Abusos a conter

Medidas urgentes de contenção precisam ser aplicadas contra o avanço das bets no Brasil
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
Abusos a conter
Foto: Reprodução/ Adobe Stock

Deverá ser conhecida hoje a íntegra de documento com o sugestivo título de “Um retrato das desigualdades brasileiras: poder, privilégio e captura da democracia”, assinado pela Oxfam Brasil, braço local do Oxford Committee for Famine Relief, que atua a partir da Inglaterra desde 1942. Surgida como parte do esforço de guerra, hoje a respeitada entidade dedica-se principalmente à ajuda humanitária, propondo respostas rápidas a emergências, desastres naturais ou crises em zonas de conflito. Credenciais bastantes para avalizar o trabalho que será conhecido e com foco nas consequências da liberação, desde 2018, dos jogos eletrônicos no País.

Cabe identificar que estamos diante de uma situação já definida como de gravíssima ameaça social, econômica e política, com repercussões principalmente para a população de baixa renda. Uma realidade percebida e apontada há dois anos quando, a partir de informações coletadas pelo Banco Central foi possível saber que até mesmo recursos de programas sociais, como o Bolsa Família, estavam sendo drenados para a jogatina, com repercussões indesejadas inclusive no consumo de produtos essenciais. Foram verificados também desvios nos padrões de vendas no comércio varejista, com repercussões econômicas igualmente relevantes enquanto autoridades da área de saúde detectaram uma epidemia em curso, tendo como propulsor o vício no jogo.

Diz a Oxfam sobre o assunto: “O avanço predatório das Bets drena a renda das famílias das periferias brasileiras, transformando o orçamento da subsistência e do consumo essencial em lucro financeiro privado e gerando um endividamento em massa que penaliza fortemente os mais vulneráveis”. Um forte lobby em Brasília, onde apenas entre 2023 e 24 as casas de apostas participaram de pelo menos 78 reuniões no alto escalão da administração federal, ajuda a explicar a realidade e também como uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) foi encerrada sem relatório final, sem indiciamentos ou qualquer tipo de consequência prática no sentido de, pelo menos, conter a escalada dos abusos que acontecem às claras e, pior, sem qualquer tentativa de contenção.

Até mesmo suicídios numa escalada também inquietante são atribuídos a consequências da jogatina, do vício e do endividamento sem possibilidade de controle. Uma dinâmica, aponta a Oxfam no documento que será divulgado hoje, “absolutamente perversa”, mas persistente exatamente porque os espaços de contenção, nas três esferas do poder, parecem contaminados. Omissão que, a partir de hoje e diante da realidade que está sendo desnudada, passa a caracterizar explícita cumplicidade.

Sobre o autor

Diário do Comércio

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas