Grupo Estrela apresenta plano de recuperação judicial

O projeto para reestruturar um passivo de R$ 109.178.016,38 foi enviado à Justiça em 14 de agosto
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Grupo Estrela apresenta plano de recuperação judicial
Foto: Reprodução/YouTube Estrela

A fabricante de brinquedos Estrela protocolou seu plano de recuperação judicial na 1ª Vara Cível da Comarca de Três Pontas, em Minas Gerais.

O projeto para reestruturar um passivo de R$ 109.178.016,38 foi enviado à Justiça em 14 de agosto. Em maio deste ano, a marca informou ao mercado sobre a reestruturação. Dentre os motivos apresentados pelo grupo estão mudanças no consumo infantil, pressionado cada vez mais por plataformas digitais e jogos online, além de juros elevados e crédito mais restrito.

O banco Santander, a Claro e o fundo de investimentos B4 figuram como terceiros interessados no processo. A recuperação judicial envolve oito empresas do grupo, como a Estrela, a Starcom, Starcom Nordeste, JM Comércio, Editora Estrela Cultural, Catu Comércio de Cosméticos, Brinquemolde e a Manufatura de Brinquedos Estrela.

O plano contempla a venda de ativos na modalidade UPI (Unidade Produtiva Isolada). “A Unidade Produtiva Isolada é o instrumento que permite vender uma parte da empresa livre de dívidas, sendo que, quem compra não sucede o vendedor em obrigações tributárias, trabalhistas, ambientais, ou de qualquer natureza”, explica o especialista em recuperações judiciais Thiago Kopperschmidt, do Abi-Ackel Advogados.

A Estrela, contudo, não identifica quais ativos comporiam a operação, não fixa valor mínimo, e a deixa em aberto entre leilão e proposta fechada.

A fabricante criou brinquedos tradicionais no imaginário brasileiro, como o jogo de tabuleiro Banco Imobiliário, lançado em 1944, além da Suzi, resposta brasileira à boneca americana Barbie, e o jogo Detetive, que transformou crianças em investigadores improvisados obcecados em descobrir “quem matou”, “com qual arma” e “em qual lugar”. As bonequinhas “Fofolete” vinham em pequenas caixas de fósforo.

Apesar do plano de recuperação judicial, a Estrela continua em operações. A reestruturação é utilizada justamente para impedir que companhias entrem em falência, mantenham suas atividades e renegociem dívidas com credores.

Em meio às dificuldades financeiras, a fabricante de brinquedos deixou de publicar balanços trimestrais desde março de 2025.

Fundada em 1937, a Estrela atravessou décadas como uma das marcas mais conhecidas da indústria nacional de brinquedos e ajudou a moldar o imaginário infantil de diferentes gerações de brasileiros.

A empresa começou como uma pequena fábrica de bonecas de pano e carrinhos de madeira e se transformou, ao longo do século 20, em um dos maiores símbolos do setor no país. Foi também uma das primeiras companhias brasileiras a abrir capital, em 1944.

Concorrência asiática e juros altos

A década de 1990, quando o Brasil promoveu uma abertura econômica acelerada aos importados, teria trazido problemas que foram crescendo e se intensificando.

Para a gigante de brinquedos, não houve mecanismos suficientes para a proteção da indústria doméstica e nem uma transição gradual. A companhia, que possuía um parque industrial estruturado e um portfólio ligado aos consumidores brasileiros, teve de lidar com uma mudança classificada como abrupta com a entrada de produtos estrangeiros. Em especial, os asiáticos, que vinham com custo de mão de obra e preços consequentemente menores.

Os efeitos, argumenta o grupo, foram severos e imediatos: a empresa experimentou queda de faturamento da ordem de 50% em um ano, deixando de operar em cenário lucrativo para enfrentar estrutura deficitária, acompanhada do acúmulo expressivo de prejuízos operacionais e financeiros.

No plano enviado à Justiça, a Estrela afirma que precisou realizar cortes significativos no seu quadro de funcionários para evitar a paralisação definitiva de suas atividades. A empresa saiu de 10 mil para aproximadamente 1.500 trabalhadores. “Medida extrema, porém indispensável à preservação mínima da atividade empresarial”, aponta o documento. O pagamento das verbas trabalhistas decorrentes das dispensas em massa também pesou no fluxo de caixa já enfraquecido da companhia.

Os problemas se intensificaram com o não pagamento de impostos. A empresa aderiu a programas de refinanciamento tributário como o Refis, o que não foi suficiente.

O setor de brinquedos também encontra-se sob pressão devido à expansão classificada como agressiva das plataformas internacionais de comércio eletrônico, o e-commerce.

“A dinâmica concorrencial não atinge apenas o varejo tradicional”, diz o plano de recuperação judicial da Estrela.

“Ela compromete toda a cadeia produtiva nacional na medida em que o fabricante brasileiro, que suporta folha de pagamento, encargos trabalhistas, tributos, certificações obrigatórias, controle de qualidade, estrutura fabril, logística interna e canais formais de distribuição, passa a disputar mercado com mercadorias estrangeiras que alcançam o consumidor final sob estrutura de custo incomparavelmente inferior.”

Para a a fabricante de brinquedos em recuperação judicial, o quadro negativo se tornou ainda mais sensível nos últimos anos devido à permanência da taxa básica de juros brasileira, a Selic, em patamares elevados.

Hoje, a 14% ao ano, a taxa chegou a mínimas históricas durante a pandemia de Covid-19 e, depois, atingiu os dois dígitos. A circunstância afeta o custo de financiamento das empresas e o poder de compra das famílias, com influência direta sobre empréstimos, financiamentos e demais taxas praticadas no país.

Conteúdo distribuído por Folhapress

Maria Clara Matos
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Maria Clara Matos

Agência Folhapress

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