas usinas fotovoltaicas”, ressalta Sadi.
Para o cafeicultor, a propriedade poderia avançar ainda mais na autossuficiência energética, caso houvesse maior liberdade para produzir o próprio combustível. A fazenda teria plenas condições de plantar cana e produzir álcool, no entanto, entraves governamentais não permitem a realização da atividade.

“Afirmo que, mesmo na pior terra do Vale do Jequitinhonha, consigo ter uma fazenda autossuficiente em tudo. Onde existe isso no mundo? Só no nosso Brasil”, afirma Sadi.
400 mil sacas por ano: café impulsiona negócios na Chapada de Minas
A história da Fazenda Jacutinga, porém, não termina na propriedade. O café produzido no território integra uma cadeia que chega à indústria e ao consumidor por meio da Jequitinhonha Alimentos, empresa com sede em Capelinha e parceira da fazenda. É esse percurso, do campo à xícara, que ajuda a dimensionar a força que a cafeicultura vem ganhando na região.
Durante visita à fazenda, o CEO da Jequitinhonha Alimentos, Luiz Carlos Moreira, destacou que a região da Chapada de Minas tem altitude e clima que ajudam a proteger as lavouras de geadas, um importante diferencial em comparação a outras localidades. “São áreas extremamente produtivas, com lavouras bem conduzidas e irrigadas, o que garante grãos de excelente qualidade para abastecer tanto o Brasil quanto o mundo”, ressalta.
Foi nesse ambiente que Moreira enxergou uma oportunidade de negócio e, em 1997, iniciou a trajetória da Jequitinhonha Alimentos como um pequeno torrador. Com o dinheiro das primeiras vendas, comprou os moinhos para moer o café nos pontos de venda, e, o que começou com duas unidades, rapidamente ganhou escala e chegou a quase 300 pontos. Em 2000, a empresa deu um novo passo e começou a empacotar café torrado e moído sob a marca Jequitinhonha Alimentos.

Quase três décadas depois, a empresa ampliou o portfólio e passou a atuar em diferentes segmentos do mercado de café. Hoje, a Jequitinhonha Alimentos produz cafés tradicionais e extraforte, além do Café Superior, de linha premium. No ano passado, também foi lançada a marca Poema Café, voltada para cafés gourmet e especiais e comandada pela segunda geração da família.

A expansão da empresa acompanha o potencial da própria região produtora. Segundo Moreira, as 22 cidades que compõem a Chapada de Minas produzem cerca de 400 mil sacas de café por ano, movimentando aproximadamente R$ 640 milhões. “O dinheiro pode não ficar todo aqui, mas sustenta o trabalho, outros negócios e os serviços públicos, pelo pagamento de impostos”, ressalta.
Jequitinhonha leva o grão do campo à xícara

Para transformar parte dessa produção em produtos que chegam ao consumidor, a Jequitinhonha Alimentos mantém uma operação industrial em Capelinha. Com um mix de mais de 800 produtos diferentes (SKUs) cadastrados e controlados em estoque, a empresa recebe a matéria-prima, que passa por uma etapa de triagem dos grãos antes de seguir para o processo de torra.
Atualmente, a instalação tem capacidade para produzir 12 toneladas por dia, com produção estimada em 200 toneladas de café por mês. Depois da torra, o café é empacotado na própria unidade e segue na frota da empresa para os pontos de venda, fechando o percurso que começa nas lavouras da região.
Entre esses pontos está a cafeteria e livraria Papo em Dia, em Capelinha, comandada pela família Moreira. No espaço, os cafés da empresa ganham uma experiência mais próxima do consumidor, com harmonizações que incluem pão de queijo, cookie, castanha-do-pará, tartelete de noz-pecã e queijo Minas.

“Essa jornada mostra que alimento é algo sério. Trabalhamos com muita responsabilidade para garantir ao consumidor segurança e qualidade em cada produto que chega à mesa”, finaliza Moreira.
*O repórter viajou para Capelinha a convite da Jequitinhonha Alimentos
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